Chomsky avisa: dois minutos e meio para a última meia noite do planeta

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“Por favor, nos dê elementos objetivos e racionais para a esperança”. Esta foi a frase final da última pergunta – formulada pelo matemático Rodrigo Arocena, ex-reitor da Universidade da República do Uruguai – dirigida ao ilustre conferencista.

Noam Chomsky, convidado por José “Pepe” Mujica, com quem dividia a mesa, atraiu para a sede do governo de Montevidéu uma multidão numa fria manhã de segunda-feira (17). Desde as 8h o público começou a se posicionar na entrada do auditório, que comportava apenas 400 pessoas. Pelo menos outras 400 quiseram entrar e não conseguiram. A fila se esparramava pela calçada da Avenida 18 de Julio.

Ao longo de duas horas, o professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts listou e detalhou uma série de motivos para a séria preocupação a respeito da possível – para não dizer iminente – destruição do planeta a partir de um conflito nuclear de consequências irreversíveis para a humanidade.

A referência à meia-noite, várias vezes citada na exposição, tem a ver com o “Relógio do Apocalipse”, sistema criado em 1947 por cientistas atômicos da Universidade de Chicago, mas integrado por estudiosos da comunidade acadêmica internacional, com o objetivo de avaliar a proximidade de uma catástrofe nuclear que acarrete a extinção da civilização humana.

“A necessidade de ações é mais urgente. Estamos a dois minutos e meio da meia-noite, o relógio avança e o perigo mundial realmente nos ameaça. Desde 1953, quando as superpotências testavam suas bombas de hidrogênio, não estamos tão próximos da destruição”, alertou Chomsky, que criticou as inúmeras oportunidades em que o governo do seu país rechaçou acordos para frear a corrida armamentista nuclear.

O conferencista também abordou longamente a outra grande ameaça à sobrevivência da humanidade: a mudança climática global. Para Chomsky, é gravíssimo o fato de que, “enquanto todo o mundo adota medidas para sobreviver, a nação mais rica e poderosa da história da humanidade se dirige com entusiasmo rumo à destruição total”, caminho que tem como indicadores o recorde de produção de petróleo e a negação do fenômeno do aquecimento global por parte do atual presidente dos Estados Unidos, posição – que não é questionada pela mídia estadunidense – a partir da qual derivam inúmeras decisões que comprometem o futuro da humanidade.

Na contramão dos EUA estão países com ampla maioria indígena como Equador e Bolívia, destacou o professor do MIT, ao mencionar os “direitos da natureza” incluídos na nova Constituição do primeiro e em legislações do segundo.

Os humanos modernos, lembrou Chomsky, surgiram há aproximadamente 100 mil anos. Esse período, segundo o biólogo Ernst Mayr, é o tempo médio de sobrevivência das espécies na Terra.

Na opinião do conferencista, uma “democracia funcional”, com “cidadãos informados”, seria, em tese, a melhor solução para garantir a manutenção da vida humana. O problema, porém, é que o poder político e econômico vem corroendo todos os instrumentos de participação democrática em nível nacional e internacional, apontou Chomsky. “Diminuir a democracia é uma característica típica das políticas neoliberais”, denunciou.

Entre temas que tocou de passagem, Chomsky situou a questão dos refugiados como “uma crise moral e cultural” do nosso tempo. “Primeiro destruímos os países e depois castigamos as pessoas que querem escapar das ruínas que nós provocamos”, disse, afiado.

América Latina – Ao responder questão da senadora Constanza Moreira, da Frente Ampla, Chomsky enalteceu o papel dos latino-americanos no enfrentamento ao bloco histórico neoliberal. “A América Latina foi a primeira vítima do neoliberalismo e do Consenso de Washington. E foi a primeira região a dispensar e a emergir do Consenso de Washington e do neoliberalismo”, afirmou, antes de ressaltar a “liderança” de Lula e desnudar a intervenção dos EUA neste rincão do mundo. “As políticas de Lula foram semelhantes às dos anos 60, que levaram a um golpe militar fortemente apoiado pelos EUA. Mas agora os EUA não tinham condições de dar um golpe militar”, pontuou.

A “única esperança” que o linguista mencionou – antes da pergunta de Arocena, entretanto – foi a “democracia funcional”, cada vez menos viável diante do poder crescente das corporações multinacionais sobre a política.

Na introdução ao convidado, Mujica disse algo que serve tanto de alento quanto de preocupação, diante da escassez de tipos como Chomsky. “Não há futuro sem intelectuais comprometidos”.

Seguiremos marchando rumo à meia-noite final ou reescreveremos a história da humanidade?

 

Por Rogério Tomaz Jr.
Jornalista, residente em Montevidéu
Terra Sem Males

 

*Noam Chomsky, linguista, professor do MIT há mais de 40 anos, é autor de dezenas de livros, dentre os quais se destacam, dos publicados no Brasil: “Manipulação do público: Política e Poder Econômico no Uso da Mídia” (com Edward S. Herman), “Propaganda e consciência popular” (com David Barsamian), “Contendo a democracia” e “O Império Americano – Hegemonia ou Sobrevivência”. Além disso, Chomsky protagoniza dois documentários importantíssimos, disponíveis na Internet: “Fabricando o consenso” (1992) e “Réquiem para o sonho americano” (2016).

 

3 thoughts on “Chomsky avisa: dois minutos e meio para a última meia noite do planeta

  • 24 de julho de 2017 em 0:43
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    Para barrarmos o projeto de relativização da democracia popular e a construção de estados de vilania mercadológico, seria necessário que os movimentos socialistas construíssem sistemas de investigações e comunicações populares, concatenadas com ações concretas de mitigação dos riscos socio-eco-humanitários.

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  • 26 de julho de 2017 em 16:33
    Permalink

    O interessante no capital é que ele escraviza o senhor, o capataz e o povo, todos em uma só tacada. É a corporo-cracia do capeta.

    gustavohorta.wordpress.com

    Resposta

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