Sem Chávez há dois anos, integração regional enfrenta desafios econômicos e políticos

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Para discutir como ficou a América Latina após a morte do líder, Opera Mundi entrevistou três especialistas: Wagner Iglecias, Valter Pomar e Rafael Villa

Com a morte do ex-presidente Hugo Chávez, em 5 de março de 2013, a América Latina perdeu um dos mais convictos e controversos defensores da integração regional. Os principais eixos de seu discurso integracionista foram a necessidade de a região se afastar dos Estados Unidos e a mudança do caráter econômico dos processos que vinham sendo realizados. Para o venezuelano, o rumo deveria ser outro, que passasse a contemplar o desenvolvimento humano e cultural, para além do capitalismo.

Embora os países da bacia do Prata tenham feito diversos acordos no sentido de uma maior integração ainda em meados do século 20, foi somente a partir do início do novo milênio que a ideia passou a fazer parte da agenda política da região. É possível, no entanto, dizer que a morte de Chávez, há dois anos, deixou um vácuo de liderança no processo integracionista no subcontinente? Teria este movimento perdido força? Para responder a estas perguntas, Opera Mundi conversou com três especialistas na questão.

Liderança na América Latina

O doutor em Sociologia e professor do Prolam (Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina da USP) Wagner Iglecias concorda que há um vazio de liderança a partir da morte do líder venezuelano. “Chávez desempenhou um papel fundamental na discussão sobre a importância da integração dos países latino-americanos no contexto multipolar para o qual o mundo se encaminha neste início de século”, avalia.

Ele ressalta, no entanto, que à ausência do líder venezuelano devem ser somadas também a dos ex-presidentes argentino, Néstor Kirchner, e brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva. Embora reconheça que a integração regional não deve ser baseada em personagens políticos, Iglecias pondera que os três ex-presidentes tiveram um papel fundamental para impulsioná-la.

Por outro lado, o professor de economia política internacional na Universidade Federal do ABC, doutor em história e ex-secretário-executivo do Foro de São Paulo Valter Pomar ressalta que Chávez não foi “o” líder da integração. Ele também nega que as atuais dificuldades na integração se devam à ausência de uma liderança. “Ao afirmar isto, aceita-se a principal tese dos setores conservadores de que a integração latino-americana é algo voluntarista, subjetivo, artificial e que depende do ativismo personalista de certos líderes”. O processo de integração teria, assim, “uma dimensão material, objetiva, econômico-social. E é nesse nível que estão ocorrendo os problemas atuais da integração”, observa.

O posicionamento é em certa medida compartilhado pelo cientista político venezuelano e professor pós-doutor do departamento de Relações Internacionais da USP Rafael Antonio Duarte Villa. Ele reconhece que Chávez foi um “grande peso impulsionador do processo de integração latino-americana”, mas, para além da morte dele, o que “preocupa é o contexto de dificuldades econômicas e políticas que vive a região”. Apesar de a ausência de Chávez ser um fator, é preciso considerar “todo o conjunto, como os problemas domésticos de Brasil e Venezuela”.

Novo impulso integracionista

Para Pomar, “o sucesso da integração depende, em boa medida, da cooperação entre Argentina, Brasil e Venezuela”. Mas, pondera, “nos três países, está em curso uma crise política que tem dois desfechos possíveis: ou o retorno da direita ou o aprofundamento das transformações e, enquanto a crise política nesses países não for resolvida, a integração marcará passo”.

Mas, para Villa, as dificuldades atravessadas pelos países são conjunturais e não devem enfraquecer o processo. “Se olhar para a história nos últimos 30 anos, os países latino-americanos passaram por diversas crises e saíram mais fortes, foram ampliando suas bases. No atual contexto, há uma retração na atuação, mas isto não significa o fim dessas iniciativas. O que ocorre é um momento de pressão e baixo perfil político”.

Iglecias, por sua vez, acrescenta que um novo impulso na integração regional depende fundamentalmente de dois fatores: vontade de articulação política e dinheiro. “Sem recursos financeiros para viabilizar iniciativas como o Banco do Sul ou a PetroCaribe, os projetos ventilados pela Unasul [União das Nações Sul-Americanas] relativos à integração física do nosso continente não sairão do papel”, avalia.

Papel do Brasil

Sobre uma possível predileção do governo brasileiro com relação aos Brics (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia e África do Sul), em detrimento das políticas voltadas à América Latina, Villa pontua que o fato de o Brasil ter se empenhado no fortalecimento dos Brics “não o exclui o processo latino-americano”.

Entretanto, para Iglecias, “o papel do Brasil é construir uma integração que crie oportunidades para que os países menores e mais pobres possam ter acesso a oportunidades de melhoria das condições de vida de sua população. Além disso, o Brasil tem de ser um fiador da democracia, da não ingerência nos assuntos internos dos países, da promoção da paz e da construção de uma inserção mais autônoma da América do Sul no mundo”.

Este papel não seria muito diferente, na avaliação de Iglecias, do imaginado por Chávez para a Venezuela — ele próprio, ao longo de seu mandato, trabalhou ativamente para impulsionar iniciativas como a Alba e a Unasul. Desta forma, afirma Iglecias, o papel de liderança caberia a Dilma Rousseff, já que tanto o presidente venezuelano Nicolás Maduro, quanto seus homólogos de Equador, Rafael Correa, e Bolívia, Evo Morales, estão muito demandados por questões domésticas.

Já Pomar é categórico ao afirmar que, para ajudar a impulsionar a integração latino-americana, o Brasil deve aprofundar internamente o projeto de reformas sociais. “O país precisa executar o programa vitorioso nas urnas de 2014. Se fizermos isto aqui dentro, terá repercussão positiva no exterior, em favor da integração”, conclui.

Por Vanessa Martina Silva
Do Opera Mundi

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