A GAIOLA DOS LOUCOS: ELE ENTRA NO BUS E SÓ QUER OUVIR UM FUZZ

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(parte 1)

Marcos Iarga Master é o messias do barulho. De milênios em milênios ele perambula pelo mundo. Sua função é testemunhar a história musical interplanetária.

O messias do barulho já foi grilo cantador, já foi sapo compositor e hoje mora em Curitiba.

Neste momento está no Terminal do Portão e vai pegar o biarticulado sentido Terminal do Cabral.

Ele entra no bus e só quer ouvir um fuzz.

“Mudhoney!” – Marcos dá play em seu som e abre um pequeno sorriso. Entra no ônibus pela última porta, vê um lugar vago e senta-se. O ônibus não está lotado, apenas os lugares do fundão estão ocupados. Há mais bancos desocupados nas proximidades das portas 1 e 2.

Após alguns minutos, parada no tubo Dom Pedro I (no bairro Água Verde – Av. República Argentina).  Ao abrir das portas, entra um senhor que aparenta ter uns 70 anos.

De pela branca, cabelos brancos, camisa xadrez de manga curta, calça social branca e sapatos brancos, o senhor vai pela porta 2 em direção a parte dos fundos.

Marcos aumenta o som…

Mudhoney é uma banda precursora do movimento grunge de Seattle do fim dos anos 80, estão na ativa atualmente. São barulhentos…  e é graças ao barulho que Marcos Iarga Master vaga por todos os cantos do mundo conhecendo novos artistas.

Ele voa como o tempo.

Poderia estar em Seattle, mas hoje ele mora em Curitiba. Não se sabe o motivo de viver na capital paranaense, de perambular sem rumo por aqui. Talvez busque alguma nova banda barulhenta, já que seu radar raramente falha.

Então Marcos pausa a música. Na sua frente está parado aquele velho que caminhava em direção ao fundão. O messias agora tira os fones e espera pra ouvir o que o senhor tem pra falar.

Porém o velho apenas faz um sinal, mexe seus óculos de grau com armação preta e novamente gesticula (indicando o banco do ônibus).

Master percebe que o velho quer sentar onde ele está. Por isso levanta e cede o lugar. O messias olha pra frente do bus e vê vários bancos vazios. Prefere não falar nada.

O velho está abraçado num monte de papéis, isso chama atenção de Marcos. Ao invés de sair de perto e buscar um banco vazio, olha rapidamente os papéis que aquele senhor segura. “Andrei Sakharov?” – consegue ler rapidamente o que está nos braços do senhor e fica intrigado.

Marcos Iarga Master passou diversas vezes pela Rússia. Conheceu o físico Andrei Sakharov quando esse estava preso na Sibéria.

Sakharov recebeu Nobel da Paz em 75 na incansável luta pelos direitos humanos na extinta União Soviética. Mesmo sendo um dos mentores da primeira bomba de hidrogênio da história, Andrei ficou mais conhecido como cientista humanista.

O messias olha fixamente pro velho sentado. O ônibus sai do tubo Dom Pedro I e segue seu rumo. “Que não é o Sakharov eu sei que não é” – pensou Marcos.

– O que tá olhando porra? – disse o velho pra Marcos.

– Como é que é? – respondeu o messias atordoado, pois não esperava uma pergunta tão direta.

– Você tá olhando o que? Fica aí parado me olhando. Tá me achando bonito?

– Não! Que é isso senhor…

– Tá me achando feio?

– Não… não… olha só… não foi isso que eu quis dizer…

– É… você até agora não disse porra nenhuma. Só fica aí olhando. Que porra cara, não pode olhar pra outra pessoa?

– Desculpe senhor, mas é que na verdade tem algo me intrigando!

– É mesmo? O que? Meu pau?

– Que é isso! Você só pode estar de brincadeira comigo né.

– Eu? Você fica me olhando e eu que estou de brincadeira?

– Andrei Sakharov?

– Sim… sou eu mesmo. Por quê?

– Hã?

– O que foi… alguma coisa errada com meu nome agora?

Marcos não sabe se chora ou desmascara o velho. “Isso parece uma grande brincadeira”.

– “Uma sociedade livre é uma sociedade conflituosa!”, não é Andrei?

– O que?

– Isso que eu acabei de falar não foi você quem disse?

– Não disse porra nenhuma, aliás, vou te dizer uma coisa, você tá tirando onda da minha cara? Filha da puta…

– Não… mas o que é isso. Filha da puta não ein…

– Vai chorar agora bebezão.

– Olha só… eu achava que Andrei Sakharov tinha dito aquela frase.

– Olha aqui… eu não disse isso pra ninguém… e se tivesse dito, não seria pra você…

– Certo, e a Yelena, como está?

– Quem?

– Yelena Bonner, sua esposa!

– Olha aqui cara… desconheço essa pessoa.

– Você não é Andrei Sakharov. Este nome é de um físico russo. Eu o conheci quando ele estava preso na Sibéria.

– Pelo menos tenho alguma coisa parecida com esse russo aí…

– É mesmo, o que?

– Já fomos presos… – e sorriu.

– Olha… não sei… está estranho isso… não bate! A sua idade! Quem te arrumou esse apelido?

-Apelido?

– É.

– Seu moleque… esse é meu nome porra…

– Pare com isso… vai me dizer que você é um dos inventores da bomba de hidrogênio?

– Bem que eu queria ter inventado uma bomba…

A cada parada entram pessoas, saem outras e a conversa dos dois continua. “Esse velho louco e desbocado não consegue falar algo sem soltar um palavrão! Como esse cara tem o nome do Andrei!” – se indaga o messias do barulho.

Sakharov era odiado pelo regime da União Soviética e perseguido pela KGB. As autoridades chegaram a dizer: “nós não vamos deixá-lo morrer, mas vamos deixá-lo inválido”. Porém o cientista sobreviveu à pressão. Mais tarde voltou a Moscou e tornou-se político.

Um dos primeiros big brothers da história pode ser assistido quando Andrei estava preso. Havia câmeras por todos os lados no pequeno apartamento em que vivia na Sibéria.

Tentou escrever, por três vezes, um livro. Quando Mikhail Gorbachev assumiu o país, a KGB (extinta no início da Perestróica – fim da década de 80) entregou um dossiê sobre Andrei. Dizem que todos esses documentos foram queimados. O estranho é que Andrei não havia entregado seus escritos pra ninguém. Então a questão é como o governo conseguiu os manuscritos que estavam no dossiê?

Quando Sakharov voltou à Moscou, ele acreditava que Gorbachev tinha intenção de fazer reformas políticas no país e libertar presos políticos. Passados alguns anos, Andrei e Gorbachev romperam. O físico perdeu força política, pois os conservadores fizeram de tudo para calá-lo, e morreu no fim da década de oitenta.

A conversa segue:

– Então eu não estou falando com a pessoa que questionou todo um sistema?

– Aff…

– “A raiz quadrada da verdade é o amor”, foi você quem disse isso?

– Foi… claro que foi… disse isso pra tua mãe.

– Você não honra teu nome… senhor Andrei Sakharov.

– Mas é claro que não!

Os dois se olharam…

O velho sentado no banco do ônibus abraçado aos seus papéis e Marcos em pé, pálido como a eternidade.

– Se você é o velho Andrei, vou te fazer uma pergunta.

– Você é meio inconveniente… – disse o senhor de setenta anos.

– Se você fosse político. Vamos dizer assim, um senador. E alguém dissesse pra você o seguinte: “você está no nível mais alto do poder!”. Qual seria sua resposta?

– Ah… corta essa… porra… “vai se foder”… essa seria minha resposta…

– Você não é Sakharov!

– Tá bom cara… eu não sou… cara chato da porra…

– A resposta é essa: “não estou no nível mais alto, estou ao lado, mas do lado de fora”.

– Aff… e daí cara… o que eu tenho com isso?

– Você disse que era o Sakharov e eu sei que você não é…

– É claro que eu sou porra… vai tomar no seu cu…

(continua na próxima segunda-feira)

 

Por Regis Luís Cardoso
LP – Crônicas musicais
Terra Sem Males

 

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