CONTO I Uma manga chupada

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Por Venâncio de Oliveira, economista, de Ciudad de Mexico (MEX)

 

“O inferno na terra. Alguns diziam que: se uma peca vai para o inferno. Ela já vivia isso. Os ossos dela reluziam”

Ossos rígidos. Lembranças de mortos. Um futuro. Agora, estes ossos tinham vida. Carregar sentimentos, fantasmas e mangas. As mãos de Maria seguravam um carrinho cheio de mangas. Esforçava-se para vender. Queria alimentar seus ossos. Estava cadavérica. Cabelos loiros. Seca. Era uma manga chupada. Não vendia. Não comia. Fazia as contas. Quantas mangas para fazer uma refeição? Fazia uma semana que não jantava. Estava no meio daquele lugar caótico. Não tinha forças para carregar aquele carrinho cheio das frutas. Não podia comê-las. Não eram dela. Queria um prato de arroz, tortilhas, tamales, carnes, ovos, tudo. Era feliz alimentando-se. Agora, estava ali parada, olhava as mangas, aflita porque não vendia. O calor machucava suas pernas ossudas. Estava desprezada, desprezível. Maria desejava vender. Ninguém comprava. Tinha almoçado ontem: Dois ovos com tomate. Mas, hoje não. Não tinha U$ 1,00. Seu marido bebeu os U$ 2,00 que tinha juntado para comer.

Queria atravessar uma rua de San Salvador. Um caos urbano. A poluição. As pessoas e seus dinheiros. Ninguém queria comprar suas mangas. Fazia horas que esperava para atravessar a Avenida Bernal. Um, dois, três, cinquenta carros passavam. Um motor. Uma menina. Um gordo. Um bigode. Outro sorriso. Eles tinham carro e comiam. Ela não conseguia atravessar a rua. Estava cansada. Não prestava atenção. Não tinha forças. O carrinho era pesado. As mangas pesavam no seu coração. O estômago de um trabalhador precisa estar alimentado. O dela não estava. Não era trabalhadora, era informal. Estava com as mangas sem vender. Isso era o que parecia. Um trapo qualquer jogado na esquina. Parecia que nem era mulher, ou homem. Seja que for. Um trapo que não sabia atravessar a rua. Na verdade, eram os carros que não a deixavam. Era torturante aquilo. Se fosse fazer as contas já eram mais de trinta minutos para atravessar um pequeno espaço no tempo.

Um micro-ônibus passava. Convidava ela para entrar. “Metrocentro, 20 centavos”. Eles não viam que ela só queria atravessar a rua e vender suas mangas? A fome digeria sua iniciativa. Estava tonta. Sentava. Olhava. Um bar na sua frente. Ali tinha música nas sextas-feiras. Salsa. Gente feliz se apertando. Havia europeus. “Gente bonita. Queria arrumar um gringo para mim. Ah. Ele não ia querer uma manga chupada. Mas, ele ia aprender o que é sexo com uma salvadorenha de verdade”. Ela sempre passava por aquelas bandas. Às vezes vendia até de noite, na sexta-feira sentava naquela rua, conversava com o hippie e perguntava daquele bar. Gostava só de ouvir. Não entrava. Imaginava. Um sabe seu lugar.

Desviava o olhar. Não tinha música agora. O calor e a rua com seus carros. Ela não saía do lugar. Tinha náuseas. Famélica. Cadavérica. O sol. A fumaça. As mangas. Seus pés eram ossos. Olhava atentamente seus pés. Estavam negros. Um chinelo e cinco dedos. A sujeira não era da terra como a do seu campo. Era da fumaça do caos. San Salvador não era para ela. O campo sim. Agora, estava ali e não conseguia atravessar o caos. Era possível que morresse naquele momento. Insuportável. Queria dançar naquele bar. Podia bailar agora. Será que delirava? Fosse melhor. Seria uma fantasia. Aquilo que vivia era a morte. O inferno na terra. Alguns diziam que: se uma peca vai para o inferno. Ela já vivia isso. Os ossos dela reluziam. Não. Eram as mangas. Ela se confundia com as mangas. O homem e seu trabalho. A mulher é uma coisa. Sim. Era valia menos que as mangas. Trabalhava feito condenada e nada vendia. Não a deixavam nem atravessar a rua.

“Diabos de carros. Diabo de gente”. Queria atravessar. Ali não venderia. Queria ir à frente de uma escola. “Quanto vale a manga?”. Alguém falava com ela. “Ah”. Um milagre. Ia vender uma manga. Talvez atravessasse a rua. “Quatro por U$ 1 dólar”. “Ah… não. Obrigado”. “Maldito”. Gritava em voz alta. O jovem estudante nem ligava. Caminhava. Atravessava a rua. Ela não podia. Não aguentava com o peso de seus ossos.  O tempo passava e ela estava ali. Pelos seus cálculos já passava de uma hora.

Um cachorro chegava. Fétido. Feio. Cheirava. Ela estava sentada. “Saí. Saí…” O cachorro pensava ver um bicho semelhante. Via a arrogância de sempre dos humanos. Mas, ela era tão parecida a ele. Não saía. Aquele bicho tinha sido estúpido. Mas, será que ela não tinha se enganado? Talvez, tivesse confundido o cão com gente. Por isso era grossa. Pensava o cão. Ia dar mais uma chance para aquele bicho. Tinha de mostrar a ela que eram iguais. Para que eles se reconhecessem. Talvez, saíssem e fossem comer algum lixo. Ele estava faminto. Estava convidando aquele bicho para ir com ele, alimentar-se. Chegava. Lambia. “Ah”. Batia no ar. Caía no chão. Ele corria. Sim, era um estúpido humano que parecia cão. Ele ia procurar os de sua raça.

Ela estava ali naquela calçada suja. O carrinho a mirava. Ela revidava o olhar. As mangas. O sol. Seus ossos. Os carros. A poluição. Não conseguia se levantar. Aquele cão petulante. Pensava-se que era quem para chegar sem ser convidado? Jogada no chão. Fome. Miséria. Os transeuntes passavam sem notar sua presença. A mulher. A manga. A sujeira. Ela tentava levantar. Não tinha força. Dormia. Sonhava. Comia carne. Era do tamanho do mundo. Era suculenta. Vermelha. O estômago estava cheio. Ela não ia mais sair daquele lugar. Ia virar chão. Fantasiava. Era melhor que a vida. As mangas seriam levadas. O garoto encontraria assustado um carro de mangas solitário. Mal saberia ele que passava por cima de Maria. O hippie ia sentir falta da magrela que conversava com ele na sexta-feira. O marido não teria de quem roubar dólares para pagar sua cerveja. Ia sentir falta por algumas semanas. Depois ia se esquecer. O mundo era feito de carne e esquecidos.

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