As ditaduras nunca varridas de nossas vidas

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Por Pedro Carrano (texto e foto)
Mate, café e letras – crônicas latinoamericanas
Terra Sem Males

Era um jantar. O aniversário do equatoriano. Amigo e, ainda por cima, melhor amigo, é coisa rara e boa, ainda mais nos dias de hoje. A companheira dele é paraguaia, sem nenhum sotaque, de generosidade infinita. Entre tantos pontos da bússola, o encontro tinha um núcleo central de sensações já sabido.

Velhos e jovens. Sem meio termo. O vinho abriu a narrativa de vidas de três combatentes em duas ditaduras na América. Os jovens provocaram o relato. E nem precisava. As histórias corriam em meio à culinária equatoriana e receitas dos vales e riachos daquele país.

Urbanos. Três ex-guerrilheiros. Ela e ele, advogados, mantiveram-se amigos desde os anos 60 e não escondiam o carinho extremo um pelo outro. O equatoriano, combateu nos anos 80. Ela foi dirigente, mesmo recém-formada em direito. Nenhum dos três são dos que se engessam na auto-proclamação da vida naquele período. Nem tampouco dos que deixaram a juventude morrer numa lembrança conservadora sobre a geração do Maio de 68. O equatoriano, artesão e exilado, passou a fazer do país os seus próprios mosaicos. As fronteiras, nessa coisa de existirem e não existirem ao mesmo tempo, não fosse o rastro deixado pelo sotaque.

Os dois advogados conheceram a face mais dura do terror. Ocultaram-se com o decreto do AI-5, indo para o outro lado clandestino da vida. Ela foi para a clandestinidade assim que havia acabado a cerimônia de formatura, ainda com a beca.

A conversa resvalou de uma forma sutil no trauma da tortura. O advogado falou em 80 dias seguidos.

– Um pouco a cada dia.

O equatoriano contou que, no seu país, se uma pessoa aguentasse o tranco da tortura por 48 horas, o procedimento finalizava. Foram quatro meses preso. No país que não faz fronteira com o Brasil, na década de 80, até Ronald Reagan havia declarado apoio para exterminar os jovens universitários que montaram uma guerrilha tardia no panorama latino-americano.

Do cárcere, quando voltou para casa, a mãe dele surpreendeu:

– Que bom que você não entregou nenhum companheiro.

– Como é que você sabe?

– Você está me olhando nos olhos.

Naquela encruzilhada de vidas, de idades que se encontravam naquele momento, estávamos ali, sobreviventes e felizes de alguma forma por isso, mesmo que uma nova onda de golpe, de desmonte, de repressão esteja em curso. Mesmo que esses ciclos de repressão e resistência existam numa mesma estrada de idas e vindas, voltas e muitas curvas.

Também houve vários risos naquela noite. Muitos. A maioria das histórias era de erros. De acertos. De desencontros. A advogada narra que uma bolsa cheia de panfletos arrebentou em plena rua quinze de novembro, em 1969, e tiveram que ser abandonados por ali mesmo.

Ou quando um integrante da organização foi encontrá-la e, por ser advogada e dirigente nacional, ele achou que precisava ir bem trajado, de uma maneira que, indisfarçável, chamava a atenção de todo mundo.

Ela ria muito.

Contaram que pretendem fazer um livro de memórias daquele período e das lutas populares que vieram depois nos anos 80, de sindicatos e bairros entrando na cena política.

Ao final concluímos, distraidamente: por que não fazer a História desses momentos de dor, mas também desses causos e dessa capacidade nossa de rir na circunstância mais difícil? Novamente, aquela noite era uma saudação à nossa atávica capacidade de viver.

 

 

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