RODOPIANDO

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Acordou no mesmo horário de toda quinta-feira, só que mais uma vez estava estranho.

Por Pedro Carrano
Crônicas de Sexta
Terra Sem Males

Organizou os textos pra aula, só que o café não deu tempo de esquentar um novo. Leu um trecho do livro, só que as mensagens do celular já estavam apitando. Não teve tempo pra muita coisa, só que às seis e meia já devia estar no ponto. A demora excessiva o forçou a ir a pé ao trabalho, só que na manhã de mais uma semana garoando. Lembrou da chefia que odiava, só que não pensou, por enquanto. O portão abandonado e ninguém na cabine trabalhando. Nenhum carro se movimentava no estacionamento, e a passarela por onde passou sozinho quase no assobio. As salas todas abertas e sem um único aluno. Socializou o incômodo em um dos grupos do celular, mas teve várias interrogações como retorno. Bateu o cartão ponto, passou de A a Z toda a extensa chamada, mas já não sabia se aplicava a falta. Tossiu e buscou na térmica o chá do dia anterior, mas só havia café no copo. Resolveu acreditar que tudo seria apenas mais um atraso, mas foi um pensamento momentâneo. Desconfiou dos alunos, dos diretores, se alguma piada, esperou e resolveu fugir da sala. Resolveu deixar a escola e tomou a rua larga, sem saber se em mão única, ou se seguia pela calçada. Deu voltas inteiras na quadra, como quem rodopiando. Passou por nova travessa, sem medo algum de ser atropelado, ou mesmo de atrapalhar o tráfego. Olhou o bairro de relance, do alto de um pequeno morro, e apenas a névoa sobre cada telhado. Escutou a notícia na rádio, como se um dia de golpe. Voltou à vida e saiu dessa tempestade solitária na marcha de um bando, aos berros e brandos. De camisas coloridas, atrapalhando o trânsito. Traziam uma pele de dor e um grito nada manso. Reviveu na contramão atrapalhando o tráfego. Caminhou com as duas pernas ao lado de um manco. Respirou, só que com o peito arfando. Voltou em frente ao portão da escola onde uma multidão de jovens na entrada. Ainda estava no horário. O relógio parado no bolso, como se o tempo não tivesse se passado. Ainda deu mais três voltas na quadra até conseguir finalmente se convencer e aceitar o próprio trabalho. E que não era sábado. E que não era sábado.

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