Ana e um intervalo

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Por Pedro Carrano
Crônicas de Sexta
Terra Sem Males

A entrevista estava agendada. A gente não tinha certeza se a prefeitura autorizaria a visita à casa de Ana, mas resolvemos arriscar. A vida num turbilhão de agendas e atividades. Por isso eu e Joka só fomos falar da pauta no carro, sem saber ao certo o tom que daria para a narrativa – falta de verbas à saúde pública ou condições de trabalho das enfermeiras que atendiam Ana em casa todos os dias para cuidar de uma síndrome raríssima.

A casa de Ana no fundo do quintal, na periferia, comprimida entre cozinha, sala e o quarto, preparado, com cilindros de gás, para o seu tratamento. Entramos com cuidado e uma dúvida se não estávamos sendo invasivos. Ou se fazia mesmo sentido o contato com uma situação que outros jornais já exploraram ao máximo só pelo fato de expor uma história pessoal doída. Ana conhecia hospitais melhor do que ninguém.

Joka encontrou com a sua câmera os ângulos necessários sem mostrar o corpo da menina, observando o detalhe do nome na parede ou de algum brinquedo novo. Conhecemos todos os aparelhos que sustentavam Ana com vida e da qual era inseparável. Ana alimentava-se por sonda. O coordenador da equipe médica nos informou que ela estava aprendendo a sentir o gosto das coisas.

O celular seguia apitando. Os compromissos para além do espaço daquela casa, a urgência da política em todo o país em tempos de partido e de homens partidos, formavam uma nuvem de acúmulo para nós. Joka, então, movimentava a perna compulsivamente, enquanto esperávamos a equipe de enfermagem tratar Ana com calma e com precisão. Quando as enfermeiras terminaram de medir a febre que a menina apresentou, elas me passaram para dentro do quarto para que entrevistasse a mãe. Joka já havia tomado as fotos e eu não sabia o que perguntar para aquela jovem, rosto de adolescente, que sequer tinha profissão, e se dedicava dia e noite à filha. Eu não tinha o que dizer. Apenas fizemos juntos a constatação de que as coisas estavam melhor naquele momento, em casa, e não no hospital.

Logo depois saímos com pressa rumo à próxima unidade de saúde, para mais uma entrevista. Ficamos em silêncio e não falamos nada sobre a conclusão, talvez comum num texto de autoajuda, mas que eu e – imagino que Joka também – sentimos até os ossos: não tínhamos qualquer direito de dizer que estávamos sobrecarregados, atarefados, na correria ou cansados. Mas nem tivemos tempo para qualquer reflexão desse gênero: em meio a remédios e injeções mil, Ana nos encarou com seus olhos negros, firmes e um pouco irônicos, sinalizando com a mão para nós.

Entre incrédulos e emocionados, logo fomos descobrir, na verdade, via a tradução das enfermeiras, que o sinal de Ana era para a gente sair da frente, porque estávamos atrapalhando o desenho favorito da menina na TV.

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