A cidade que eu quero

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Por Marcio Kieller
Secretário Geral da CUT/PR e Mestre em Sociologia Política pela UFPR

A cidade que eu quero é Curitiba. Mas ela precisa mudar, ser mais humana, mais justa e democrática e atender melhor as pessoas. Vivemos numa cidade já comprovadamente como sendo uma das melhores cidades do mundo em termos de infraestrutura, de transporte, planejamento e plano diretor. Mas para que as pessoas sejam felizes não basta somente o bom concreto e o ônibus não atrasar.

Por acreditar que a cidade que eu quero precisa ser inclusiva, levar em conta que não existe somente alguns bairros que precisam e que de fato recebem atenção necessária. Pois a cidade que eu moro tem setenta e cinco populosos bairros que precisam da mesma atenção por parte do poder público como aqueles alguns poucos considerados bairros nobres e servem de modelo e são almejados por todos que a ele não têm acesso.

Outra concepção de cidade é fundamental e necessária que se construa, que ultrapasse o frio concreto armado, que tenha os olhos voltados para as pessoas, para o desenvolvimento dos cidadãos e da própria cidade. E o momento é oportuno para que nós façamos reflexões importante para o que queremos para nossa cidade. Onde pensemos que ainda é necessário que haja intervenção do poder público para que ela melhore e seja de fato uma cidade onde nos dê orgulho de viver, onde nos dê orgulho de criar nossas filhas e filhos.

Isto sim é importante na cidades que eu quero. Para que possamos mudar a lógica de estarmos sempre na dependência do que a cidade deixa de nos oferecer. Mas para que passemos a exigir da cidade e de seus eleitos mandatários, nossos representantes o que ela, a cidade, precisa nos oferecer em termos de as melhores condições de vida, de trabalho, de lazer, de infraestrutura, enfim, de dignidade.

Olhar para a cidade que queremos e esperar que o olhar dela nos seja reciproco é fundamental para que nos sintamos parte íntegras do nosso local, do espaço onde vivemos e onde vivem os nossos. Mas para que tenhamos esse olhar voltado para nós, para o nosso dia-a-dia temos que pensar sociologicamente a cidade. Entende-la, conhece-la saber quais são os seus principais problemas e principalmente quais as soluções podemos apontar para construir um programa político eficaz para a toda a cidade.

Tão importante quanto apontar esse eficaz e consistente programa político para melhorar a cidade, é ter também claro o viés ideológico, que não fuja dos problemas que enfrentamos atualmente no cenário político nacional, até porque é Curitiba o epicentro desse debate, daí é fundamental nessa caminhada o bom debate político e ideológico. Que fuja da atual interpretação da mídia atual e dos tradicionais políticos, que sempre se locupletaram com a situação social e política da cidade. Mas ao inverso, é necessário que se possa de fato trazer para o cenário da discussão política, os verdadeiros intentos da atual política, que encobre a arquitetura de um ataque sem precedentes à nossa jovem democracia.

A efervescência política que atualmente se enfrenta tem como claro objetivo destruir um projeto político de classe que vem sendo construído desde o início do novo milênio e tem o caráter e a essência popular. E aos olhos daqueles que foram desalojados do governo ao perder as eleições de 2002 é necessário que de qualquer forma, de qualquer jeito se interrompa o ciclo que lá se iniciou. Pois se continuarmos nessa mesma toada do progresso desenvolvimentista em que estávamos a tendência de impossibilidade de romper esse ciclo se consolidaria. E poderemos ter um uma longa sequência de governos democráticos e populares.

Devido a esse fator é que há uma ofensiva clara das elites em tentar interromper esse ciclo de governos democráticos e populares de Luís Inácio Lula da Silva e de Dilma Vana Rousseff. E por mais incrível que pareça, Curitiba acabou se transformando na sede desse projeto das elites políticas de arquitetar esse golpe, pela via jurídica, buscando criminalizar apenas um partido político, quando o que está historicamente errado é o sistema político como um todo. Que é organizado em função da corrupção no jogo eleitoral, onde se dão cartas marcadas, pois lógica do financiamento privado das eleições é o que mantém o atual e corrupto sistema eleitoral em pé e funcionando. Ou seja, funcionando com a indicação de nomes por parte dos financiadores após os processos eleitorais para ocuparem postos chaves e estratégicos que permitam facilitar os canais e os veios da corrupção. E para confirmamos isso basta darmos uma pequena observada na forma como funcionam as doações de empresas privadas e também nos principais doadores de campanha, grandes bancos, grandes indústrias, latifundiários. Que não tem um candidato para doar, mas doam para todas as campanhas. Usando a lógica eleitoral a seu favor, pois qual seja o candidato que ganhe esse estará na sua folha de pagamentos.

E as elites golpistas não apostam somente na alternativa jurídica, pois se concentram e arquitetam diversas formas de golpe institucional, que vem sendo implementadas desde os recursos ao resultado das eleições onde em aliança, o projeto democrático e popular se sagrou vencedor. E a isso se segue a construção de um clima de intolerância e ódio. É parte constitutiva do cenário desse teatro. Pois é, e foi a única forma que as elites arranjaram para também em outras frentes tentar o golpe, se não de forma jurídica, mas de forma institucional, de uma ou de outra, com a fomentação do ódio e da intolerância.

Um dos principais problemas da tese do golpe institucional é que ela colocou fogo no país, dividindo-o, pois o Partido dos Trabalhadores – PT não é o Partido da Reconstrução Nacional – PRN, o partido do ex-presidente Collor de Melo à época do seu impeachment. O PT é um partido enraizado e que tem base social, tem penetração importante em diversos segmentos dos movimentos sociais da cidade e do campo. E a resposta as tentativas de golpe institucional foi dada claramente combatida nas ruas, com organização popular e resistência democrática contra o Golpe.

Voltando a questão de pensar a cidade. Não podemos fugir desse debate que é eixo fundamental para termos uma visão do todo quando pensamos a cidade que queremos. O debate ideológico e de defesa da organização partidária e social para defender a democracia, aliado ao mesmo tempo com o pensar a cidade e como deixa-la mais humana para todos as curitibanas e curitibanos. E aí os cidadãos podem ter a tranquilidade política, após o exemplo de administração social que tivermos ao nível federal que demonstrou preocupação com as classes sociais menos favorecidas no Brasil até hoje, é o que veremos em ser implantado aqui em Curitiba.

E no atual cenário como está Curitiba, totalmente desconectada das políticas e do governo estadual, com problemas sérios e objetivo para resolver em diversas áreas, como a do transporte coletivo onde a cidade perdeu o histórico glamour de ser um dos melhores modais de transportes coletivos do Brasil, que em função da inabilidade política tanto do atual prefeito como do atual governador em resolver de forma administrativa o problema, mas pelo contrário só o agravaram.  

Nunca vimos uma situação parecida nos últimos tempos, em questão de transporte coletivo, pelo contrário sempre fomos exemplo em modais, em novidades, em integração, em renovação de frota. Não é à toa que tínhamos o título e a inveja de outras cidades do Brasil, quando o assunto era transporte coletivo. Sempre fomos elogiados nesse tema. Depois da chegada de Beto Richa, do PSDB, a governo, o governador que bate em professores e em profissionais da saúde, e do prefeito Gustavo Fruet à prefeitura municipal de Curitiba, isso mudou.

Escapou pelas mãos de ambos, tanto do governador como do prefeito, a integração do transporte que existia em nossa cidade metrópole que garantia a comodidade e a economia no bolso de dezenas de milhares de trabalhadoras e trabalhadores que vivem na região metropolitana, mas trabalham em Curitiba. Uma briga nitidamente política e regida pelos interesses privados das empresas de transportes em manter a ganância e o lucro das suas empresas, fazem com que as duas administrações, tanto a estadual como a municipal que deixou os interesses dos usuários do transporte coletivo de Curitiba e região em segundo plano. Atirando como dissemos dezenas de milhares de pessoas que vivem no entorno de Curitiba numa situação de gastos, que seus bolsos não podem suportar em função dos baixos salários que recebem, ou seja, passam essas trabalhadoras e trabalhadores a não ganhar o suficiente para trabalhar com decência, sendo que muitos desses, não contam nem ao mínimo com um trabalho decente.

Resultado de tudo isso se traduz na gestão da atual, gestão morna, com exceção do trabalho de algumas secretarias. Mas uma gestão morna, que não se preocupou em ir além do concreto armado, deixando os curitibanos decepcionados. Não atendeu melhor as pessoas como prometeu, não deu visibilidade para todos os bairros, enfim, uma gestão meio, meio ruim, meio boa. Como falam, uma gestão medíocre. A não ser pelo papel que alguns poucos como a altivez e a determinação da Vice prefeita que incansavelmente se fez presente e nas agendas que de fato importavam, as agendas dos movimentos sociais, da economia solidária, dos menos favorecidos e dos trabalhadores. Inclusive não se relegando ao mero papel de vice prefeita, estando a frente da Secretaria do Trabalho e Emprego de Curitiba por três anos, só saindo quando findou a aliança e o PT resolveu entregar as secretarias que haviam sido indicadas. Mantendo-se somente na vice Prefeitura, porque para isso ela foi eleita por nós. Diferente de alguns outros que preferiram o cargo ao compromisso com a ideologia política.  Não se relegando ao mero papel de vice prefeita. O prefeito tivesse a metade da disposição e da determinação que a vice demonstrava, teria tido uma gestão acima da média. Ou seja, fez cumprir o papel da aliança programática que a levou a condição de vice prefeita. Ela e alguns outros poucos é que deram a condição para que essa gestão seja considerada média, se não nem isso seria.

Importante poder fazer essas constatações, discutir a nossa cidade de Curitiba, pois está novamente próxima a época de escolher novamente os condutores dos destinos da cidade para os próximos 4 anos, ou seja, se avizinham as eleições municipais. E para conseguir a cidade que eu quero é fundamental ter alguém qualificado, com o um projeto político e um programa social muito bem definido e construído a mãos populares, que aponte para a resolução dos problemas da cidade, que pense nas pessoas da cidade e não somente como já afirmado no início desse artigo, olhe somente para o duro concreto armado.

 

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