Aposentado baleado durante manifestação em Brasília sai da UTI, mas ainda sofre com descaso

Compartilhe esta notícia.

O drama do servidor aposentado, que foi vítima da violência policial durante protesto em Brasília

Depois passar 12 dias internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital de Base de Brasília, a maior parte desse tempo respirando com a ajuda de aparelhos, continua sob observação atenta da equipe de cirurgia da instituição o servidor aposentado de Minas Gerais, Carlos Geovani Cirilo, que foi baleado com arma de fogo, durante protesto contra as reformas do governo golpista de Michel Temer no dia 24 de maio.

O estado de saúde do servidor aposentado, de 61 anos, ainda inspira cuidados e embora ele tenha sido transferido na última segunda-feira (5) para uma enfermaria, segundo informações da ASTHEMG – Associação Sindical dos Trabalhadores em Hospitais de Minas Gerais, entidade na qual Cirilo integra a direção do Núcleo dos aposentados, o mineiro encontra dificuldades de falar e sente falta de ar. Por causa da idade, também estão sendo administrados nele remédios para controle da hipertensão e diabetes.

O tratamento de Cirilo está sendo acompanhado de perto por dois filhos e por um enfermeiro da ASTHEMG. Desde que deu entrada no Hospital de Base de Brasília, o servidor aposentado de Minas Gerais passou por procedimentos cirúrgicos para reconstituição da face e da mandíbula inferior, com a fixação de pinos metálicos. Por conta da perda de sangue, hemorragia e dificuldade de alimentação, Cirilo esteve entubado até o último final de semana.

A bala que atingiu seu rosto provocou fratura no maxilar direito, com fragmentação no osso, e também lesionou toda a estrutura muscular dali até a base do crânio. Ela está alojada no assoalho da mandíbula inferior, próxima à coluna. Até o momento, a equipe médica que atende Cirilo em Brasília optou por não retirar o projétil.

A demora do transporte

De acordo com o coordenador da ASTHEMG, Carlos Augusto Martins, a maior dificuldade agora é conseguir transferir o servidor aposentado para Belo Horizonte. “A ideia é trazê-lo para o Hospital João XXIII para que continue os tratamentos perto da família e dos amigos”, disse o coordenador da associação. “Mas isso está dependendo da iniciativa do governo do Distrito Federal que, inclusive, assumiu esse compromisso conosco durante audiência no dia 2 de junho,disse que se responsabilizaria com a transferência assim que fosse possível ”, acrescentou.

A demora na transferência do paciente para Minas está angustiando a família e também os colegas da direção da Associação. “Os dois filhos do Geovani Cirilo que acompanham o tratamento em Brasília, por exemplo, estão longe do trabalho e da família, o que por si só dificulta sua permanência na capital federal”, comentou Martins.

Segundo a direção da ASTHEMG, num primeiro momento, a Associação se prontificou em assegurar o atendimento e os cuidados necessários para garantir a vinda e o acompanhamento da família. Depois, em manter um grupo de militantes em Brasília para fazer todo um levantamento dos aspectos jurídicos em torno da violência contra o dirigente da entidade e que se dedicasse a estudar o ingresso de um processo contra o Estado, para exigir a apuração rigorosa do caso.

Em audiência, a secretária adjunta da Secretaria de Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos do Distrito Federal, Márcia de Alencar, teria manifestado à ASTHEMG as desculpas do governo distrital pelo que chamou de incidente e se colocado à disposição para o que fosse necessário. Entre os compromissos assumidos, o da garantia de que zelaria pela integridade física de Cirilo, disponibilizando a ele o mais adequado tratamento. Também prometeu apoio logístico para a transferência para Minas, logo que autorizada pela equipe médica.

Cirilo vai precisar de transporte apropriado (por terra ou mesmo transporte aéreo) e de uma equipe de profissionais que o acompanhe até Belo Horizonte para repassar as informações e orientações sobre o tratamento aos profissionais que o receberão.

Truculência

No dia seguinte ao massacre que vitimou o servidor aposentado de Minas Gerais (caso mais grave) e outros manifestantes, o secretário da Segurança Pública e Paz Social do Distrito Federal, Edval de Oliveira Novaes Junior, anunciou que os policiais que fizeram uso de arma com munição letal no protesto de Brasília já teriam sido identificados e que um inquérito sobre o caso teria sido aberto. Mas, até o momento, nenhuma outra informação oficial e concreta foi dada à Associação ou à família.

“Para nós, não existe nenhuma dúvida quanto à autoria do disparo que atingiu o servidor aposentado. Tudo confirma que o tiro foi dado por policial”, afirmou Carlos Augusto Martins. Para o coordenador da ASTHEMG, testemunhas próximas de Cirilo, que o viram cair e que o socorreram confirmam que havia um policial atirando no local.

“A tomografia também deixa evidente que o que está alojado no corpo de Geovani Cirilo é um projétil de metal e, portanto, um artefato letal”, disse o coordenador. Há algumas semanas, a sociedade brasileira já havia se indignado diante da truculência de um policial militar em Goiânia. O estudante Mateus Ferreira da Silva sofreu traumatismo craniano e múltiplas fraturas depois que um PM deu uma forte pancada em sua cabeça com cassetete da corporação.

Crise institucional

Nos últimos dias, a imprensa internacional é quem tem dado maior atenção ao episódio da violência policial em Brasília, durante os protestos do dia 24 de maio, contra as reformas golpistas de Michel Temer, que retiram direitos sociais e conquistas trabalhistas e previdenciárias históricas do povo brasileiro.

Do final de semana para cá, o que tem repercutido lá fora é um documento assinado por 93 diplomatas brasileiros e 25 oficiais de chancelaria do Ministério das Relações Exteriores (MRE), com críticas ao governo do ilegítimo Michel Temer e em defesa da legitimação do voto popular para o “restabelecimento do pacto democrático no País”. Os diplomatas também se dizem preocupados com o “acirramento da crise social, política e institucional” no Brasil e condenam “qualquer restrição ao livre exercício do direito de manifestação pacífica e democrática” e o “uso da força para reprimir ou inibir manifestações”. O documento é ainda uma resposta à desastrosa nota do Itamaraty, justificando a violenta repressão e tentando se defender das críticas da Comissão Interamericana de Direitos Humanos e do Escritório sul-americano do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos (ACNUDH).

A Organização das Nações Unidas (ONU) condenou a ação da PM do DF e também o uso “excessivo de força por parte da Polícia Militar para reprimir protestos e manifestações no Brasil”. Aproveitou para criticar, inclusive, a violência policial nas operações urbanas e nos conflitos agrários.

A crise institucional no Itamaraty denuncia a apropriação indevida da máquina pública pelo governo ilegítimo de Michel Temer, que expropria da diplomacia o papel de política de estado, zeladora dos interesses e soberania da Nação, e faze com que toda a dinâmica de funcionamento do MRE fique refém de pequenos interesses de um grupo político. Relega a diplomacia a uma oportunista e rasteira política de governo.

EM TEMPO

Segundo informações da ASTHEMG, Cirilo chegou esta madrugada em BH. Passa por avaliações dos médicos. Saiu às 14h30 de ontem (07-06 ) de Brasília para BH em ambulância alugada pela ASTHEMG. Ele ficará internado no hospital João XXIII.

Carlos Giovanni está consciente, conversando com dificuldade, se alimentando por sonda, mas já consegue deglutir líquido. A pressão arterial e a glicose estão controladas.

A decisão de trazê-lo foi tomada pela Asthemg e os familiares diante do descaso do governo do Distrito Federal, que havia prometido dar toda assistência necessária e não cumpriu.
Também diante da insegurança, uma vez que policiais à paisana que não se identificaram estavam frequentando o hospital e abordando o Carlos Giovani. Questionavam se ele saberia reconhecer o policial que atirou nele. Uma atitude suspeita, já que o correto seria eles comunicarem previamente para que o advogado acompanhasse. Apesar da ASTHEMG denunciar esta atitude ao Governo e à direção do hospital, nada foi feito.

Por Thea Tavares

Foto: Leonardo

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *