TELEFONEMA

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Foi bizarro.

Mais uma vez o telefone fixo de casa disparou às dez da manhã, com aquele ruído agudo e insuportável. Eu já havia desligado o celular e o despertador, mas não tive outra opção a não ser me levantar pra encarar a luz do sol pela janela enorme da sala. O céu estava azul, sem nenhuma nuvem, e eu estourei logo que ouvi o nome e o bom dia da operadora do outro lado da linha. A funcionária me perguntava sobre o pagamento da próxima fatura e o porquê do atraso nas contas anteriores. No meio da fala dela, eu interrompi com um “Escuta”, já me programando pra lançar um sermão sobre o péssimo sistema de atendimento da operadora, mas não cheguei até esse ponto. Nem me preocupava tanto, na verdade, com esses detalhes. As contas de luz, internet, celular, condomínio, cartão de crédito e aluguel já haviam sido abandonados há uns três meses. E eu me resguardava na minha toca escura, animal acuado, sempre à espreita da possível fera do oficial de justiça e sua comunicação de despejo. Mas a realidade é que nada disso interessa.

Como ia dizendo, eu nem bem completei o meu falso sermão cotidiano contra a trabalhadora quando, numa inédita intervenção, a operadora estourou e começou a me xingar na linha. Grosso, cretino, mal-humorado, filho da puta, uma série infindável de palavrões me fizeram desligar o telefone e tentar me refugiar novamente debaixo das cobertas e regressar aos meus sintomas de um arrastado início de depressão. Sem chance: não consegui mais dormir.

Minha aula no curso técnico industrial seria apenas à noite, então eu teria a tarde inteira pra não fazer nada. Na condição de professor, meu único vínculo atual com este mundo, ao menos já não me preocupava em preparar as aulas e deixava tudo por conta do improviso. O telefone seguia tocando de maneira permanente. Na aula, ao mencionar com os alunos o tema das doenças do trabalho, equipamentos de segurança etc, de maneira desinteressada, de repente uma aluna relacionou isso com a história de uma amiga vizinha de bairro, trabalhadora do call center da mesma operadora que a minha, que havia tentado suicídio pela terceira vez naquela mesma manhã. Minha aluna reforçava o fato de que, mesmo com a pressão normal neste tipo de trabalho, a amiga precisava continuar trabalhando lá, fazendo milhares de ligações por dia, escutando todo o tipo de reação em nome das cobranças, anúncios, tentativa de vendas e todo o tipo de coisa que aparecesse. O mal trato de hoje, sofrido pela manhã, foi mais uma gota de água em mais um copo que já quase transbordava. E viriam outros.

Na hora eu gelei e não deixei a jovem estender muito o assunto. Parti pra outro tópico da aula e não abri mais o debate. Estremeci e minha pressão baixa e a falta de alimentação turvaram meus olhos. Não sei como, mas não desmaiei. Tal quem se agarra no primeiro toco de madeira pra se salvar, desandei a falar e vomitar conteúdo, uma enxurrada de conceitos, tentando levar até o final este jogo que já não me favorecia. Eu suava frio e voltei pra casa com a pior sensação do universo. Apanhei e pedi trégua pra mim mesmo no que parecia ser o meu último round. Fiquei remoendo a história da telefonista, buscando as várias razões possíveis pra que, entre milhares de telefones e de trabalhadoras de telemarketing, eu não tivesse conversado e tratado mal justamente a trabalhadora amiga da minha aluna. O telefone seguiu tocando na minha casa e, a cada som estridente e alto, eu ficava mais tenso, me encolhia ainda mais e o mundo ia parecendo um lugar cada vez mais hostil, fora e agora também dentro da minha própria casa. Eu não tinha coragem de atender aqueles chamados, ao mesmo tempo em que me remoía com a possibilidade de ter sido responsável pela tentativa de suicídio de uma trabalhadora.

Precisei de um banho quente e de muitos exercícios de respiração pra ter coragem de dar aula, duas noites depois da revelação da minha aluna. Eu sequer a encarei na hora de fazer a chamada e nas outras vezes quando ela falou em sala de aula, subitamente animada com o que seria um possível vínculo professor e aluno. Mas eu logo fugia do assunto. Eu tinha medo que voltasse a contar a história da amiga dela. Então, retomava a teoria sobre o impacto do assédio moral entre os trabalhadores da comunicação. Mas foi inevitável e, desta vez, ao final da aula, a aluna estava me esperando na hora do intervalo.

– Professor, ela precisa de orientação, não aguenta mais o lance do assédio moral. Eu comentei com ela sobre a tua aula e ela se animou. Ela já não sabia mais o que fazer.

Atônito, agora as coisas se invertiam, e da culpa de ter feito mal pra ela, agora a amiga da minha aluna dependia de mim. No desafogo, em meio a um corredor repleto de jovens gritando, cumprimentando, tirando sarro, eu acabei agendando o encontro pra tarde seguinte, mesmo tendo presente em mim a certeza de que não compareceria. Mas, novamente acuado, não soube dizer não.

Nem preciso contar a série de reações que experimentei naquela mesma noite, que não foram aplacadas sequer com uma dose de remédios pra dormir. O telefone não tocou nem uma única vez naquela noite, mas eu mesmo assim já estava decidido a colocar um fim naquilo tudo. O problema não estava nela, mas em mim. A hipótese do suicídio atravessou a minha cabeça das cinco da manhã até às seis e pouco mais ou menos, mas nem isso eu teria coragem.

Pra tentar matar a ansiedade, mandei uma mensagem no zap da minha aluna explicando que não tinha como a gente se encontrar na parte da tarde. Mas não melhorei nem um pouco.

No último fiapo de bravura que me restava, às nove e quarenta e cinco me posicionei em frente ao telefone, frente à mesma janela de sol do dia da ligação.

E fiquei esperando pra atender a ligação da operadora. E ficarei aqui mesmo até atendê-la novamente.

Por Pedro Carrano
Crônicas de Sexta
Terra Sem Males

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