Primeiro a moral, depois o pão?

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Crônica sobre as portas escancaradas do conservadorismo

Há poucos dias, topei com a cena de uma mulher sendo agredida pelo marido no centro de Curitiba, sob olhares despreocupados de quem estava na rua. E o sujeito se sentia legitimado para isso pelo fato de que, como ele justificava, “É minha mulher”, e ninguém tinha nada a ver com aquilo.

Na mesma semana, meu amigo Leandro Taques fotografou um episódio, também no centro da capital paranaense, quando um grupo linchava e mantinha dominado um homem que teria agredido uma criança. A ação dele de fato era condenável, mas dentro dos tribunais, não na rua. A humilhação pública do sujeito se arrastou por um bom tempo e contou com cumplicidade da guarda municipal e da PM.

Permissividade no primeiro caso, execução sumária no segundo.

São situações empíricas, mas não consigo desvincular essas cenas, em que se expressa a agressividade, o machismo legitimado, o justiçamento e o tribunal de rua contra os pobres: tudo isso tem um fio invisível de ligação com os tempos que vivemos de crise – econômica, política, ambiental e moral.

Cheguei a pensar num filme que vi há muito tempo – e não recordo o nome! -, mas se passava na época da guerra dos anos 1990 na antiga Iugoslávia. Não havia nenhuma alusão ao conflito militar na película, apenas registros do impacto daquela situação na vida, na agressividade das pessoas e no caos que predominava. O cotidiano virando loucura.

O conservadorismo de um Bolsonaro e da direita que ganha força e assusta setores progressistas e a esquerda obviamente não é novo. Aí está a estrutura de exploração de classes do país para confirmar isso. Mas claro que a intolerância se acentua. 

Neste momento, estamos diante de uma polarização política na qual não há chance de uma concertação por cima entre as classes sociais, nem de estabilidade. Não há como todas as classes serem de alguma forma beneficiadas com o excedente econômico, como  ocorreu entre os anos de 2005 a 2014. O atual discurso de gestores municipais, estaduais e federais reforça isso. E, na dúvida, jogue nas costas do trabalhador e da população mais pobre as consequências. 

Já é hora, então, de questionar o pensamento presente na mídia e sobretudo na classe média de que valeu tudo em nome da “luta contra a corrupção”. Não só porque a corrupção realmente existente não foi combatida com o golpe de Estado de 2016, mas porque chegamos ao raciocínio inverso do dramaturgo alemão Bertolt Brecht, quem escreveu: “primeiro o pão, depois a moral”.

A alta classe média, a rede Globo, a burguesia brasileira e camadas de cima do judiciário que levaram a cabo o golpe no Brasil apostaram primeiro no discurso da “moral”, não importa se o povo perdeu o pão. Que problema tem, não é mesmo, se a indústria naval-petrolífera seja arruinada, como acontece na cidade de Rio Grande (RS)? Não é positivo que o principal engenheiro do projeto nuclear brasileiro, almirante Bastos, tenha sido preso até pouco tempo? Que as principais empresas públicas, indutoras da economia, sejam sucateadas para ser leiloadas?

Mesmo assim, não sou de revanchismo a exemplo de muita gente nas redes sociais, e acho que posts e textos lembrando “Você que bateu panelas e agora está em silêncio…..” não resolvem absolutamente nada. Apenas com organização popular e dos trabalhadores, coletiva, debatendo um projeto de país, temos chance de barrar o conservadorismo. Mais importante que as redes, deveriam ser as ruas. 

O resto é catarse ou desespero, nesses tempos loucos que estamos vivendo. Diariamente.

Por Pedro Carrano

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