A pandemia e o impacto sobre a vida das mulheres

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O papel social, doméstico e o cuidado integral com as crianças

por Daiane Hohn e Jéssica Portugal – Militantes do MAB 

A pandemia do COVID-19 tem relegado às mulheres trabalhadoras um papel ainda mais intenso no cuidado. Às empurrou para dentro de casa, reforçando o patriarcado ao mesmo tempo em que desnudou a desigualdade social existente. O capital, que já estava em crise e buscava formas de retomar suas altas taxas de lucro, se manifesta agora na sua face mais cruel, pois deixa milhares de trabalhadores e trabalhadoras em condição de vulnerabilidade. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD, 2020) indicam que aproximadamente 57 milhões de pessoas no Brasil estavam em trabalhos informais, sem carteira e ou desempregadas. Ou seja, a situação que já resultava em vulnerabilidade social, no momento atual, as deixa ainda em maior risco.  

Embora o avanço do vírus afete a todos, a pandemia não se manifesta da mesma forma nos diferentes grupos e classes sociais, pois as condições de vida das pessoas as expõem ao contágio em maior ou menor intensidade. Deste modo, as mulheres podem ser consideradas o grupo social mais afetado pela pandemia do novo coronavírus, posto que, conforme o IBGE, constituem o grupo majoritário dos empregos mais precários ou informais, estando obrigadas a voltar-se às tarefas do cuidado da casa, da economia doméstica, dos filhos e a prezar pela saúde de todos.

O isolamento social é uma das medidas protetoras, no entanto, revela-se como uma ameaça à vida através do aumento da violência doméstica. Segundo informações do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (2020) houve um aumento de 9% das denúncias de violência contra as mulheres durante a primeira semana da quarentena (17 a 25 de março) em relação a semana anterior. Os presentes dados compõem o conjunto de elementos que estão postos nesse momento: a desigualdade social, o machismo e a pandemia. Ao mesmo tempo em que as mulheres enfrentam o medo de que o vírus irremediavelmente uma hora desembarcará na sua casa, defrontam-se com uma sobrecarga de trabalho mais intensa, pois, além do trabalho doméstico, do trabalho realizado à distância e das contas que continuam chegando, as crianças estão sem creche, sem escola e sem opção de lazer. 

É nesse ambiente de precarização das condições das famílias da classe trabalhadora que se sobrepõem as demandas do cuidado com as crianças. É um desafio garantir que o desenvolvimento infantil aconteça com segurança, alimentação, saúde e cuidado integral diante do quadro de crise econômica, isolamento social, ansiedade, medo, exposição excessiva a mídias com conteúdo diverso e muitas vezes impróprios, falta de espaço e contato com a natureza e os amigos. 

As famílias atingidas, organizadas no Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), inserem-se nesse mesmo contexto e buscam coletivamente encontrar respostas para esses desafios, a exemplo do trabalho educativo com a Ciranda Infantil, a partir do qual tem se organizado e compartilhado um conjunto de materiais específicos para as crianças no período de quarentena. São atividades pedagógicas de arte e educação, brincadeiras, audiovisual e literatura com produção pelos educadores e por crianças atingidas por barragens inseridas na cultura popular, na busca de contribuir com o processo de educação popular das crianças em casa. É fundamental que a responsabilidade seja partilhada também com os pais, no caso das crianças que contam com a presença da figura paterna, e também que os companheiros busquem a divisão igualitária do trabalho doméstico e de cuidados com as mulheres na vivência cotidiana no período de quarentena. 

Para além disso, o MAB compreende a necessidade que as diferentes redes de ensino, diante do agravante quadro de emergência nacional, de acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) e Organização Mundial da Saúde (OMS), proponham medidas de mitigação aos impactos na educação escolar das crianças, através da permanência do fechamento das escolas para evitar a propagação do vírus, da flexibilização dos cronogramas escolares e a implementação de modalidades de ensino à distância no período da pandemia, que contemple as especificidades de cada realidade. Nesse sentido, consideramos necessário à ampliação do PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar), para que haja a distribuição da merenda escolar com métodos adequados e seguros às famílias com filhos matriculados; a reversão do recurso em auxílio financeiro para cada estudante matriculado na rede pública de ensino regular e diferenciado. 

Já no tocante às dificuldades financeiras que as famílias estão vivendo, a alguns dias foi emitida uma medida emergencial que disponibiliza R$600 reais às famílias em maior vulnerabilidade social. Alivia a situação, mas não é o suficiente. É necessário que este valor seja maior. É papel do Estado garantir que as pessoas possam permanecer em casa como forma de proteção. A exemplo disso, o MAB e das demais organizações da Plataforma Operária e Camponesa da Água e Energia lançaram uma série de propostas centradas na gratuidade das tarifas de água, energia elétrica e gás de cozinha e na utilização de recursos estratégicos do povo brasileiro para a mitigação dos efeitos da pandemia na vida das famílias. 

Por fim, compreendemos que a solução para superar o patriarcado, o machismo e a violência contra as mulheres passa pela construção de uma outra ordem que tenha embasamento nos princípios do feminismo popular, assim, as tarefas do cuidado e da reprodução serão divididas entre todos de forma igualitária e as crianças serão responsabilidade do conjunto da sociedade.

A VIDA ESTÁ ACIMA DO LUCRO! 

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