Aline Maria…

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“Levántate y mira la montaña

De donde viene el viento, el sol y el agua

Tú que manejas el curso de los ríos

Tú que sembraste el vuelo de tu alma”

(Victor Jara)

Por Eduarda Aparecida Domingues | Foto: Joka Madruga

Tempos difíceis esse que vivemos, no qual amigos e familiares sucumbem à pandemia do novo coronavírus, atrelada a irresponsabilidade e descaso de um governo genocida. Muitas e muitos tombaram, mas seus sonhos e suas lutas permanecem como legado aos que ficam. 

Neste mês de julho, de ares invernais, quero homenagear minha companheira de lutas e escritas, Aline, com quem tive o prazer de compartilhar 7 anos dessa jornada da vida. Sua passagem foi em maio, causando grande comoção e trazendo dor e tristeza a todos nós.

Inicialmente, fiquei sem ação e desmotivada a seguir com essa coluna. A construção dos textos se dava a partir de ricos diálogos, risadas e aprendizados. O tema “mulheres camponesas” era uma de suas paixões. Como mulher sem terra, camponesa e advogada popular, Aline via no direito uma possibilidade de luta e um instrumento de justiça social.

No pouco tempo que teve, desde nossa formatura em dezembro de 2019, usou o direito na defesa dos direitos da população vulnerabilizada. Continuou estudando. Estava fazendo mestrado pela Universidade Federal do Paraná – UFPR. Sempre falava que estudar era o maior ato revolucionário que nós poderíamos fazer.

Continuar a escrever sobre as mulheres camponesas é o legado da Aline que levarei para a vida. Não poderia fazê-lo sem agradecer sua trajetória que tanto me inspira e me nutre de força e esperança. Nos versos de Moisés Ribeiro: “(…) Somos filhos e filhas da esperança,/ pois quando muitos tombam,/ outros tantos já se levantam/ e empunham a bandeira dos sonhos e da ternura/ da indignação e da rebeldia”.

Para explicar um pouquinho sobre Aline, somam-se à essa construção, Selminha1 e Judite2, irmãs da Aline e companheiras de lutas:

Camponesa, feminista, agroecóloga, advogada popular são algumas das identidades e bandeiras que pertenciam ao Ser Aline. Herda nos teus traços a ancestralidade da resistência indígena, negra, popular. Aline era Ameríndia nos traços e na incorporação das lutas. Ela herdou em sua trajetória a memória histórica de mulheres indígenas que secularmente resistem na luta pela terra nos diversos rincões da nossa Latinoamérica. Herdou também a memória histórica da resistência negra, de quilombolas, cimarrones, e tantas outras. Na resistência popular, Aline tem como herança a memória de tantas campesinas, proletárias rurais, sindicalistas, operárias, que tiveram suas vidas arrancadas pelo vírus do sistema do capital.

Nascida no seio de uma família de trabalhadores sem-terra, na região sudoeste do estado de São Paulo, em 30 de julho de 1979, Aline cresceu nas roças dos tomatais, no trabalho árduo da lavoura, acompanhando seus pais João e Ana Maria, que trabalhavam na condição de boias-frias, meeiros ou pequenos arrendatários na região.

Na sua infância foi uma menina responsável, dedicada aos estudos, ao cuidado com os irmãos mais novos. Era devoradora de livros e lia avidamente clássicos da literatura.

Na adolescência, ajudou a formar um time de futebol feminino, consagrando-se como a melhor goleira da região. Era aquela que trazia a alegria, proporcionando vitórias dentro e fora de campo, de mãos dadas com seu time questionaram paradigmas, provocando as questões de gênero e de novas relações humanas a partir do esporte.

Ainda jovem, na década de 1990, se engajou na militância de esquerda a exemplo das campanhas eleitorais (desde a histórica campanha eleitoral do Partido dos Trabalhadores em 1989, quando ainda era uma criança de 10 anos). Aline, influenciada pela ideologia de esquerda que permeava seu ambiente, sobretudo, familiar, depositava na construção dos instrumentos de esquerda a esperança de melhorias para a classe trabalhadora. Acompanhou o trabalho do combativo Sindicato dos Trabalhadores Rurais do município de Ribeirão Branco/SP, atuando ao lado de seu pai, na época presidente do Sindicato. 

Também participou das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), foi catequista e se somou à organização dos círculos bíblicos, no qual reescreviam o roteiro litúrgico com base na realidade da comunidade colocando em prática a Teologia da Libertação. Contribuiu nas pastorais sociais da Igreja, como a Pastoral da Criança no combate à desnutrição e mortalidade infantil, cujo índice era elevado no município e, ainda, ajudava impulsionar grupos de jovens através da organização de teatros, festas e animação da comunidade.

Aos 18 anos casou-se com João Batista da Silva, um jovem trabalhador rural com quem teve seus três filhos e juntos foram vencendo os desafios impostos pela vida.

Em 1997, em busca de melhores condições de vida, aderiu junto ao seu companheiro e demais familiares a luta pela terra no MST. O marco de sua entrada no MST se deu, sobretudo, pela condição social, na busca pela sobrevivência, uma vez que trabalhava, desde pequena com sua família, em terras de latifúndios e minifúndios da região. Fez parte das primeiras ocupações que deram origem ao acampamento Laudenor de Souza, estando à época, grávida de sete meses de sua primeira filha, Karen Gabriela, a primeira Sem Terrinha nascida no acampamento. Durante anos enfrentou dezenas de ocupações e despejos violentos, resistindo bravamente já com duas filhas pequenas, Karen e Renata.

Em 2003, após cinco anos de duras lutas foi assentada, conquistando a partir de então, a tão sonhada terra no município de Piratininga/SP. Ainda no pré-assentamento nasceu seu terceiro filho, João Gabriel. Com a conquista da terra, durante mais de uma década trabalhou de sol a sol, sob condições precarizadas e sem infraestruturas. Seu lote tornou-se um dos mais produtivos de alimentos saudáveis. Na busca pela garantia de renda, vendia o excedente da sua produção a pé batendo de porta em porta na cidade.

Pouco antes de regressar aos estudos, Aline somou-se, junto à sua mãe, na iniciativa de uma feira de produtos orgânicos na cidade de Bauru.

Com os filhos crescidos, retoma seu grande sonho de voltar aos estudos. Foram mais de 15 anos fora da escola, mas Aline sempre estava atualizando seus conhecimentos através da leitura. Optou pelo curso de Direito fazendo jus a sua trajetória de vida e à de sua classe, especialmente a dos Condenados da Terra.

Nos cinco anos cursando Direito na Universidade Federal do Paraná (UFPR) reencontrou-se consigo mesma nas diferentes bandeiras que a identificavam: na luta pela emancipação das mulheres, na agroecologia pela autonomia camponesa e nos Diretos Humanos como advogada popular em prol da sua classe. Neste período foi vencendo desafios permanentes, como por exemplo, a solidão da ausência da família, o clima frio de Curitiba, a intensa carga de estudos, os desafios geracionais no âmbito da Turma, dificuldades financeiras no decorrer do curso, entre outras. Aline fez-se superação permanente.

Na Universidade encontrou um processo fértil onde pode retomar seu gosto de fazer política, lançou-se na batalha das ideias a partir do golpe de 2016 em diante.

Desenvolveu no Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) uma pesquisa sobre a importância da titulação conjunta de lotes de reforma agrária, onde o direito ao acesso formal à terra por parte das mulheres lhes assegura a permanência no lote, em casos de separação conjugal, tema bastante relevante para ser incorporado no debate dos movimentos sociais acerca da função social da terra.

Ao concluir o curso, estava no ápice das suas conquistas pessoais e coletivas, se sentia feliz, plena e realizada. Já havia passado na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), ainda antes de terminar a graduação. Se envolvia em atividades acadêmicas desafiadoras, escrevia, publicava, pesquisava. A busca pelo conhecimento genuíno, de interesse da nossa classe, porém elitizado nos latifúndios da academia, era uma das principais trincheiras que Aline desafiava-se a adentrar.

Como oradora da Turma proferiu um memorável discurso ao qual foi ovacionada pela plateia em pé no teatro da reitoria da UFPR, representando com maestria o legado de Nilce de Souza Magalhães, mulher ribeirinha, assassinada por lutar contra as barragens na região Amazônica.

Após sua formatura permaneceu na comunidade de origem, advogando e conquistando benefícios previdenciários tão difíceis para a categoria de trabalhadores e trabalhadoras rurais.

Havia recém passado no mestrado, na mesma universidade, no programa de pós-graduação em Direito e Democracia, a qual estava animada em cursar as disciplinas e desenvolver seu projeto de pesquisa para a dissertação. Certamente Aline teria muito a contribuir com os três principais temas, que se tornaram transversais e presentes em sua trajetória e militância: o feminismo camponês popular, a agroecologia e o Direito.

Uma das últimas atividades que Aline se dedicou, mesmo estando já acometida pelo vírus da Covid 19, foi participar do Seminário organizado pelo seu grupo de pesquisa EKOA, coordenado pela sua orientadora Katya Isaguirre. Aline propôs e fez questão para que o artigo apresentado no seu eixo temático fosse escrito junto com suas três irmãs: Eliete, Selma e Judite. Seria um artigo, como ela sugeriu “a quatro mãos”, e assim o fizemos.

Até o último momento fez a batalha das ideias nas suas redes sociais de forma intransigente, contra a ultra direita fascista representada pelo bolsonarismo. Denunciou o genocídio e chamou a atenção para o perigo da letalidade do vírus. Foi acometida pelo mesmo genocídio ao qual denunciava veemente.

Nosso compromisso enquanto lutadores do povo é levar adiante o legado de Aline Maria pela justiça social, transformando o luto em luta na construção de uma práxis emancipatória”.

“Hoy es el tiempo que puede ser mañana”. (Victor Jara)

1 Selma de Fatima Santos – Setor de Formação/ MST e Doutoranda em Ciências Sociais – UNESP.

2 Judite Elaine dos Santos. Militante MST e Doutoranda em História – USP.

One thought on “Aline Maria…

  • 22 de julho de 2021 em 22:25
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    Bela e justa homenagem!
    O legado e exemplo de superação de Aline Maria seguirão presentes entre seus/suas familiares e camaradas de luta.

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