Balé do Teatro Guaíra: “Nós bailarinos fomos descartados”

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Governo do Paraná exonera 22 bailarinos do Balé do Teatro Guaíra e destino do espaço de dança é apenas uma promessa

Por Paula Zarth Padilha
Foto de arquivo: Sérgio Vieira / Teatro Guaíra
Terra Sem Males

A próxima terça-feira de Carnaval, 28 de fevereiro, marcará o último dia de contrato de trabalho dos bailarinos e bailarinas do Balé do Teatro Guaíra, de Curitiba, que tem suas atividades sob a responsabilidade do governo estadual.

“O que nos indigna nesse momento é a forma que nós bailarinos formos descartados. É agressivo os bailarinos terem que limpar seus armários sem um ‘tchau’. Agressivas são as ações serem feitas na surdina. Agressivo é alimentar artistas com falsas promessas há anos. Agressivo é jogar a história cultural de um estado no lixo. Agressivo são os artistas ‘se virarem nos trinta para alimentar seus filhos’”, desabafou um dos bailarinos da companhia, que prefere não se identificar mas contou o que está acontecendo sob o ponto de vista de quem dança por profissão e teve a vida modificada com a determinação governamental.

Ele explica que a situação contratual dos bailarinos foi declarada inconstitucional no ano passado, mas a situação de trabalho era a mesma há muito mais tempo. Na época, foram criados cargos em comissão de natureza artística, que não eram, na prática, cargos de chefia. Em 2016, quando a situação veio à tona, a solução encontrada pela direção do teatro para manter os corpos artísticos do balé (e também da Orquestra Sinfônica do Paraná) foi a criação de um projeto chamado Serviço Social Autônomo (SSA).

“Durante de todo o tramite da construção do projeto, os bailarinos se disponibilizaram a ajudar. Estávamos juntos, correndo atrás de documentos, fazendo dossiê e tantas outras coisas. Esse projeto ainda está em andamento, mas não temos nada confirmado de datas ou o edital para a seleção, que ainda não foi publicado. Estamos num período indeterminado em que o balé não vai mais existir. Não vamos trabalhar, vai parar, vai acabar. Desmarcamos compromissos de viagens, desmarcamos espetáculos, desmarcamos montagens”, denuncia.

Clima era pesado nas apresentações

O ano passado foi muito pesado para todos os bailarinos. “Trabalhar em sala de aula buscando seu melhor, estar em cena dançando em viagens e saber que tudo ia acabar, é horrível.  Pior foi ter corrido atrás dos governantes em gabinetes, advogados e até exercer funções fora de nossa obrigatoriedade e não obter resultados positivos ou satisfatórios”, descreveu.

Muitos dos bailarinos da companhia só exercem a profissão dentro do Balé Teatro Guaíra e dependem dessa remuneração para sustento próprio e de suas famílias. “No meu caso tenho formação, graduação em dança, dou aula em estúdios aqui em Curitiba, também trabalho como coreógrafo e tenho meus contatos, mas os outros como fazem?”, ponderou. Dia 28 de fevereiro de 2017 é último dia de trabalho da companhia de dança. Após essa data todas as atividades do balé serão encerradas. “Pelo que eu sei, nenhuma companhia de dança no mundo existe sem seus bailarinos”.

Bailarinos fazem manifesto

Na tarde desta quinta-feira, 23 de fevereiro, os bailarinos do Balé Teatro Guaíra realizam um manifesto em frente ao teatro, a partir das 17h30. “A ação que os (ex) bailarinos estão organizando hoje é um manifesto artístico de nossa necessidade de se expressar diante da situação que estamos passando, nesse momento de transição dolorida. Simplesmente fomos despejados e vamos encerrar um ciclo que não deveria se fechar dessa forma insana”, emociona-se.

O bailarino contou como tem sido as últimas apresentações no cenário de incertezas. “Dançando realmente senti, tive a sensação de que era a última vez. Não sei se era a minha última vez em cena ou da companhia acabar”.

A expectativa dos ex-bailarinos do BTG é que com o projeto iniciado por eles, as futuras contratações de servidores do balé e orquestra seja com o recebimento de todos os benefícios e com um plano de carreira, inexistentes no cargo de comissão. “Hoje os bailarinos saem com uma mão na frente e outra atrás”, finaliza.

A última apresentação realizada em Curitiba foi a adaptação da ópera Carmen, na primeira semana de dezembro, também sucesso de público.

O Terra Sem Males preserva a identidade de sua fonte pois se houver concurso e quando houver, teme sofrer represálias no futuro processo seletivo.

 

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