AGROECOLOGIA: GUARDIÕES DAS SEMENTES PRESERVAM A PUREZA DOS ALIMENTOS

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“Querem controlar a soberania alimentar e nós temos que lutar por ela. Aqui se abre um novo amanhecer”.

A Associação Brasileira de Amparo à Infância (ABAI), parceira da Fundação Vida Para Todos, realizou no último domingo, 30 de agosto, a 3ª Feira de Sementes Crioulas de Mandirituba (PR), reunindo representantes da agricultura familiar numa experiência coletiva de troca de sementes orgânicas, sem agrotóxicos, sem transgênicos.

Centenas de famílias passaram o domingo de sol nessa experiência de militância dos movimentos sociais. Um espaço em que estavam à disposição dos visitantes água em copo de bambu, comida para o almoço feita pelos participantes e alimentos, muitos alimentos cultivados pelos chamados Guardiões das Sementes, lutadores pela pureza dos alimentos num mundo em que o agronegócio domina dos mercados, tem maior acesso aos investimentos e subsídios e deixa “refém” de seus produtos grande parte da população brasileira.

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Marianne, uma das organizadoras da Feira de Sementes. Foto: Joka Madruga

Marianne Spiller-Hadorn é uma senhora nascida na Suíça que dedica sua vida à ABAI, foi uma das fundadoras, mora na sede da entidade, e é uma das organizadoras da feira. “Esse evento foi para mim um sonho, me senti no céu. É uma coisa muito importante defender a soberania dos povos, dos agricultores, dos consumidores. Se os agricultores não conseguem a semente pura, sem agrotóxico, os consumidores também vão sofrer. Esse lado político de defender a agricultura familiar contra essa invasão das grandes empresas sementeiras é muito importante, é fundamental defender a vida”, declarou orgulhosa.

Guardiões das sementes

Adolfo Pérez Esquivel. Foto: Joka Madruga
Adolfo Pérez Esquivel. Foto: Joka Madruga

Entre tantos guardiões de sementes, Adolfo Perez Esquivel, Prêmio Nobel de Paz (1980), “nossa referência”, conforme foi apresentado por Marianne ao público. “Para semear, temos que abrir as mãos. Esse é um desafio. Num mundo cada vez mais fechado, querem controlar a soberania alimentar e nós temos que lutar por ela. A soberania alimentar está no pequeno e médio produtor agrícola. Aqui se abre um novo amanhecer”, declarou o arquiteto e artista plástico argentino, que dedica sua vida à militância em defesa dos povos e dos pobres.

Alexia e Ludmila. Foto: Joka Madruga
Alexia e Ludmila. Foto: Joka Madruga

Alexia, 11 anos, e Ludimyla, 9 anos, são moradoras de Areia Branca, distrito de Mandirituba. As meninas são Guardiãs Mirins das Sementes Crioulas e explicaram como funciona essa missão:

“Nós ajudamos na roça da nossa avó e ajudamos a vender os produtos orgânicos aqui na feira de sementes”, explica Ludimyla. “Minha vó planta de tudo: feijão, milho, batata, cenoura, cebola, tomate, tudo sem agrotóxico”, disse a garota. “A gente não precisa comprar no mercado. O que não serve pra comer ela planta de novo”.

Alexia explica que elas se tornaram guardiãs mirins na feira do ano passado. “A gente soube na nossa escola e viemos pra cá”. As crianças Guardiãs Mirins das Sementes Crioulas participaram da Mística de Abertura da Feira, uma representação teatral, em forma de musical, de como a Mãe Terra é prejudicada pelo avanço das multinacionais na agricultura. Empresas como a Monsanto foram retratadas como monstros enormes. Mas não impossível de combater com a ação dos guardiões.

Mãe Terra semeia esperança de uma terra sem males na Feira de Sementes. Foto: Joka Madruga
Mãe Terra semeia esperança de uma terra sem males na Feira de Sementes. Foto: Joka Madruga

Além das crianças, muitos adultos encaram a missão de Guardiões das Sementes, tão responsáveis quanto as crianças na missão de fiscalizar as plantações, se unir para conseguirem produzir produtos puros e comercializá-los. Mais do que uma forma de subsistência ou estilo de vida, a militância da agricultura familiar quer disseminar essa cultura de não aceitar a soberania alimentar com o consumo de comidas envenenadas com agrotóxicos e modificadas geneticamente com a desculpa de impedir pragas naturais.

Plantando as sementes

Durante a Feira, a mensagem mais marcante do encontro, entre tantas demonstrações de solidariedade à causa, é plante uma semente. A responsabilidade não é só de ter a semente pura. É preciso que ela seja cultivada e dê seus frutos.

Irmã Lia. Foto: Joka Madruga
Irmã Lia. Foto: Joka Madruga

Na abertura do evento, Irmã Lia, representando a Comissão Pastoral da Terra (CPT) recebeu uma mandala de sementes como homenagem aos 40 anos da entidade. “Mais do que sermos reconhecidos por esses 40 anos, sermos valorizados pelos parceiros dessa região. É isso que dá sentido ao trabalho da CPT. Fazer pipocar em inúmeras regiões do Paraná a festa das sementes crioulas. Só assim vamos garantir a soberania alimentar na defesa da vida”, disse Isabel Diniz da CPT.

Isabel Diniz. Foto: Joka Madruga
Isabel Diniz. Foto: Joka Madruga

“À medida que o agronegócio avança, mantemos as sementes crioulas como alternativa. É a resistência dos pequenos e médios agricultores, colocando as sementes crioulas dia a dia na terra”, falou Darci Frigo, da Terra de Direitos.

Darci Frigo. Foto: Joka Madruga
Darci Frigo. Foto: Joka Madruga

“É um trabalho de formiguinha, mas já estamos formigonas, somos maiores. A riqueza e diversidade da produção é graças ao trabalho dos guardiões das sementes, que conseguem manter a semente pura e limpa monitorando desde 2008, quando chegaram as sementes transgênicas”, explicou André Jantara, do Grupo Coletivo Triunfo. André também demonstrou como testar sementes para verificar se são puras ou transgênicas.

André Jantara. Foto: Joka Madruga
André Jantara. Foto: Joka Madruga

Para o presidente da Abai, Pastor Werner Fucks, não existe maior concentração de energia no universo do que na semente. “A semente tem que se romper, se quebrar, se doar. Se ela não se abrir, não trará frutos. Se a gente se fechar, a gente não traz o fruto da justiça, solidariedade, da renovação da vida, compartilhando o pão e a liberdade”, convocou.

Pastor Werner Fucks. Foto: Joka Madruga
Pastor Werner Fucks. Foto: Joka Madruga

O mundo da agroecologia e da agricultura familiar não se resume em povos tradicionais, Mãe Terra, sementes crioulas, Romaria da Terra, Guardiões das Sementes. Mas essas expressões fazem a mensagem e o alimento chegarem mais longe, na mesa de tantos brasileiros que acreditam e lutam por um mundo melhor. Pode parecer surreal, uma vida paralela, sem consumo, pensando no coletivo. Mas está ao alcance de nossas mãos uma terra sem males.

Por Paula Zarth Padilha
Terra Sem Males

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2 thoughts on “AGROECOLOGIA: GUARDIÕES DAS SEMENTES PRESERVAM A PUREZA DOS ALIMENTOS

  • 8 de agosto de 2016 em 20:47
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    Gostaria sw participar dessas feira! Como faço? Qual o endereço? Tenho qu ter sementes pra trocas ou posso comprar de voces?

    Resposta
    • 9 de agosto de 2016 em 14:26
      Permalink

      Olá Edinalva, a próxima feira será em Mandirituba-PR, no dia 28. Só chegar lá e trocar as sementes. Tem para vender também, mas ai tem ver com os camponeses que levarem. Abçs

      Resposta

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