A GAIOLA DOS LOUCOS (PARTE 2)

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Semana passada, o Terra Sem Males publicou a parte 1 da crônica musical “A gaiola dos loucos: ele entra no bus e só quer ouvir um fuzz”, de Regis Luís Cardoso. 

(parte 2)

– Vem gatinho… vamos colocar um gelinho nesse olho… vou cuidar de você… – balança o cabelo e dá uma pegadinha na bunda do moleque.

– Porra grandão! Que pancada! Onde aprendeu a bater assim? Já lutou boxe?  – mais uma intromissão pálida de Marcos.

– Não sei… – dá risada.  “Ele parece um bobão… um ‘lambão’ como já ouvi por aí” – pensa o messias.

Esse passageiro é grande, todo descabelado (um cabelo liso e sujo). Enquanto ele sorri pro Marcos, todos percebem que há uma janela na boca dele, está sem os dois dentes da frente.

– Sabe – diz o estranho passageiro – faz tempo que não dou tanta risada – e deu mais uma risada – foi bom dar essa porrada – e olhou pra sua mão. Depois olhou pro velho e continuou – Eu era muito depressivo. Até deixei minha barba crescer! – “Como se isso tivesse alguma ligação com depressão” (pensou Marcos) – Já tentei me matar várias vezes, todas sem sucesso – e olhou pro chão.

– Sério? – questionou Marcos.

– Sim… mas já superei essa fase. O problema é que esses dias eu fazia minha barba em frente ao meu espelho, no meu banheiro, da minha casa, com a minha tesoura…

– Certo… – Marcos ouvia atento.

– Quando mamãe achou que eu tentava me matar mais uma vez. Aí ela pulou em cima de mim! Aí eu caí de boca no chão! Aí agora eu tô com dois dentinhos quebrados… olha aqui… – e mostrou os dentes.

– Sua mãe deve ser gorda pra caralho né não? – pergunta o velho. Mas o outro passageiro está mostrando os dentes quebrados pra todo o fundão e não escuta a pergunta.

– Mas viu meu camarada… vem aqui… me diz uma coisa… – o chama Marcos.

– O que?

– Quando foi isso?

– Faz uns dez dias – e mostra sete com os dedos.

– Entendi… mas já está na hora de dar um trato nessa janela meu amigo! – diz Marcos e vai em direção a porta do ônibus.

– Sim… (deu risada) o dentista vai arrumar pra mim (deu risada). Ainda mais agora que estou trabalhando na KGB – e deu muita risada olhando pro velho (que desesperado olha pra Marcos como se pedisse ajuda). O velho vê que Marcos está de saída e se abraça aos seus papéis. “Eu tô na merda…” – reflete o velho.

“O passageiro da KGB agora vai cuidar de Andrei Sakharov em plena Curitiba. Que tragédia!”, pensa Marcos, que sai do bus, adentra no Terminal do Cabral, coloca seu fone de ouvido e dá play no som.

Ele sai do bus e só quer ouvir um fuzz. “Mudhoney!”.

 

Por Regis Luís Cardoso
LP – Crônicas musicais
Terra Sem Males

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