Caoticamente hilário

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Por Regis Luís Cardoso
LP – Crônicas musicais
Terra Sem Males

 

Nunca subestime o caos. Ele pode nos confundir.

Caos mental. Caos na informação. Caos nas ruas. Caos no campo. Caos na política.

Além, óbvio, do caos no sistema; um caos útil, que faz com que se perdure o reinado dos nobres.

Morte ao rei e a todos os seus nobres
Feliz é a vitória de quem tem união
A nossa liberdade
Foi difícil conseguir
Sujamos nossas mãos
Com o nobre sangue azul

 

Morte ao rei!
Majestade
Meu Senhor
Não há igualdade
Eu sou plebeu
Desobedeço
Cuspo nas leis
Sangue Real
É igual ao meu

 

Você foi julgado: culpado!
É a vontade do povo que pague com a morte
Os crimes que cometeu
Déspota!
Assassino!

*’Morte ao Rei’, música da banda Ratos de Porão, do álbum ‘Anarkophobia’, de 1991.

Esse fim de semana, por exemplo, o caos me invadiu as ideias. Aquela coisa nostálgica e adolescente.

Era mais ou menos uma da manhã. Eu e minha companheira chegávamos em casa.

A surpresa!

Ao lado da porta principal, nos deparamos com um moleque mijando na parede.

Eu, tranquilo, disse: “pô irmão, de novo? Mija ali nas árvores da praça, do outro lado da rua, sacou? Amanhã, fica um cheiro de carniça fodido. Aí complica pra nós… hehehehe”.

Ele, ainda com o bilau em mãos, de costas, consentiu e terminou o que fazia.

Fim de semana o cheiro de urina nos visita. No ‘predinho’ onde moro, tem umas marquises e a noite a molecada fica lá embaixo queimando um baseado e bebendo.

Quando eles têm vontade de mijar, o alvo é ao lado da porta de entrada da minha casa.

É só dobrar a esquina…

Quero deixar bem claro que não há qualquer problema em mijar na rua, beber e, muito menos, fumar um baseado.

Já havia entrado em casa. O engraçado é que aquela situação me lembrou algo hilário:

Era uma noite curitibana de 2006. Lá estava eu no biarticulado, Capão Raso/Santa Cândida. Minha parada era no tubo do Passeio Público. Com muito esforço, consegui descer sem mijar nas calças.

Quando saí do busão, com a bexiga explodindo, parei na primeira árvore que vi e mijei. Lembro de ouvir uma voz: “que nojo, seu sem educação”.

Pô… pensei comigo, “a urina ajuda as árvores, as plantas!”.

Fazia aquele trajeto, pois havia visto numa ‘comunidade’ do falecido Orkut que teria uma show do Ratos de Porão em Curitiba.

O local: Ópera 1. Hoje em ruínas, era uma casa de show bacana na capital paranaense.

Recordo da caminhada em direção ao Largo da Ordem. Aquele trajeto clássico. A Trajano Reis. A garoa curitibana. Aqueles pingos finos que não apagam o cigarro.

O olhar atento que avistou um maluco queimando um “cabralzinho” no canto escuro. Os botecos cheios. A galera bebendo. Eu com a grana contada.

Foram uns dez minutos de passadas atentas e livres até uma breve parada pra pegar uma cerveja, no Largo. A pernada continuou, até as ruínas do São Francisco. O Ópera 1 era do outro lado da praça.

Quando cheguei, cansado, sentei no chão  e me encostei num muro preto. Perto de mim, vi uns malucos e perguntei: “Dae! Sabe se tem ingresso por 15, ainda?” – “Estamos esperando pra ver isso também, cara”, disse um punk, olhando pra baixo, me procurando, após ouvir uma voz que surgiu do chão.

Aquele foi o primeiro papo, depois me ofereceram um gole amarelo, uma mistura de maracujá com vodka.

Os cara eram de Pinhais. Um deles estava apavorado pra comprar ingresso. Ele achava que na hora era R$ 25,00; pior que eu também. Vi ele voltar da bilheteria e dizer que comprou por vintão. Eu fui no embalo e também garanti o meu.

Porra! Dez minutos depois aparece um japonês vendendo dois por 20. Sem comentários.

O jeito foi tomar aquele goró estranho.

Portas abertas! Logo de cara, nos alto falantes, Brujeria… “bom começo!”…

“Ratos!Ratos!Ratos!Ratos!” – todo mundo gritava.

Foi aí que Juninho, no baixo, Boca, na batera, João Gordo, no vocal, e o lendário Jão, na guitarra, começaram a paulada sonora.

Pogo generalizado. Caos!

O setlist foi lindo!

O ‘Ratos’ não desaponta.

É preciso mudar o sistema policial
Porque eles estão matando a pau
Gente decente

 

Em vez de proteger a população
Vivem agredindo algum cidadão
Sem nenhuma razão

 

Agressão/Repressão
Agressão/Repressão

 

É preciso mudar o sistema policial
Porque já estamos cansados de agressão

*Essa música tem mais de 30 anos. A primeira versão dé de 1984, do álbum ‘Crucificados Pelo Sistema’.

 

Você vê, né?

Uma mijada na porta da minha casa me lembrou um show do Ratos de Porão!

De 2006 pra 2016 são 10 anos. Em 2016 faz 25 anos que o Anarkophobia foi lançado. Faz 25 anos que o ‘Nevermind’, do Nirvana, mudou o rock; que o Metallica, com o black álbum, e o Sepultura, com o Arise, conquistaram o mundo.

No outro dia, quando saí de casa, vi, ao lado da porta uma garrafinha pet de coca cola cheia de mijo. “E não é que o cara deixou aquilo em minha homenagem?” – pensei comigo.

Na verdade, eu acredito que tudo isso foi uma mensagem pra eu ir na comemoração do Anarkophobia, em Curitiba, em dezembro de 2016.

Veremos! Pois até lá, muita urina vai rolar.

Caos, democracia
Medo, exploração
Cresce dia após dia
O ódio pelo poder

 

São faces marcadas
Que temem a revolução

 

Revolução

 

Cresce a Tirania
Medo, alienação
Morte e Anarquia
Aos porcos desse poder
Promessa sem valor
Falta de razão
Sua moral é fraca
É fácil corromper
Seu olhar de terror/
Não causa compaixão
A sua paranoia
Me causa só prazer

 

Anarkophobia!!!
Doença do poder
Anarkophobia!!!
A cura é só a morte!

*Anarkophobia – música lançada em 1991, está no álbum que leva o mesmo nome.

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