Tentei, premiado curta de Lais Melo, apara arestas para a luta feminista contra a violência de gênero

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Cinedebate promovido em Curitiba pelo coletivo feminista PartidA exibe Tentei, produção de Lais Melo premiada como melhor curta, melhor fotografia e melhor atriz no Festival de Brasília de 2017

Garanta seca, calor, dificuldades para reencadear a respiração. Sensações que são possíveis descrever algum tempo depois da exibição do curta “Tentei”, que constrói “a essência”, como definiu a atriz protagonista Patricia Saravy, da vida de Glória, personagem que de uma maneira muito sutil percorre no imaginário a angústia de todas as mulheres que um dia já estiveram em um relacionamento abusivo.

Sem qualquer cena de violência explícita, o curta mostra apenas um dia da vida de Glória, quando ela acorda com a incerteza em dar um ponto final em sua rotina de sofrimento.

O percurso até a delegacia conduz (nós expectadoras) num caminho sem volta: para quem já passou por essa experiência, relembrar, se enxergar numa situação de violência e ter que relatar; para quem não passou, sentir essa percepção como se estivesse acontecendo na sua frente, e você ser impotente diante do sistema, da instituição legalista que te pede para apresentar provas do que você quer esquecer.

Após a exibição do filme, realizado na noite desta sexta-feira, 20 de outubro, algumas das mulheres dessa equipe de produção independente e de baixo orçamento conversaram com o público que lotou o Espaço Delírio, no Centro de Curitiba. Entre questões técnicas feitas por homens e mulheres sobre a filmagem, o argumento, a produção, a preparação da atriz, a construção do filme, depoimentos emocionados de como o curta tocou os presentes.

O Cinedebate foi promovido pelo coletivo feminista PartidA que, conforme explicou a jornalista Waleiska Fernandes, representante do PartidA no evento, tem como bandeira central de mobilização a ocupação dos espaços de poder pelas mulheres. Waleiska também contextualizou a ideia da realização deste debate, iniciada após um vídeo de um professor viralizar na internet em que ele afirmou que mulher gosta de apanhar e, em sua retratação, alegou ser piada.

Acabar com o conforto que os homens sentem em fazer piada sobre violência contra a mulher é uma de tantas razões para o feminismo ser necessário para todas as mulheres.

Mais que um filme premiado sob a direção da jornalista paranaense Lais Melo, mais que ter a melhor fotografia e melhor atriz em um Festival de Cinema nacional, “Tentei” é um roteiro intenso e verdadeiro da rotina de vida de milhares de mulheres. E algumas nem chegam a saber que tudo que acontece de ruim em suas vidas, seja estupro pelo parceiro, violência psicológica, maus tratos e agressões, trata-se de um relacionamento abusivo, que pode ter como consequência o feminicídio que, desde 2015, quando foi crime tipificado numa lei sancionada pela presidenta Dilma, já tirou a vida de mais de 400 mulheres no Paraná.

Acesse aqui o trailer de Tentei

Por Paula Zarth Padilha
Foto: Jandir Santin
Terra Sem Males

* Eu já tinha a intenção de participar do Cinedebate mas encontrei a Lais nesta sexta-feira, numa das esquinas do Centro de Curitiba, e decidi ir com minha filha Carolina a tiracolo.

** Fiquei profundamente afetada com a densidade e o cuidado do filme ao retratar um tipo de sofrimento que, tenho certeza, acomete grande parte das mulheres, que sofrem caladas, sem saber ao certo o que é violência doméstica.

*** Meu filme particular passou o tempo todo em minha cabeça, me revi em outubro de 2014 quando, acompanhada da minha mãe, fui até a delegacia da mulher fazer um boletim de ocorrência por ameaças que sofri e que encerrou um relacionamento de quase dez anos. E eu sequer consegui registrar o que passei num BO. Não existe manual de instrução para se identificar num relacionamento abusivo e, tenho certeza, quem está dentro dele demora (e muito) para se enxergar nessa tipificação.

**** Desejo força, informação e coletividade para todas as mulheres.

***** Pensamentos imperfeitos é minha coluna autoral de crônicas e relatos e por toda minha afetação com esse tema, minha contribuição em divulgar o filme de Lais Melo está neste espaço e não nos espaços de coberturas jornalísticas do site.

Saiba mais: Filme paranaense ganha prêmio de melhor curta no Festival de Brasília

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