À espera de um milagre

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Não são apenas as fileiras coxinhas que sobrevivem de indignação seletiva. Muitas vestes petistas podem ter sido picadas por essa doença que lhes deixa febris a razão. Nem trato aqui de tapar o sol com a peneira na questão da corrupção. O olhar agora se mira sobre a forma política e econômica que o governo Dilma tem tratado os trabalhadores. Neste ponto tem faltado punho e voz a muitos membros da esquerda para protestar. Parecem apenas olhar descrentes a cada vez que o povo é traído. Parecem esperar por um milagre.

A apatia na defesa da luta dos trabalhadores teve mais uma demonstração na semana passada. A nova penitência imposta aos brasileiros foi os cortes promovidos na saúde e educação. 21 bilhões que simplesmente não vão para as escolas, Cmeis, UBS e UPAs, que não vão virar livros e lápis, nem remédio, ambulância e reforço no SUS. Dinheiro (a falta dele) que enxugará programas federais nos estados e municípios. Contudo, o governo Dilma tem feito a lição de casa. Só que à direita. Por isso, nos próximos dias, deve ser reprovado pelos professores federais que entram em greve.

Mesmo assim, o delírio segue mantido. Fosse um governo liberal, de bico grande, e o efeito colateral das medidas impopulares seria sentido nas ruas e redes sociais. Um exemplo ocorre contra os governos Beto Richa e Geraldo Alckmin. Contra eles, as medidas impopulares são denunciadas. Contudo, para Dilma, a militância só toma ciência das políticas através dos jornais. Nunca é convidada a opinar; apenas a sustentar. Como pediu Marco Aurélio Garcia em encontro do partido no sábado, 23, em São Paulo: “Temos que propor, no imediato, que essas correções que estão sendo feitas do ponto de vista fiscal possam efetivamente permitir que daqui uns poucos meses nós estejamos com este problema resolvido”. Por outro lado, essa postura amplia a surdez da direção em relação à base. Cada vez mais pouco se queixam das decisões. Raros criticam, por exemplo, que o imposto sobre o lucro dos bancos é “antiácido” que resultará em apenas quatro bilhões a mais aos cofres públicos (contra os 70 bilhões do corte). Para piorar a posologia, aqueles que divergem dessa dieta impopular ainda são constrangidos com a afirmação de que “fazem o jogo da direita”. Ao que rebate, por exemplo, Ricardo Kotscho: “Nunca vi uma reunião do PT tão vazia como essa, quando no passado se disputava um crachá. Isso é um sintoma grave de uma crise que nos”. Nisso, se conclui que a militância padece de inanição.

Só um milagre salva. E um milagre, em sua essência, é atribuir a terceiros, a alguém iluminado, a solução de seus problemas. É ser passivo diante da onda que engole suas bandeiras históricas. Contudo, enquanto a cura dos enfermos não atinge os corações vermelhos, ajustes fiscais são impostos, Selic sobe mais do que pressão, bisturis são lançados no lombo dos desempregados, bancos públicos elevam suas taxas, movimentos sociais são deixados em quarentena e o capital segue recebendo sua hóstia consagrada.

Por Manoel Ramires
Crônicas Curitibanas / Terra Sem Males

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