Rede de Sementes do Vale do Ribeira apresenta sua primeira muvuca para restauração da Mata Atlântica

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Demonstração da mistura de sementes na Feira Viva, em São Paulo, valorizou o conhecimento tradicional dos coletores quilombolas; rede começou a comercialização em 2017

A Rede de Sementes do Vale do Ribeira, composta por quilombolas da região, fez no último sábado (24/02) na Feira Viva, em São Paulo, a primeira muvuca de sementes produzida por comunidades com foco na restauração florestal da Mata Atlântica.

A muvuca é uma mistura de sementes de diferentes espécies para se plantar de uma só vez, direto na terra, para formar florestas produtivas, agroflorestas, sistemas agrosilvipastoris e para a recuperação de áreas degradadas. A técnica é internacionalmente conhecida como semeadura direta e já é utilizada pela Rede de Sementes do Xingu, que conta com 600 coletores e opera há 10 anos no Mato Grosso, e agora chega ao Vale do Ribeira, no sudeste de São Paulo. A região concentra 21% do que restou do bioma Mata Atlântica no país.

Na lona estendida no Parque Villa-Lobos havia sementes de pororoca, pau-viola, juçara, aroeira-pimenteira, bacupari, caquera, conguinho, guacá, araçá, entre outras espécies pioneiras e de ciclo médio da região do Vale do Ribeira. A demonstração feita por Eduardo Malta contou com uma explicação sobre a variedade de sementes, suas finalidades e funções para a restauração da Mata Atlântica. Ao final, as sementes foram doadas para o público participante.

“A gente pode trocar ideias, viver uma nova experiência, que vou transmitir para a minha comunidade”, disse Tiago Franco de Lima, do quilombo Maria Rosa. “(A muvuca) pode gerar um bom futuro para a gente”, afirmou José de Almeida Silva, do quilombo Nhunguara.

Conhecimento tradicional e alternativa de renda

Os jovens quilombolas, como Tiago e José, fazem parte de uma rede de coletores – a Rede de Sementes do Vale do Ribeira – que está em formação desde 2017. Ela é composta por 12 pessoas, entre jovens e adultos, e comercializou em seu primeiro ano 40kg de sementes A demanda parte de universidades, viveiros e empresas de restauração.

“Foi um momento oportuno para os quilombolas se mostrarem coletores e protagonistas, valorizando o território e gerando renda”, afirmou Juliano Nascimento, técnico do ISA no programa Vale do Ribeira. “A Feira Viva congrega produtor e o consumidor. Trouxe a muvuca para um público que valoriza os produtos da sociobiodiversidade”, disse.

O conhecimento tradicional quilombola é a base da coleta das sementes para restauração florestal. Eles reconhecem as épocas de floração e frutificação das espécies, bem como as características do terreno e as movimentações da fauna local, além de terem um sistema agrícola – o Sistema Agrícola Tradicional Quilombola – prestes a ser reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como patrimônio cultural e imaterial brasileiro.

“O conhecimento dos antigos nessas comunidades ajuda os mais novos a coletar sementes. E a comercialização das sementes renova o interesse dos jovens pelo conhecimento tradicional e pelo seu território coberto de Mata Atlântica. É um ciclo virtuoso”, ressaltou Eduardo Malta, consultor do ISA em restauração florestal.

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Patrick Assumpção, produtor rural e idealizador da Feira Viva, lembrou do plantio realizado em Cachoeira Paulista (SP), no Vale do Paraíba, em janeiro deste ano. “Já fizemos uma muvuca, mas é muito pouco. Tem duas florestas grandes na Serra da Bocaina e na Serra da Mantiqueira. Queremos muito aprender com as experiências do Vale do Ribeira”, disse.

“Foi uma honra poder receber os quilombolas, de uma região que tem um potencial de floresta para fins específicos, econômicos, agroflorestal. É muito importante a gente conseguir mostrar trabalhos de qualidade que apresentem essa cadeia produtiva. Estamos falando da base, que são as sementes. Sem elas, não vamos conseguir restaurar nada, seja por muvuca, seja por mudas”, afirmou.

A atividade da muvuca na Feira Viva e a participação da Rede de Sementes do Vale do Ribeira receberam o apoio de Instituto Socioambiental, Baobá Florestal, Instituto Coruputuba, Secretaria Estadual de Meio Ambiente de São Paulo, The Nature Conservancy, Associação Corredor Ecológico do Vale do Paraíba e a União Europeia.

A Rede de Sementes do Vale do Ribeira tem o potencial de comercialização de cerca de 1 tonelada de sementes de 50 espécies. Para comprar a muvuca de sementes para restauração de áreas de Mata Atlântica, entre em contato por email ([email protected]) ou pelos telefones (13) 3871 1545 e (13) 3871 1697.

Uma breve história da muvuca

A muvuca começou a ser disseminada no Brasil pelo trabalho do grupo Mutirão Agroflorestal com Ernst Göstch na década de 1980 e 1990, focado até hoje no desenvolvimento e multiplicação de sistemas agroflorestais produtivos. A partir dessas experiências, o ISA e diversos parceiros da Campanha Y Ikatu Xingu começaram em 2006 a testar, aprimorar e desenvolver a técnica em Áreas de Preservação Permanente (APPs) e Reserva Legais (RLs), especialmente em áreas de Cerrado e Amazônia em Mato Grosso.

Vale lembrar que toda propriedade rural deve ter, além das APPs (Área de Preservação Permanente), que protegem principalmente a água, uma Reserva Legal (RL) proporcional ao tamanho da propriedade. É nela que se pode manejar a floresta de forma sustentável para aproveitamento econômico.

Os testes deram bons resultados e a iniciativa se ampliou com a criação da Rede de Sementes do Xingu em 2007, que impulsionou a restauração ecológica na região e conta hoje com 600 coletores, incluindo indígenas (saiba mais em www.sementesdoxingu.org.br).

A muvuca começou a ser utilizada na restauração de áreas degradadas em beiras de rios e nascentes nas bacias dos rios Xingu, Teles Pires, Araguaia, Paraguai e Paraná, no Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás, totalizando mais de 5000 hectares de novas florestas. Já existem coletores comunitários na Bacia do Rio São Francisco, na Bahia e na região do Rio Doce, no Espírito Santo, mas ainda muito pouco no Estado de São Paulo, na região da Serra do Mar e da Mantiqueira.

A formação da Rede de Sementes do Vale do Ribeira pode proporcionar emprego e renda para comunidades que cuidam da floresta. Os resultados serão melhorias no clima, na água, na gama de polinizadores e predadores naturais de pragas agrícolas, formando paisagens rurais mais diversificadas e inteligentes, rumo a uma melhor sustentabilidade econômica.

por Roberto Almeida, Instituto Socioambiental

Foto: Tania Matsunaga/ISA

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