Retratos da luta pela moradia em Curitiba

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“A nossa luta é todo dia. Movimento Popular por Moradia”

Morador ergue barraco na ocupação 29 de março. Foto: Joka Madruga

Famílias erguem suas casas com as próprias mãos, da noite para o dia, fazem vigília, constroem um sonho. Mesmo convivendo com a insegurança de talvez perder seu pedaço de chão recém conquistado, ninguém demonstra ou fala em medo. Nas três mais recentes ocupações por moradia que surgiram no bairro CIC, em Curitiba, o que mais se ouve é a palavra “aluguel”.

Morando debaixo da lona

Eleno em busca de um futuro para a família. Foto: Joka Madruga

Eleno Jeronimo da Silva, 43 anos, está desempregado há seis meses. Mora numa casa com sala, cozinha e dois quartos na Vila Oficinas, bairro Cajuru, em Curitiba. Sua família tem cinco pessoas. Paga R$ 1.100 de aluguel. Trabalhou como mecânico de máquinas e caminhões numa indústria de Araucária durante 15 anos. Foi demitido após voltar de um afastamento do trabalho. Foi retirar o Fundo de Garantia (FGTS) para utilizar na compra da casa própria e descobriu que a empresa não fazia os depósitos. Soube por familiares que na semana passada teria início a Ocupação Tiradentes.

“Quando eu perguntei para a minha esposa o que ela achava, ela me disse: se for pra sair do aluguel, vou com você até para baixo de uma lona”, contou, com um sorriso no rosto. A Ocupação Tiradentes teve início na madrugada de sexta-feira, 17 de abril, véspera do feriado do dia 21. De acordo com o Movimento Popular por Moradia, no pico dos cadastramentos, mais de 50 famílias por hora pediram para fazer parte da ocupação. São ao todo 1.200 famílias cadastradas, 300 na Nova Primavera, ocupação formada no ano de 2012, 280 famílias na 29 de março, formada na data do aniversário de Curitiba, e outras 600 famílias depositando seus destinos na nova ocupação Tiradentes.

Eleno ergueu as paredes de sua nova casa com compensados e no último sábado pela manhã, 25 de abril, ainda dormia sob lonas, mas nesta semana que se inicia, já ia colocar as telhas. Ele ainda está sozinho no local, deixou mulher e filhos na casa em que paga aluguel até a situação se estabilizar. Faltam móveis, luz, água. Ele diz ter matado quatro pequenas cobras logo que chegou e tratou de erguer de forma improvisada sua nova cama. Nada de dormir no chão.

Seis meses de sofrimento

Assembleia na Ocupação Nova Primavera, em Curitiba. Foto: Joka Madruga

Eleno talvez não saiba, mas o começo difícil demora um pouco a passar. Ao menos é o que conta a dona de casa Isolvina Bueno da Silva, 65 anos, moradora da Nova Primavera. Ela passou por seis meses de sofrimento, morando numa casinha improvisada, também com paredes de madeira compensada. Mas acreditou tanto nesse sonho que trouxe dois de seus três filhos e parte de seus netos. Com a maioria da família próxima, se ajudando, dona Isolvina mora numa casa com todo o conforto possível para quem está ali de passagem. A casa tem quarto, sala, cozinha (com geladeira, fogão, pia e água encanada), tem janelas, uma área externa com muitas plantas em vasos. E banheiro. Na Nova Primavera, todas as casas têm banheiro.

“Eu pagava R$ 600 de aluguel. Mais despesas com água, luz. Eu faço muitas coisas para sobreviver como vender pães, bolos, cosméticos e costurar. Mas o dinheiro nunca dava. Hoje eu tenho uma vida melhor e sou muito feliz aqui”, diz a mulher, que trabalhou por muitos anos como cozinheira, criou sozinha os três filhos e melhorou sua vida a partir do momento que economizou o dinheiro do aluguel.

Organização da ocupação

Dona Isolvina com os pães que vende. Foto: Joka Madruga

Isolvina é uma das coordenadoras da ocupação Nova Primavera. Ela é responsável por cobrar dos moradores do setor F respeito com o local do lixo e é a ponte entre as famílias abrigadas ali e o MPM. Se vai ter alguma melhoria na casa, ela tem que ser informada. Se há algum desentendimento, ela leva a informação para a coordenação do movimento. Ela também é responsável pela chamada diária. Toda casa tem que ter um morador que durma lá todas as noites. Se a casa for abandonada, é disponibilizada para outra família.

O controle é necessário para manter a ordem e até mesmo evitar especulação imobiliária, já que a ocupação Nova Primavera está num estágio avançado de uma futura construção de moradia popular financiada pela Caixa Econômica Federal. Uma das sedes do banco foi ocupada pelo movimento em Curitiba no dia 09 de fevereiro de 2015. Um dos diretores do Sindicato dos Bancários, Genesio Cardoso, intermediou uma reunião com a superintendência do banco na ocasião, o que deu uma injeção de ânimo nas famílias de lá. E tornou Genesio um militante muito próximo do movimento.

Genésio fala no ato contra a empresa que tem poluído perto da represa Passaúna. Foto: Joka Madruga

Genesio recolhe doações, participa das atividades (todas as sextas-feiras à noite são realizadas assembleias com as famílias para dar informes do MPM), conversa com as pessoas e passa a informação da luta por moradia para o movimento sindical. Em 27 de fevereiro de 2015, o Sindicato dos Bancários organizou um abraço simbólico numa das sedes da Caixa, em defesa do banco 100% público. E lá estavam os representantes do Movimento Por Moradia, os maiores interessados que o banco continue investindo nas questões sociais.

O futuro é agora

Crianças brincam de bolinha de gude no Nova Primavera. Foto: Joka Madruga

A ocupação Nova Primavera deu tão certo que talvez essa seja uma motivação a mais para tantas pessoas estarem nas ocupações 29 de março e Tiradentes, ainda sob lonas, mas com o sorriso no rosto. Além da promessa de casa própria, os moradores do local têm acesso aos serviços públicos, no posto de saúde e na creche municipal. Essa conquista também demorou. O comprovante de endereço veio somente em 2014, quando o MPM realizou um ato em frente à unidade de saúde. A partir disso, a entidade ficou responsável por manter atualizado um cadastro de moradores, por setor e número de casa, e o atendimento é garantido.

André Chinaider tem 28 anos, esposa e dois filhos. Trabalha na construção civil mas desde dezembro está desempregado, sobrevivendo com bicos. Ele explica que a esposa não trabalha, porque estão com um bebê em casa. Ele também paga R$ 600 de aluguel. E também estava lá na assembleia no sábado pela manhã, que reuniu as famílias das três ocupações, com o maior sorriso no rosto e com um brilho no olhar. Explicou que durante o dia a mulher e os filhos vêm para ajudar na arrumação. Eles vieram recentemente para a Tiradentes. Mas à noite a família volta para a casa de aluguel e ele fica de plantão. Até a casa melhorar.

Fernando fala na assembleia da ocupação. Foto: Joka Madruga

De acordo com Fernando Marcelino, um dos coordenadores do MPM (e que mora na Nova Primavera), o cadastro tem alguns critérios: as famílias têm que participar das assembleias, responder as chamadas, se envolver na luta. E quando o sonho da casa própria se concretizar, todos serão recompensados. “A ideia é que sejam construídos apartamentos no mesmo local da Nova Privamera, para beneficiar todas as famílias. O MPM irá intermediar a contratação entre a construtora e a Caixa e o empreendimento terá custos reduzidos”, diz o militante.

Moradores querem empresa fora da área

Moradores protestam contra a Essencis. Foto: Joka Madruga

Na manhã do último sábado, 25 de abril, o Movimento Popular por Moradia organizou um ato com moradores das três ocupações em frente à empresa Essencis. A entidade acusa a empresa de despejar chorume em áreas de mananciais. O chorume do lixão da Essencis estaria sendo despejado sem tratamento adequado em rios que desembocam no Barigui, e que deixa à vista dezenas de urubus que sobrevoam o local, próximo à represa Passaúna.

Bastidores: Saindo da zona de conforto

Paula entrevistando dona Isolvina ao lado de Genésio. Foto: Joka Madruga

Ao visitar três ocupações por moradia num sábado pela manhã, muitas coisas passaram pela minha cabeça. Mas não adianta tentar adjetivar. Foi minha primeira vez numa ocupação e antes de chegar lá eu queria saber a motivação dessas pessoas. Num primeiro impacto pensei: aqui é surreal. Eu não cheguei a nenhuma conclusão definitiva sobre os motivos dessas famílias. Me parece ser muito mais do que economizar com as contas do aluguel, da água, da luz.

Eu só quero demonstrar que essas pessoas estão lá, muitas em barracos ainda precários, mas estão com o sorriso no rosto e a esperança estampada em seus olhares. Os que chegaram primeiro estão com suas casinhas modestas, feitas de compensado, mas cobertas com telhas, e dispondo de todo o conforto possível. A felicidade é um estado de espírito. E a motivação dessas famílias, na minha modesta opinião, é sair da zona de conforto, e com muita luta e sofrimento, conquistar um lar. Para mim, é um ato de coragem.

Moradora da ocupação Nova Primavera, no CIC, com o filho. Foto: Joka Madruga

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Por Paula Zarth Padilha
Terra Sem Males

4 comentários em “Retratos da luta pela moradia em Curitiba

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