CONTO | Molduras

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Por Pedro Carrano
Terra Sem Males

No final de semana, quando algumas tarefas da casa ficam acumuladas, e dificilmente são resolvidas, decidi pelo menos ir para fora do conjunto onde moramos carregando um quadro pintado pelo meu pai. E desmontá-lo.

Os cupins já começavam a se infiltrar na moldura e era preciso me livrar dela. Enquanto eu e Clara, minha filha, desmontávamos os pregos e a película de fita-crepe que agarra a tela ao quadro, com aquele cheiro típico desde que tenho lembrança, me vinha também a memória de como aquele trabalho foi feito. Era a última leva que meu pai fez, com a assinatura de “Pereira 1993”, uma obra num tom frio, de uma floresta e um riacho quase da mesma cor, um se diluindo no outro.

Meu pai naquela época pintava de noite na despensa ou então me levava durante o dia ao parque Barigui, enquanto eu jogava futebol com algum amigo, buscava um jacaré que nunca víamos, e ele preenchia telas e mais telas naquelas tardes quentes. A maioria das obras se amontoava em nosso sótão. Às vezes chego a comparar na minha cabeça com os mesmos setecentos quadros de Van Gogh amontoados sem conhecimento do público, gritando de cores e tensões. Conta-se que uma obra do holandês genial e humano foi encontrada anos mais tarde tapando a entrada de um galinheiro. Uma parte dos trabalhos de meu pai chegou a entrar para o museu de arte contemporânea de Curitiba, outra ele tentou vender no curto período quando teve estúdio.

Do que me recordo, apenas um trabalho foi vendido naqueles dias. Outras preencheram anos mais tarde as casas onde morei, apesar da trabalheira para remendar aquela parede esburacada na hora da mudança, quando a imobiliária nunca aceita as cicatrizes nas paredes e sempre exige mais uma mão de reboco.

Por coincidência, aquele trabalho foi o último antes de meu pai abandonar de vez a pintura, retomar a vida oscilante de corretor de imóveis e, mais tarde, acabar tendo êxito com um negócio próprio. Alguns artistas chegam ao limite do desespero. Meu pai, por sua vez, optou pelo caminho prático, objetivo, como bom ariano, largou tudo e foi se ajeitar na vida.

O mais incompreensível para mim quando olho para trás é que, naqueles anos nunca fui seu incentivador. Com espírito de criança que prefere arte figurativa, perguntava a ele o que tinham a ver aquelas árvores retorcidas, aquelas araucárias desconexas, aquela perspectiva torta e incrível que Reynaldo fazia questão de implodir, ou então a série de circos de cores girando entre palhaços malucos, sabe lá com quantos pontos de fuga – ainda que num tempo de poucas revoluções artísticas.

Eu e minha filha deixamos a moldura pendurada numa das árvores lá de fora, depois de rir bastante dos teatros que improvisamos ali dentro. Não olhamos para trás do molde abandonado – dizem que não se pode fazê-lo depois de um trabalho de enterro do passado como aquele distraído que tínhamos feito. E em poucas horas de fato a moldura já não estava mais lá. Subimos para seguir nossa tarde de pinturas. Eu, ainda figurativista mesmo com os anos, tentando me ater à precisão do traço, sem grande sucesso. Minha filha, mais parecida com o avô, liberando as tintas em total desordem, borrando as mãos, espirrando o guache para todos os lados, sem qualquer preocupação com a forma. E eu não a recrimino. Olho para o lado e compreendi que agora tenho uma segunda chance de valorizar algo enquanto está acontecendo. Já que as molduras têm grande dificuldade em comportar o passado.

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