Um trabalhador ‘bom pra cachorro’! 

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Existem histórias que são construídas desde a infância. É o caso do ex-metalúrgico André Augusto Camilo. Campolarguense desde sempre, encontrou seu DNA de militante; ou melhor… seu pedigree de militante, na defesa pelo direito à vida dos animais  

Quando ele estava no chamado ‘chão de fábrica’, uma coisa era certa: muito trabalho e pouco tempo pra fazer o que gostava. Essa era a realidade de André Augusto Camilo, 30 anos, nascido em Campo Largo, cidade localizada na Região Metropolitana da Grande Curitiba, referência pela quantidade de indústrias.

Hoje, André é Técnico de Laboratório Industrial e trabalha no Instituto Federal do Paraná (IFPR). Ele relata que sua vida mudou depois de se qualificar: “passei no concurso do IFPR e no vestibular da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Antes disso, não tinha tempo pra fazer nada; nem carro, que é essencial pra resgatar animais e verificar denúncias”.

Essa é uma história que mostra a ascensão de uma pessoa como ser humano. Revela também que a qualificação profissional nas escolas públicas é eficaz. Além disso, traz para o debate uma questão: o trabalhador comum tem vida após sair da fábrica? 

O fato é que no período em que André trabalhava na Cerâmica Brasília (segmento de louças), fazendo serviços gerais, ou na Prometal, assim como na Artis Matriz e na Moldcamp, empresas localizadas em Campo Largo do setor metalúrgico, ele tinha dificuldade pra fazer diferença na sociedade:

“Acho que a gente começa a fazer diferença na sociedade quando fazemos o que gostamos. Hoje o que eu mais gosto de fazer, após sair do meu trabalho, é cuidar dos animais abandonados, animais de rua. Desde a infância tenho interesse por isso”

O ex-metalúrgico conta que herdou da família o respeito pela vida, pois desde a infância ajudava os animais, ao lado do seu pai. Revela que começou com passarinhos: “tinha muito ninho de passarinho onde eu morava. Nós ficávamos colocando comida pra eles, aí tem aquela coisa de um cair do ninho. Eu sempre estava junto com meu pai protegendo eles”. 

Mas foi após sua família mudar de uma casa no interior de Campo Largo para uma na região central, que André passou a se preocupar ainda mais com a proteção dos animais. O período entre 2010 e 2011 foi um divisor de águas pra ele, pois passou, voluntariamente, a recolher cães e gatos abandonados: 

“Neste período eu ajudei alguns animais, mas só tínhamos uma cadela (Dorotéia), que foi resgatada pela minha prima. O primeiro animal recolhido por mim foi em 2014, Yara! Uma cadela com Cinomose, que acabou morrendo. Ela vivia na escola em que trabalho e cuidávamos dela com ajuda de alguns colegas. O próximo animal foi o Brigadeiro, que está conosco até hoje”

Foi quando ele começou a trabalhar no IFPR, em 2014, local próximo ao Terminal Urbano da cidade, que identificou alguns protetores de animais: “ali há uma grande concentração de quem cuida de cachorros. Fui conhecendo pessoas e percebi que conseguiria ajudar. Quando algum animal precisava ser resgatado, eu deixava avisado pra me chamar”. 

A mudança na condição financeira também possibilitou maior atuação: 

“Quando eu trabalhava na indústria, infelizmente não conseguia ser um protetor. Não dava pra me dedicar. Esse trabalho de protetor precisa de tempo e vai um pouco do salário também. Não tem jeito. Às vezes vou buscar um animal no interior de Campo Largo, onde não tem sinal de telefone, nem de GPS, aí acaba gastando muito dinheiro com combustível; e o preço que tá hoje!”

Associação Protetora de Animais de Campo Largo

Um dos resultados de se fazer mais contatos foi começar a trabalhar na feira de adoção, que acontece quinzenalmente na Praça do Museu, em Campo Largo. “Ali comecei a conhecer todo mundo que trabalha na Associação Protetora de Animais de Campo Largo. Além disso, a feirinha é o ponto onde se reúne muitos protetores. Vem gente de vários lugares pra trazer animais que resgatam”. 

Atualmente quem faz resgate pela Associação é o André: “nos fins de semana geralmente o meu trabalho é resgatar ou fazer visitas. Muitas vezes vou ao local depois de uma denúncia anônima, às vezes pego algum animal que está doente ou machucado, um cachorro que está magro, etc.”. Explica ainda que:  

“A maioria dos casos é só uma orientação. Tipo, o cachorro está amarrado longe de casa ou quando as pessoas nunca soltam o animal. Tem gente que não quer maltratar, mas não entende que o cão que vive somente acorrentado, sofre. Aí mostramos que tem que soltar o bichinho, pelo menos a noite, para cuidar do terreno. Isso é para o cachorro ficar mais alerta e confiar mais no seu dono. Mostrar esses benefícios é uma coisa que ajuda”

 Mas também existem casos mais graves, como agressões e maus tratos. Quando um protetor se depara com esse tipo de situação, o caminho é procurar a promotoria pública: “Nesses casos nós passamos aos advogados da Associação. São situações que não adianta mais conversar com a pessoa”.

Dificuldade

Para André, a sociedade precisa entender que é preciso cooperar. Ele explica que a maior dificuldade é encontrar um local para destinar os animais, já que castração, vacinação e médico veterinário a Associação oferece:

“O que é mais urgente hoje são pessoas para acolher esses animais. Lar temporário. É o que mais precisa. Para adotar, lógico, também precisa muito, mas uma pessoa que tenha um espaço em sua casa pra receber os animais… uma pessoa pra fazer um lar temporário, esta seria a principal ajuda que necessitamos neste momento”

O lar temporário serve para receber o animal, por tempo indeterminado, até que se encontre um destino. André aponta que na grande maioria das vezes quem recebe esses animais é um protetor, que se apega e acaba adotando: “aí fica aquela pessoa com 15 ou 20 animais em casa! Isso é ruim, porque precisamos do protetor ativo, na rua, indo buscar animais”. 

A importância do lar temporário é em casos de animais castrados ou que passaram por outras cirurgias, assim como no recolhimento de filhotes. No caso da castração, é preciso um lugar para que o animal fique durante o período pós-cirurgia: 

“Demora no mínimo dez dias a recuperação até a retirada dos pontos, além de repouso e uma atenção maior. No caso dos filhotes, a dificuldade é que não tem como você levar direto pra Associação, já que lá há animais de rua e o bichinho está muito vulnerável. Às vezes o animal de rua tem alguma contaminação que passa muito mais fácil para os filhotes, aí o filhote tem menos chance de vida” 

Militância 

De acordo com André, a militância chegou em 2014, quando entrou para a Associação Protetora de Animais de Campo Largo. Ao ser questionado sobre o que acha das pessoas que abandonam seus animais ou cometem algum tipo de agressão… 

“Isso é revoltante. Acredito que uma pessoa que faz isso também tem condições de fazer a mesma coisa com uma criança ou com um idoso ou com qualquer outra pessoa indefesa. O que muda são as leis. No caso do ser humano, as leis são mais rigorosas. É apenas isso que diferencia essa pessoa na sociedade. A pessoa que abandona um animal no mínimo é egoísta. Daria pra dizer que é uma pessoa fria, não tem sentimento pelo próximo”. 

Ele comenta também que já passou poucas e boas na militância pela proteção dos animais. E não é só com cachorro ou gato não! 

“Uma vez eu estava numa viagem, quando eu ainda era estudante. Viagem de jogos escolares. Aí tinha um grupo de pessoas reunidas e começaram a ´brincar´ pisando e chutando uma rã. Foi uma coisa que me incomodou. Eu comprei briga com umas oito pessoas. Pensei: “será que eu devo brigar por isso?”. Só que é uma vida, é um animal. Ela estava toda machucada. Então comprei a briga e consegui pegar ela e soltá-la” 

Ele conta orgulhoso que achava que iria apanhar, mas que controlou bem a situação, pois as pessoas que “brincavam” com a rã ficaram com vergonha. Explica ainda que fez questão de mostrar, em seus argumentos, o quanto aquela brincadeira era idiota. Deixou claro que sua luta é pelo direito a vida e vai além da proteção aos animais.

A melhora nas condições da classe trabalhadora faz parte dos seus objetivos de um mundo melhor e mais justo. Sobre o atual momento histórico em que está inserido, ele comenta que agora todos os movimentos sociais precisam aparecer. André é dirigente no Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica, Profissional e Tecnológica (Sinasefe). 

Para o trabalhador, a sociedade privilegia os grandes empresários e isso precisa mudar: 

“Se a sociedade não valorizar o direito à vida, não serão pequenos grupos isolados que vão conseguir fazer essa defesa, é uma briga de toda sociedade. Isso vale para a luta pelos animais e também na questão das lutas dos trabalhadores. A luta do trabalhador é um direito e não serão poucos sindicatos ou alguns sindicalistas que vão tocar esse movimento. Toda luta depende da sociedade e a sociedade somos nós, então nos resta tomar as atitudes corretas”

Aprendizado 

“Além de afeto e gratidão dos animais, o maior aprendizado que recebo é perceber que aos poucos a sociedade está mudando” – André explica que hoje é uma minoria que maltrata os animais em Campo Largo. De acordo com o trabalhador, no centro da cidade, por exemplo, é até possível ver um animal durante uns dois dias, “mas depois ele desaparece porque alguém recolheu, ou para uma castração ou para um tratamento de saúde. Às vezes o animal volta para o local ou acaba sendo adotado. E isso é resultado de muito trabalho dos protetores da cidade”. 

Ele acrescenta que apesar da melhora, algumas coisas ainda precisam evoluir, como é o caso da conscientização nas casas das pessoas. Hoje, o que faz a diferença na sociedade, segundo André, é o trabalho coletivo. Não só através da Associação Protetora de Animais, mas também no próprio comércio: 

“Tem pet shops que ajudam. Moradores também. É comum, em frente a esses locais e também nas casas e até no terminal público, encontrar um pote de ração, um pouco de água e até casinhas, no inverno. Cinco anos atrás você não via isso em Campo Largo”

Já no fim da conversa, André deixou um recado para que todos que se interessam pela militância na proteção dos animais. “Participem da Feira de Adoção que acontece quinzenalmente na Praça do Museu, em Campo Largo (Rua XV de Novembro, 2423 – Centro). Todas as informações podem ser encontradas na Associação Protetora de Animais no telefone: 041 3032 5205”. 

Por Regis Luís Cardoso/Sindimovec

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