Pela retomada da função social do jornalismo

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Por Paula Zarth Padilha
Pensamentos imperfeitos
Terra Sem Males

Na última terça-feira, 17 de maio, ficou pronta a 5ª edição impressa do Terra Sem Males. O jornal é a nossa “menina dos olhos” nesse projeto tão amplo, e ao mesmo tempo simples, que abrange o jornalismo independente transformado em comunicação popular. Independente porque não temos viabilização financeira. Tudo o que fazemos é voluntário, por iniciativa própria ou com o apoio de entidades e pessoas. O que tem se ampliado dia após dia também é o apoio de amigos, de comunicadores populares, que acreditam na função social do Terra Sem Males, que fazem parcerias para ajudar na produção de conteúdo e na distribuição de jornal.

Eu sou jornalista por formação há 13 anos, mas somente a partir de minha inserção no Terra Sem Males, em fevereiro de 2015, me sinto, de fato, com o mesmo sentimento daquela jornalista que eu vislumbrava ser nos tempos de estudante, que sonhava em fazer o jornalismo literário, em trabalhar em alguma redação de jornal, mas que passou mais de dez anos no limbo de empregos na área sem qualquer compromisso com fazer mais do que informar seu público alvo.

Comecei no Terra Sem Males a convite do repórter fotográfico Joka Madruga, meu namorado e companheiro, idealizador do projeto e que tentou diversas vezes, segundo me contou, o apoio de jornalismo de texto com alguns colegas, mas nunca tinha dado certo. E estava escrito que tinha que ser eu. Não sei em que momento minha dedicação começou a ser recompensada. Para mim, para o que eu quero do jornalismo, e para que o Terra Sem Males criasse pernas. Mas eu sei em que momento minha vida começou a se transformar através do fazer jornalismo.

Enumero três coberturas que fiz com os olhos, com o sangue, com o suor e com o coração. Entre uma produção de conteúdo rotineira e outra, fomos parar na Ocupação Tiradentes, na Cidade Industrial de Curitiba, uma ou duas semanas depois que ela se constituiu. Fomos acompanhar uma passeata e uma assembleia dos moradores de lá, unidos com as famílias das ocupações 29 de março e Nova Primavera. Saímos de lá com a bonita abordagem Retratos da Luta pela Moradia em Curitiba. Foi nesse momento que o jornalismo literário, enraizado na função social, me chamou para nunca mais me soltar.

Eu não faço reportagem genuinamente de campo tanto quanto gostaria. Morro de orgulho e sofro na mesma proporção quando Joka sai de casa para desbravar o brasilzão sem me levar. Não me leva porque também tenho raízes aqui em Curitiba. Tenho minha filha pequena para criar (que nos acompanha nas pautas, atos, reuniões, lançamentos de livro, eventos, mobilizações), porque tenho meu emprego fixo, que é muito necessário, e porque os projetos que ele encaminha sem mim são autorais da fotografia, que eu ajudo no suporte de texto da melhor forma que consigo, e que no final das contas também nos brinda com mais edições de Terra Sem Males impressos.

O segundo momento que gostaria de compartilhar, que me levou para um mundo paralelo, foi acompanhá-lo num trabalho fotográfico na Feira de Sementes Crioulas de Mandirituba (PR). O mundo da comida sem veneno, da agricultura familiar, do engajamento de crianças, adultos e idosos em prol da alimentação. Desse dia, escrevi também com o coração a matéria Agroecologia: Guardiões das Sementes preservam a pureza dos alimentos. Foi um domingo de agosto ensolarado e em que fui recompensada com uma entrevista exclusiva com o Prêmio Nobel da Paz Adolfo Perez Esquivel. Publiquei um pouco sobre Esquivel na ocasião, mas a gente achou que a entrevista iria num impresso, então ela ficou também exclusiva nos arquivos do Terra Sem Males até mês passado, quando Esquivel retornou ao Brasil e decidimos publicar: Adolfo Perez Esquivel: “Para Mim A Militância É Todo Dia”.

Nesse um ano e meio foram muitas coberturas recompensadoras, algumas entrevistas que tiveram maravilhosa repercussão para o site e para o projeto, que é levar a informação mais longe, ultrapassar as barreiras do Paraná, sermos ferramenta de mobilização onde precisarem que a gente esteja.

Ah, mas essa semana… Tenho em mãos a tão sonhada edição impressa com o jornal sobre a importância da reforma agrária para milhares de famílias que se inserem no também, pra mim, mundo paralelo do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Fomos recebidos no acampamento Dom Tomás Balduíno, em Quedas do Iguaçu (PR), no acampamento Herdeiros da Terra, em Rio Bonito do Iguaçu (PR) e no assentamento Celso Furtado, também em Quedas, para tentar contar um pouco sobre a motivação dessa luta.

Para mim, são guerreiros, pois a luta não é só pela moradia digna, pela terra fértil para plantar e gerar alimentos, mas é também contra a violência de todos. Seja governamental, de moradores da região, de populações inteiras. A aceitação do movimento é para poucos. O desconhecimento sobre a luta pela comida sem veneno, pela justa distribuição de terra, a intensidade da formação educacional, a coletividade dentro dos acampamentos. Tudo é desconhecido e tudo se torna arredio para quem não faz questão de conhecer.

A construção da pauta do jornal foi difícil. De fevereiro até aqui dois sem terra foram executados numa emboscada policial. No mesmo dia que ia para as ruas uma matéria que escrevi sobre o acampamento Dom Tomás para a revista Ágora. Triste coincidência, mas que nos impulsionou para correr atrás e imprimir nosso jornal.

Eu não cito aqui toda a militância que nos envolveu desde fevereiro de 2015, não cito a quantidade de reportagens fotográficas que Joka Madruga nos brindou nesse tempo, os demais jornais impressos temáticos, produzidos também com reportagens in loco. Mas para mim, o Terra Sem Males é tudo isso. É a retomada da função social do jornalismo em minha vida.

Se você quiser colaborar com o projeto, Joka Madruga lançou recentemente a campanha “fotos para decorar”.

 

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