ABRIL VERMELHO: MST do Paraná rememora mártires e reafirma seu percorrer histórico

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Neste 17 de abril, Dia de Luta pela Reforma Agrária, militantes Sem Terra e voluntariado realizaram uma série de atividades, entre elas doações de alimentos e mutirões de plantios de hortaliças e árvores nativas

Por Júlio Carignano | Fotos: Joka Madruga

O 17 de abril foi de memória de mártires pela passagem dos 25 anos do Massacre de Eldorado do Carajás, no Pará, quando em 1996, 21 sem terras foram brutalmente assassinados por policiais militares. Na data – que passou a ser conhecida como Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária – o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra organiza atividades alusivas ao “Abril Vermelho”, cobrando justiça no campo brasileiro, uma vez que a impunidade segue sendo motor para massacres, chacinas e despejos violentos. Desde redemocratização, que coincide com a criação do MST, mais de 1.800 lideranças camponesas foram assassinadas no país, porém apenas 72 destes casos chegaram aos tribunais.

No Paraná, estado berço do movimento, assentados, acampados e militantes voluntários fizeram diversas ações solidárias com doações de alimentos e atos políticos que, além de memorizarem as vítimas de Eldorado do Carajás, celebraram um outro momento marcante da história da luta pela terra do 17 de abril: a ocupação do maior latifúndio de terras griladas do país em Rio Bonito do Iguaçu, região central paranaense. “O 17 de abril é um dia especial para o campesinato e para os povos do mundo. Por um lado, lembramos os assassinados e mutilados do Massacre de Eldorado do Carajás. Por outro lado, lembramos a grande vitória coletiva de camponeses e camponesas que ocuparam os 110 mil hectares da fazenda Giacomet Marondin, atual Araupel”, diz Roberto Baggio, coordenador do MST no Paraná.

Baggio se emociona ao lembrar da madrugada fria, do 17 de abril de 1996, em que homens, mulheres e crianças ocuparam uma grande parte da área da madeireira. “Depois de todo esse tempo, hoje estamos na luta final para incorporar a totalidade das áreas da Araupel em um grande processo de assentamento de camponeses e camponesas. Então essa data é especial por lembrar a violência brutal do estado e também a potência organizativa do povo camponês”, diz Baggio, ao conceder entrevista em um dos espaços símbolos do MST no Paraná: o Assentamento Contestado, na Lapa, a 70 quilômetros de Curitiba.

A comunidade formada em uma área de 3 mil hectares é a sede da Escola Latino Americana de Agroecologia (ELAA). O espaço, que já foi um latifúndio improdutivo com dívidas com a União, hoje é referência na formação e produção agroecológica. “Esse assentamento é fruto de uma conquista de um dos períodos mais violentos para os camponeses e camponesas do Paraná, que foi o governo Jaime Lerner. Uma ocupação feita em 1999. Também foi neste período histórico, de junho a novembro de 1999, que ficamos acampados em frente ao Palácio Iguaçu. Naquele tempo a burguesia agrária não admitia a criação de nenhum assentamento próximo de Curitiba. Então, o Contestado representa um grande território das bases materiais da luta do MST no Estado”, recorda Baggio.

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Marmitas da Terra

É neste espaço histórico do Assentamento Contestado, na Lapa, que cerca de 50 pessoas organizam semanalmente mutirões de colheitas e plantios para o projeto Marmitas da Terra, que distribui todas as quartas-feiras centenas de refeições agroecológicas à população em situação de rua e em vulnerabilidade social em Curitiba e Região Metropolitana ao longo de mais de um ano da pandemia do novo Coronavírus.

Neste sábado, 17 de abril, o grupo que conta com militantes Sem Terra e voluntários, iniciou o plantio de 5 mil mudas de árvores nativas em uma área de preservação permanente. As mudas foram fornecidas pelo Instituto Água e Terra. Também houve o plantio de hortaliças que serão colhidas posteriormente para a ação das Marmitas da Terra. “Hoje é um dia histórico, que estamos aqui em luta pela memória das vítimas do Massacre de Carajás e também pautando solidariedade”, comenta a voluntária Ligia Santos. “Aqui construímos esperança. Apesar de estar passando por um momento triste, estamos aqui reunindo forças para enfrentar esse momento”, acrescenta o professor Giordano Bruno de Oliveira.

A vereadora de Curitiba, Carol Dartora (PT), participou do mutirão deste 17 de abril. Ao destacar a luta histórica do campo progressista pela reforma agrária e o direito à terra, ela falou do atual momento do Brasil que voltou a figurar no mapa da fome mundial. “Estar aqui hoje, participando do voluntariado na colheita, tem um significado muito grande considerando que a gente voltou ao mapa da fome e da insegurança alimentar. Precisamos dar um novo olhar para a fome no Brasil”, comentou a parlamentar. Hoje 19 milhões de pessoas passam fome no Brasil e outras 117 milhões estão em situação de insegurança alimentar.

Ao falar sobre a experiência do Marmitas da Terra, Baggio destaca a construção de um projeto solidário e comunitário para o povo brasileiro. “O Marmitas da Terra tem proporcionado uma experiência de vida, de diálogo, do convívio, do processo produtivo e de relações humanos que mostra que é possível erguer um projeto popular no Brasil. Um projeto a partir do conhecimento dos trabalhadores e trabalhadoras, de apropriação da riqueza e de sua socialização para todos e todas. Esse é o nosso horizonte futuro, essa é a nossa caminhada. Esse é nosso percorrer histórico”, conclui o dirigente do MST no Paraná.

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