Segundo conto: Sete rajadas de luz

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Pedro Carrano
Terra Sem Males – Mate, café e letras – crônicas latino-americanas
Da série “Vintão”

O rosto daquela senhora grisalha até a metade do cabelo, a outra metade mal tingida e já desgastada. O contorno dos olhos marcado por sulcos, como um solo cortado por alguma ferramenta arcaica; o jaleco da enfermagem (de bonito laboratório particular desses com chão todo limpinho e direito a café cappuccino) com algumas pequenas manchas e um tom amarelado que a máquina de lavar não retiraria nunca mais;

a senhora entrou com pressa, mas também com um sorriso, na sala do raio-x onde a menina tremia com medo daquele maquinário todo e de ter que fazer o que ela já apelidara de “foto-caveira” dos ossos;

e eu sei que Larissa, minha filha, detesta aquela situação toda, como eu também detesto, porque é como passar por aqueles exames todos que eu já passei na idade dela; joelhos, bacia e ombros, em busca de algum excesso de cartilagem nas juntas para ser retirado; talvez aqueles exames que me mostraram por dentro em algum momento, mas me fecharam por fora ainda mais;

eu vim para falar na verdade mesmo daquela velha enfermeira, contar que ela me desconcertou quando diante da tremedeira da minha filha na frente da chapa do raio-x, sugeriu:

– Então você fica aqui segurando ela. Ela não para de mexer o ombro.

eu recuei, até me irritei e falei para a gente seguir tentando que a menina se acalmasse, não tinha nada a ver receber radiação sem motivo, pensei comigo. E a velha, com aquele mesmo sorriso gentil, já encaminhando uma solução, soldado que nem espera e já se coloca de bom humor na linha de frente, disse:

– Fica ali atrás da parede então, eu fico com ela. Não quero que criança faça duas vezes a radiação. Fica ali.

E ela ainda remendou, cabeça num ângulo mais perto do chão:

– Eu já estou velha mesmo e pronta para morrer, mas a criança não pode passar por isso.

e ela pegou um avental de chumbo e se posicionou ao lado da minha filha. Na hora, entre constrangido e desconcertado, ainda murmurei que não precisava, que então eu ficava, mas ela já me empurrou para aquele gabinete (de chumbo) onde a radiação não penetrava tanto, e repetiu o gesto diário de segurar crianças, naquelas doses homeopáticas de luz numa fração de segundos, mas capaz de deixar a tela do celular brilhando como se mágica;

eu queria pedir desculpas pela minha grosseria que já me cansava até a mim mesmo, sou assim com os amigos, sou assim e perco as pessoas, sou assim e perco os parentes, mas como explicar que ando passando por outros tipos de exames, desses que não revelam os ossos, mas mostram aquelas fissuras desgraçadas que a vida vai marcando no esqueleto, na altura do tórax mais ou menos, coisas que andam me revelando e revirando por dentro;

independente de tudo isso eu não chegaria ali ao grau de transparência da enfermeira, toda de branco até literalmente os sapatos, que passou as sete rajadas de radiação encorajando a minha filha, e quando eu perguntei se aquilo era todo santo dia, se não tinha um outro jeito de ir acabando menos com a própria vida, ela apenas respondeu, um copo de café na mão estendido para mim, um sorriso e um pirulito para Larissa, o ticket impresso para que eu buscasse o resultado em dois dias;

e ela só me disse:

– Fica susse. Pelo menos já estou me aposentando. E eu ainda ganho 20 por cento de insalubridade no salário, por causa da radiação.

 

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