Festival de Curitiba | Nena Inoue usa a arte como resistência

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Nena Inoue traz a militância de seus 40 anos de carreira para os palcos e as ruas de Curitiba durante maior festival cultural do país

Teatro de rua, teatro de palco, grafite, hip hop, artes visuais e musicais, com apresentações gratuitas, dentro da programação do maior festival de teatro do país, com temática partindo de referências literárias locais e agregando jovens e crianças de bairros periféricos para o centro de Curitiba, simbólica e territorialmente.

São esses os elementos que Nena Inoue agrega na III Curitiba Mostra/Outras Leituras, com programação de 27 de março a 8 de abril, durante o tradicional e aclamado Festival de Curitiba. Responsável pela abordagem sobre os excluídos, a atriz, diretora e curadora deixará registrado seus 40 anos de carreira também reencenando a peça “Para Não Morrer”, em que retrata as mulheres de resistência da obra de Eduardo Galeano.

Nena explica que a temática dos excluídos é abordada no projeto “Cortejo literário”, a partir de um trabalho desenvolvido por Kenni Rogers em três bairros de Curitiba, com crianças e jovens de 8 a 18 anos, baseado em obras literárias dos autores curitibanos Miguel Sanches Neto, Luci Collin e Luís Henrique Pelanda, que fizeram parte da Mostra Literária no Festival 2017.

É nessa Mostra Literária que foram explorados no lugar de origem desses jovens o hip hop, o grafite, no lugar de origem desses jovens e que o Festival traz para o Centro, com apresentações na praça em frente ao Espaço Fantástico, local onde a III Mostra Curitiba apresenta suas peças teatrais gratuitas também no palco. “A molecada é parte da cena, é uma forma de incluir esses excluídos porque são crianças de bairro, são crianças pobres, muitas com risco social. Trazemos geograficamente para o centro da cidade, que simboliza territorialmente, trabalhando com literatura com essas crianças, sensibilizando através da arte essa potência que eles têm para mostrar. Eles estavam no bairro, agora não é só pra eles, é para o público. É deles para os outros”, contextualiza Nena Inoue.

O outra abordagem com a temática dedicada aos excluídos dentro da III Mostra Curitiba/Outras Leituras é no Curitiba Urge, em que serão realizadas nove apresentações que foram selecionadas após convocatória para interessados se inscreverem. As apresentações serão gratuitas, na Praça Santos Andrade: uma peça de teatro, uma de artes visuais e os demais são musicais, todos de rua ou adaptados para a rua. “A gente está movendo, trazendo esses trabalhos que falam sobre violência, sobre desigualdade, sobre tudo que a gente vê no dia a dia”, provoca Nena Inoue.

O universo dos personagens excluídos também está presente, dentro dessa mesma mostra, nas peças teatrais adaptadas de obras literárias de autores consagrados, como Dalton Trevisan e Domingos Pelegrini.

Acolhimento e contaminação pela arte da resistência

Em entrevista exclusiva ao Terra Sem Males, Nena Inoue falou sobre sua relação com o público, enquanto militante, nos seus 40 anos de carreira. “Eu to fazendo isso, essa celebração, para contaminar um pouco as pessoas, é um pretexto para encontrar as pessoas, para que venham no teatro”. Para ela, a configuração do teatro é de resistência, pois cada apresentação é única, com um público único, em que o contexto não se repete. Ela afirma já ter viajado por todas as regiões do país e que o acolhimento do público, que se disponibiliza para assistir uma peça teatral, permite aos artistas “contaminar” a todos com a resistência que o teatro representa como um todo. Resistência cultural, de identidades, de coletivos que lutam por causas específicas.

Nena Inoue traz para o teatro a temática das mulheres latinoamericanas, da mãe terra, do empoderamento feminino. Em sua peça “Para Não Morrer”, a atriz apresenta histórias de luta e resistência de mulheres diversas inspiradas na obra de Eduardo Galeano. “Eu falo da vida, eu conto sobre a vida de resistência de várias mulheres, de vários lugares no mundo, de várias épocas, enfatizando a vida das mulheres da América Latina, quilombolas, guerrilheiras, freiras, indígenas. Eu falo da Maria Bueno, das mulheres de hoje, eu junto com o público de hoje. Eu vou falar da Marielle, porque tem que falar”, relata. “Eu falo de mim. De mim não. Eu falo dessa mulher que conta. Que deve ter uns 200 anos, que é uma entidade, uma pacha mama, mas sou eu também”.

A história das mulheres relatadas é construída pela personagem de Nena Inoue em “Para Não Morrer” como uma mulher paralisada, que só tem a voz e a mão direita em movimento, que é de onde se estabelece o empoderamento e a resistência. “Pode ter acontecido qualquer coisa com essa mulher, pode ser resquício de tortura, pode ser um AVC, ela pode ter nascido assim. E ela continua resistindo”, contextualiza.

A atriz paranaense afirma ter reencontrado no teatro o fortalecimento e a resistência à conjuntura política atual mais do que na rua, que começou a ser reocupada, especialmente nos últimos dois anos. “Estamos andando de ré e a gente sabe o que vai acontecer, eu já vivi isso”, referindo-se ao período de ditadura no Brasil. “A gente está comendo com farinha. A gente faz vigília. Mas se todo mundo fosse para a rua, acabava essa merda toda que está aí”, critica.

Nena relembrou o dia da posse do Temer, em que uma das primeiras ações enquanto presidente foi a extinção do Ministério da Cultura, em que uma onda articulada de ocupações dos IPHANs foi organizada por todo o país. “Em dez dias, todos estavam ocupados, pelo povo da cultura principalmente, mas muitas outras pessoas também”. O IPHAN Curitiba ficou ocupado durante 40 dias e contou com a realização de formação, oficinas, festivais, assembleias. “A gente tem uma capacidade de articulação poderosa. O Temer voltou atrás. Esfacelou o Ministério da Cultura, mas ele teve que voltar atrás”, relembra.

Para ela, o teatro atinge vários públicos, não só mulheres, não só as pessoas de esquerda. E todos se emocionam e são atingidos pela narrativa teatral. E é sob essa perspectiva que ela fala do processo de contaminação do público pelo teatro. “Eu estou fazendo minha resistência ali, com esse trabalho. Essa Mostra, esse teatro, com entrada franca, é para que as pessoas acessem esse conteúdo”.

Ela acredita que o afeto, o envolvimento emocional proporcionado pela arte pode influenciar e acolher muito mais do que um “pé na porta”, culminando também no envolvimento racional, que faz pensar. “Cinco mulheres fizeram greve de fome e acabaram com a ditadura militar, porque o povo ocupou as ruas. Mas eu queria que isso não ficasse lá na década de 1970”.

Por Paula Zarth Padilha
Fotos Annelize Tozetto
Terra Sem Males

Confira a programação do III Curitiba Mostra/Outras Leituras:

Curitiba Urge
31/03 e 01 e 07/04 a partir das 18h
A programação noturna inclui o Curitiba Urge, um espaço para apresentações de artistas que querem mostrar seus trabalhos e que acontece sempre antes das apresentações dos espetáculos do III Curitiba Mostra/Outras Leituras. Serão breves apresentações/manifestações artísticas de distintas áreas, mostrando um pouco da diversidade curitibana. Classificação Indicativa: livre | Duração: 60`

Vox Ludens
30/03 às 21h
Um dos eventos mais tradicionais da literatura paranaense, com curadoria do poeta Ricardo Pozzo e Manoela Leão, traz apresentações de Luiz Felipe Leprevost, Adriano Smanioto, Adriano Esturilho, Ivan Justen e o Coletivo Poesia Abstrata. A noite ainda contará com exibição de curtas-metragens da série Pássaros Ruins que mostra poetas da cena curitibana. Classificação Indicativa: 16| Duração: 120’| Gratuito

Cortejo Literário
01/04 e 07/04 às 16h
Os protagonistas são jovens moradores dos bairros Pilarzinho, CIC, Uberaba e Botiatuvinha, participantes de oficinas e projetos literários com curadoria do ator Kenni Rogers, que desenvolveu o projeto Mostra Literatura Paraná. Os jovens realizarão um cortejo com leituras de textos escritores paranaenses, com muita música, street art e hip hop. Ao final do Cortejo será realizado um bate-papo com os escritores Luís Henrique Pellanda, Luci Collin e Miguel Sanches Neto.
KR Produções | Direção e Curadoria: Kenni Rogers | Elenco: jovens da periferia de Curitiba. | Participação dos escritores Luís Henrique Pellanda, Luci Collin, Miguel Sanches Neto| Classificação Indicativa: livre | Gratuito

Inferninho Cabaré – Adaptação da obra de Dalton Trevisan
Comédia
30/03 e 31/03 às 23h59 | 01/04, 03/04 e 04/04 às 23h59
Espetáculo baseado na obra de Dalton Trevisan e que acontece em um ambiente de cabaré/inferninho cercado de música e ironia. Personagens provocantes trazem à tona contos e temas clássicos do vampiro: sexo, família, violência, a crítica ácida e humorada à mesquinha sociedade curitibana e, por fim, a autocrítica do próprio Dalton.
Direção: Nena Inoue | Elenco: Anne Celi, Cássia Damasceno, Kauê Persona, Pedro Inoue. Participação especial: Simone Magalhães, Grace Torres e Nathalia Luiz. Classificação Indicativa: 18 | Duração: 70’ | Gratuito

O encalhe dos 300 – Adaptação da obra de Domingos Pellegrini
Drama
31/03 e 01/04 às 19h
Espetáculo solo do ator Rafael Camargo. Numa estrada de lama no interior do Paraná, em meio a uma chuva incessante, 300 veículos ficam encalhados, obrigando os caminhoneiros a uma parada que se arrasta por sete dias. Nessa situação limite, o melhor e o pior do ser humano é dividido com o público por um vibrante contador de causos. Indicado ao Prêmio Troféu Gralha Azul de Melhor Ator/2016.
Direção: Nena Inoue | Elenco: Rafael Camargo | Classificação Indicativa: 14 | Duração: 40’ | Gratuito

Para não morrer – Adaptação da obra de Eduardo Galeano
Drama
31/03 às 22h | 01/04 às 22h |05/04 às 22h |06/04 às 22h
Solo teatral da atriz Nena Inoue, que conquistou o Troféu Gralha Azul de Melhor Atriz em 2017. A peça aborda temáticas femininas e feministas atreladas a questões políticas. São histórias de lutas feministas trazendo à cena mulheres célebres e anônimas que conseguiram transformar o seu meio e as pessoas com as quais conviveram, especialmente na América Latina.
Idealização e Criação: Nena Inoue | Parceria de Direção: Babaya | Elenco: Nena Inoue |Dramaturgia: Francisco Malllman Classificação Indicativa: 14 | Duração: 50’ | Gratuito

Mar Paraguayo – Adaptação da obra de Wilson Bueno
Drama
05/04 às 19h |06/04 às 19h | 07/06 às 19h
Solo teatral da atriz Sílvia Monteiro, que apresenta uma velha sortista e prostituta de origem paraguaia moradora do balneário de Guaratuba. O solo narra sua trajetória de vida e cultura guarani. No fluxo de pensamento da protagonista, a mescla do portunhol e do guarani e uma morte anunciada. A peça leva ao palco a provocação da literatura que transpõe seus próprios limites.
Direção: Nadja Naira | Elenco: Sílvia Monteiro | Classificação Indicativa: 14 | Duração: 45’ | Gratuito

Nena Inoue – 40 anos de Resistência
07/04 a partir das 21h
Em 2018 a atriz, produtora, diretora e artista gestora Nena Inoue comemora 40 anos de atuação e resistência. Um grande encontro para celebrar sua trajetória, compartilhar e brindar as quatro décadas dedicadas ao teatro. A comemoração mostrará alguns registros deste caminho, muita música e estará aberta a quem mais quiser se expressar. E a cozinha à cargo do incrível Beto Batata, que comandará um jantar tailandês na cozinha do Espaço Fantástico das Artes. Classificação indicativa: livre | Gratuito

O Espaço Fantástico das Artes fica na Rua Princesa Isabel, 465.

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