Trecho do livro “Entre Muros e Montanhas”, de Pedro Carrano

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A obra “Entre muros e montanhas: encontro com os zapatistas no México – e outras histórias dos Andes à América Central” é a reunião de diários de viagem, reportagens e crônicas de 14 países latino-americanos que o autor, Pedro Carrano, atravessou entre os anos de 2005, 2006 e também 2008.

O livro tem 250 páginas e será lançado no dia 7 de dezembro (quinta), às 19h, na APP-Sindicato (Av. Iguaçu, 880 – Rebouças), em Curitiba. O preço é R$ 50.

Confira o trecho abaixo, datado de 9 a 11 de dezembro, na cidade de Perquín, departamento de Morazán, em El Salvador (América Central):

Fantasmas protagonistas 

“Homens e mulheres magros, cuja pele é feita de uma casca que combina com a força de suas histórias. O que se vê agora não tem ligação com o que foi. Don Jose era professor dos guerrilheiros da Frente e agora viaja de povoado em povoado, em busca de festas dos padroeiros de cada vila, para alugar sua roda-gigante ou o carro que gira, a batata-frita gordurosa ou o tiro ao alvo do seu parque de diversões. Nahum me dizia que a guerra deixou um saldo de combatentes sem perspectiva. Perderam tudo e o melhor seria ter combatido até a morte. Nada restou. Só a vida. Em Perquín, a brisa gelada não parecia tocar as esquinas por onde andava um deles. A perna manca. Os braços, longos para um centroamericano, buscam a minha mão com ternura de criança. Ele oferece me levar para conhecer onde estão sepultados seus 35 parentes. Queria conversar, onde e como fosse, viver os segundos de criador de si mesmo e de sua história, antes de voltar às sombras e às palavras truncadas com a bebida e as esquinas curtas daquela região. Convidei-o para comer na hospedagem da Abuelita, um dólar por comida boa. Nem precisava. Ele queria explicar suas razões de vida, defendia a guerrilha como quem fala de uma antiga equipe de futebol. Os olhos esbugalhados, a indiferença às cenas de horror que nos remexiam na cadeira. Caminhar duas horas pela montanha com as pernas repletas estilhaços de ferro. Ao chegar ao acampamento, ainda teve de instalar um rádio antes de descansar. Logo, caminhar até o outro lado da fronteira com Honduras, junto a outras duzentas pessoas, em busca de refúgio. Partiram todos para uma igreja e esperaram pela documentação dada pelas Nações Unidas para ser transportados a algum hospital nicaraguense.

Ele explicava, com certo orgulho, as estratégias que usou para estar vivo. Eu tentava transformar em inglês as suas palavras, para duas neozelandezas sentadas à mesa conosco. Impossível. O ritmo, o sangue jorrando, as gírias, a dura ironia salvadorenha. Como traduzir o trecho abaixo:

– Queriam cortar a minha perna e eu lhes disse que só a carne estava em fiapinhos, que não cortasse o osso”.

Por Pedro Carrano

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