TRABALHADOR CONTRA TRABALHADOR

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No final do ano, eu lia um livro enquanto esperava a minha senha para ser chamado pelo caixa do banco. Apesar do ambiente sempre carregado, eu estava tranquilo: era meu primeiro dia de recesso, pronto para dizer adeus a duas contas atrasadas nas mãos, sem a pressa habitual de logo correr para o trabalho.

Mal passei do primeiro parágrafo e todos na fila ouvimos gritos detrás do tapume que encobre os caixas. Pelo tom do sotaque, parecia um misto de francês e português, enquanto a bancária afirmava não compreender nada.

O haitiano estava revoltado. No auge da gritaria, resolvi me aproximar e ver se ajudaria na tradução. Não estava seguro se seria útil naquele momento tenso. Sem nunca ter sido um imigrante, mas ao menos sei o que significa o peso do olhar de todos quando estamos sós noutro país.

Logo fiquei sabendo que ele havia apresentado uma nota de cem reais para depósito em conta. Possivelmente, ele era um vendedor ambulante e recebeu o pagamento dessa forma do atravessador. Mas a nota era falsificada e a bancária reteve o dinheiro.

Desesperado, em pleno final de ano, aqueles cem reais eram tudo o que ele enviaria à família, no Haiti novamente em convulsão social, resultado de políticas internacionais equivocadas, puxadas pelo governo estadunidense, onde o governo brasileiro também foi se meter.

A gerência e as trabalhadoras do caixa me agradeceram pela tentativa de tradução, embora o haitiano estivesse inconsolável. A tensão crescia entre eles. O que me impressionou foi que, mesmo sendo vidraça da revolta das pessoas contra os procedimentos dos bancos, a gerência e as bancárias não destilavam preconceito contra o trabalhador – algo que sempre preocupa nos dias de hoje de aumento do tom conservador.

A bancária emitiu para ele um comprovante de retenção e sugeriu que procurasse o consulado. Outro bancário pediu para que eu traduzisse: – “Entendemos sua situação, mas agora a gente pode ser demitido se não reter o dinheiro”.

As pessoas na fila se solidarizaram com o haitiano. Num momento de empatia, um casal colocou a culpa no banco:  “- Esse dinheiro é dele, pôrra!”. Mas outro senhor interviu: “Mas o sistema financeiro tem o controle sobre a circulação de moedas”. O duro era novamente expor aquela situação: trabalhadores tendo que massacrar um trabalhador. Inimigos do mesmo lado. Quantas vezes eu presenciei situações como essa? E fiquei sem saber o que fazer, num papel torto de tradutor de uma injustiça.

E quem disse que tudo ia ficar na conversa? Frente ao desespero do imigrante, a gerência gritou: “- Estamos chamando a polícia!”. Ele ainda correu sem norte no interior da agência, e logo tentou sair. O segurança sinalizou que o deteria, mas vários dos que estávamos lá acenamos e não permitimos.

O haitiano rodou a porta giratória com força, aos prantos, e desapareceu na praça Carlos Gomes, antes que eu pudesse perguntar seu nome e levá-lo ao sindicato, onde a secretária trabalha com o apoio à imigração.

A fila andou e paguei meu condomínio e luz atrasados. Na saída, olhei o entorno e não o achei.

Em compensação, pela primeira vez notei um grupo de haitianos sentado num dos bancos da praça.

E fiquei com aquele incômodo frio na barriga: quantas notas eles carregam nos bolsos?

Por Pedro Carrano
Crônicas de Sexta
Terra Sem Males

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