Algumas lições do México

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“O neoliberalismo aplicado enquanto programa máximo, como a realidade mexicana atesta, é o pior cenário possível para os trabalhadores”.

Por Pedro Carrano, jornalista e militante da organização Consulta Popular.
Terra Sem Males

O México é um país latino-americano que não conheceu, ao longo dos anos 1990 e 2000, uma contraposição efetiva, a partir do Estado, ao programa neoliberal.

Pelo contrário, um dos marcos de adesão do país foi a assinatura do Tratado Norte-Americano de Livre Comércio com EUA e Canadá, no ano de 1994.

Desde então, o país se aprofunda numa crise social gravíssima. O aumento crescente da violência alia um Estado repressor contra a luta social com a desculpa da guerra ao narcotráfico. A população paga o preço. É fato que 27 mil pessoas estão desaparecidas. O caso mais simbólico é o dos 43 estudantes desaparecidos no estado de Guerrero, há mais de um ano.

A revista Processo aponta também cerca de 150 mil assassinatos por conta do narcotráfico. Os feminicídios são conhecidos mundialmente, ao norte do país, caso de Ciudad Juárez, no estado de Chihuahua, onde 1481 mulheres e crianças foram assassinadas entre 1993 e 2012. A perseguição contra jornalistas é também considerada uma das maiores do mundo.

Esse cenário reforça a política de terra arrasada neoliberal, que não teve contraposição, apesar dos levantes e resistências, muitas vezes regionais – em Chiapas, Oaxaca, Guerrero –, ou por categorias, caso dos professores e dos eletricitários.

Encruzilhada histórica

Essa é uma das principais lições da experiência mexicana, que demonstra a urgência de as forças populares construírem hegemonia entre os setores nacionais, progressistas e médios – entendendo o leque de alianças necessário para derrotar as políticas neoliberais made in Washington.

O México viveu sua experiência de encruzilhada histórica em 2006, quando o candidato da esquerda à época, Andrés Manuel Lopez Obrador (AMLO), perdeu as eleições daquele ano por 0,56% de diferença para Felipe Calderón, do partido da ordem, o PRI.

Em que pese as fraudes eleitorais (sempre) cometidas, é fato que a posição da Outra Campanha, convocada pelo Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), apontou AMLO como principal alvo das críticas, o que sensivelmente contribuiu para sua a derrota. E foi um grave erro.

Como resultado, a Outra Campanha perdeu força, os zapatistas isolaram-se politicamente, em pleno ano quando os professores de Oaxaca estavam em rebelião e havia um forte movimento de massas em apoio a Obrador (o chamado “Desaforo”, que levava milhões de pessoas à capital).

Não há garantia de que Obrador faria de fato um governo de esquerda, mas poderia conter a espiral de barbárie em que o país se afunda hoje. Seu governo, obviamente, também deveria ser foco de pressão, crítica e luta por parte das forças populares. Mas a divisão não deveria ter vindo da Outra Campanha.

É certo, por isso, que o caso mexicano aponta a falha teórica e prática de muitas organizações para quem o neoliberalismo deve ser enfrentado no mano a mano, sem que as forças populares incidam e busquem influenciar os setores médios, as organizações progressistas, reformistas ou desenvolvimentistas – de acordo com cada realidade social. A vitória de Macri na Argentina também fornecerá elementos para uma análise futura neste sentido.

Isso porque o neoliberalismo aplicado enquanto programa máximo, como a realidade mexicana atesta, é o pior cenário possível para os trabalhadores, porque leva inclusive ao seu aniquilamento físico. É a guerra completa contra os povos, nas palavras do próprio subcomandante zapatista Marcos.

Obviamente, estas reflexões também conduzem a uma auto-avaliação da esquerda sobre a sua capacidade de agitação, diálogo e convencimento para além dos partidos e movimentos sociais já estruturados. A capacidade de unidade com diferentes setores, mas ao mesmo tempo de construção de força própria e organizada.

Constituinte mexicana

Hoje, ao lado da desesperança visível presente na conversa com ativistas sociais no México, nota-se um profundo desgaste e descrença com os partidos institucionais – o governista PRI, assim como o PAN, PRD e até mesmo o recente Morena, de Obrador.

Uma bandeira que aponta possibilidades é o tema da Constituinte. Em 2017, completam-se cem anos da Constituição resultado da revolução mexicana.

Os movimentos sociais estão conscientes que as alterações propostas na Constituição a partir do Senado do país não devem ser efetivas, então buscam pautar o tema da Constituinte como saída justamente para a crise social enfrentada pelo país.

Uma Constituinte popular para mobilizar, dar organização às revoltas dispersas que estão surgindo, e pautar as questões que os de “cima” no sistema político não devem tocar.

 

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