Você não é “o” cara

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Já faz um tempo eu fui palestrar em uma faculdade de jornalismo, falando sobre fotojornalismo freelancer e as diferenças entre trabalhar para um jornal e correr atrás de suas próprias pautas. Foi uma conversa muito legal e na ocasião um aluno na platéia me perguntou qual conselho eu daria para quem pensa em trabalhar com fotojornalismo.

Geralmente eu dou aquelas dicas tradicionais que minha carreira me permitiu aprender, como pesquisar, manter-se informado, aperfeiçoar-se… Mas, me ocorreu naquela ocasião uma questão mais profunda do que só a capacitação e o que é de praxe dentro do fotojornalismo e eu lhe disse: entenda o mais rápido possível que você não é “O” cara.

Sei que essa afirmação pode parecer um pouco agressiva, mas não é. Meu tempo de atuação na área me permitiu conhecer muitos fotógrafos excelentes, daqueles que saem com uma pauta e voltam sempre com a melhor foto possível, carregada de informação e visualmente criativas, e que poderiam – e gostariam – de publicar nos principais veículos do país e do mundo, mas a maioria deles quando não está pautado para cumprir uma missão fica em casa, esperando que algum editor lhe chame para uma pauta, e isso não vai acontecer.

Quanto antes o fotojornalista entender que por melhor que ele seja o NY Times não vai ligar oferecendo um trabalho, mais rápido ele vai poder chegar perto da possibilidade de publicar no NY Times. Mesmo grandes fotógrafos ou agências passam por isso. A Magnum, o mais célebre coletivo de fotógrafos da história, não tem seu telefone tocando o tempo todo com veículos do mundo inteiro procurando trabalhos originais e criativos. É o administrativo da agência que entra em contato com toda sorte de veículos através do globo oferecendo o trabalho feito pelos seus colaboradores.

Então, meu caro fotojornalista, entenda que você precisa empreender. Encontrar uma história, fuçar uma pauta, cobrir da melhor maneira possível – e em múltiplas plataformas -, identificar quem pode ter interesse na publicação, fazer o contato e negociar tudo isso. É fácil? Não. Mas é perfeitamente possível, e muito mais gratificante do que ficar sentado esperando o telefone tocar.

Por Henry Milleo, fotojornalista

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