Portugal, Revolução dos Cravos e os enigmas de hoje

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“A revolução dos Cravos foi um movimento que conseguiu reunir a revolta do povo contra os 40 anos da ditadura”

Por Pedro Carrano, texto e foto

A essência de uma viagem é conhecer as pessoas, sua relação com a cidade, com a língua, como sentem a política em seu país, como veem o mundo.

Monumentos, marcos, placas, datas, e mesmo museus e obras, são secundários diante disso.

Gosto de examinar, em meio ao café da manhã, quais pistas as notícias e as tintas do jornal podem me dar para, com o olhar aguçado de estrangeiro, perceber algo sobre a mentalidade e o imaginário de um povo.

Ou então perceber o que uma conversa simples pode fornecer de indícios para esse detetive viajante, reconhecendo que qualquer visão sobre um país é sempre limitada.

Numa manhã, nos encostamos no balcão de uma padaria em Lisboa, pedindo licença a dois senhores portugueses, que já haviam pedido seu café, mais barato que noutros países. O jornal impresso estava aberto sobre o balcão. Eles conversavam entre si e aquela prosa aberta e em tom alto certamente era para provocar a participação de quem estava por perto.

O mais velho recebeu a segunda xícara de café de uma trabalhadora brasileira. Eram três funcionárias, todas elas de diferentes partes do nosso país. Um sotaque e um olhar cúmplice conosco, algum elemento comum enquanto ouvíamos a discussão no café.

O senhor mais velho lamentava a posição vacilante da direção do Partido Comunista Português durante a revolução dos Cravos de 1974 e antes do golpe conservador de novembro de 75. Na verdade, amargo e ao mesmo tempo terno, ele parecia um personagem do escritor português Lobo Antunes. Já o seu amigo tinha uma narrativa com nuance diferente. Criticava Mário Soares pelo fim da revolução e início da contra-revolução. Batia nos “socialistas”, carregando nas aspas, que vieram a governar o país décadas mais tarde, e na época dos Cravos fizeram de tudo para esvaziar o papel dos comunistas e dos trabalhadores no governo provisório e no estado em fase de transição.

– Esse Mário Soares admitiu no fim da vida que fez reuniões com a CIA!, gritou o senhor.

– E os cretinos diziam que nós comunistas víamos conspiração em tudo!

A revolução dos Cravos foi um movimento que conseguiu, ao mesmo tempo, reunir a revolta do povo contra os 40 anos da ditadura fascista de Salazar, que sobreviveu à segunda guerra, matando, exilando, torturando e prendendo. Reuniu também a insatisfação dos jovens capitães do exército cansados de matar injustamente e se ferir, combatendo os legítimos movimentos de libertação nacional em países explorados – caso de Guiné Bissau, Angola, Moçambique, Timor Leste, na África. Os gastos do governo com a guerra alcançavam 40% do orçamento nacional em 1973. Uma situação insustentável que explodiu no dia 25 de abril de 1974, marcada até hoje na memória do país.

A revolução conseguiu com a direção do Movimento das Forças Armadas (MFA) politizar, em velocidade impressionante, soldados e também trabalhadores no geral, apontando um programa que teve como rumo a transição socialista – barrada com o golpe conservador de 25 de novembro de 1975.

 – Apesar de tudo avançamos depois de 74.  Houve ganho de direitos, continuou o outro amigo, um pouco mais novo. Portugal era a imagem da pobreza.  

– Sim. Houve o fim das guerras e do fascismo.

– Só que o fascismo ainda está entre nós, vivo, meu amigo.

– Mas nesta terra e neste porto aqui menos que na França.

– Mas Portugal ainda tem alguns soldados no Iraque e em Mali na África – arrisco o comentário, recebido com um aceno simpático pelos dois.

– Sim. Somos dependentes e exploradores ao mesmo tempo. Desde muito tempo, Portugal é assim, completou o mais velho, numa conversa aberta ao contraditório.

Um terceiro amigo havia se somado a nós. Um certo ar carrancudo, incomodado com nossa participação na prosa.

– Salazar era um problema. Mas e agora, com essa migração toda, da África, América, que vão fazer os socialistas?, disse o recém-chegado na conversa, olhando duro para nós, eu e Tatiana, dois mochileiros numa Europa em meio a greves na França e 75 anos do fim de Auchwitz.

Os dois amigos não ficaram com pudor, pareciam habituados ao debate divergente. Nós só toleramos até o momento quando escutamos do mesmo senhor ranzinza:

– E os brasileiros, principalmente, estão estragando Porto e Lisboa. Ninguém gosta deles aqui.

– De todos nós nesta padaria o senhor quer dizer, eu o corrijo.

– Isso não é verdade – apressou-se o mais velho, João, que depois descobri ter combatido à contragosto em Angola. Quando ele viu o nosso incômodo e o das trabalhadoras brasileiras, tentou se posicionar, a exemplo da maioria por aqui:

– São novas contradições que surgem, e essa migração de jovens brasileiros pra cá pode trazer-nos algo novo a Portugal.

– Algo novo só se for mais problemas, violência, tudo o que o país deles têm de ruim, disse o ranzinza. Mas não me refiro a estes dois turistas aqui, claro, até lhes pago um pastel de nata.

Recolhi o ombro, desviando do abraço do xenófobo. Ficamos impactados, como quem leva um soco. Nos decepcionamos com a atitude daquele senhor em um ambiente de debate com pessoas progressistas. No olhar das trabalhadoras brasileiras essa situação já era de costume.

– É, amigos, uma revolução não pode mesmo nunca ficar pela metade, nosso amigo João ainda comentou para encerrar o papo.

Somos internacionalistas, mas amamos nosso país e sobretudo nossa gente brasileira e latino-americana. Saímos às ruas de Lisboa um pouco aos tropeços, entre a beleza da viagem em choque com a dureza de tensões que se somam no mundo de hoje.  

Mesmo no momento em que o governo Bolsonaro nos desanima com nosso futuro, a verdade é que atravessamos essas esquinas históricas com mais vontade ainda de estar ao lado da nossa gente, que sofre, aqui e lá, todos os dias desrespeitos como esses.

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