CONTO | O carnaval do rei da ilha

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Por Pedro Carrano
Mate, café e letras

O Rei da Ilha adora o carnaval.

É quando ele veste o manto desfiado, a coroa de papelão e empunha o seu cetro de bambu.

Sobe no alto do maior carro alegórico do pedaço – na verdade um carrinho de carregamento de caixas – e se sente eterno como o glitter que não sai da pele.

Não que ele não possa ser rei noutros momentos.

Aliás, o rei é rei o ano inteiro na Ilha das Peças, berço do seu nascedouro, com a autoridade do passado caiçara e de uma eleição com 208 votos para a câmara de vereadores da cidade de Guaraqueçaba.

Mas é na festa que, como ele diz, pode relembrar seu passado de colonizador europeu, a raiz dos primeiros a desbravar aquela ilha virgem de natureza hostil. Só depois, segundo ele, veio a mistura típica dos caiçaras: negros e índios, nesta ordem.

Mas o Carnaval é o momento para o rei da ilha encarnar o legado do velho continente. Ele ostenta o seu sobrenome hispânico e baila em homenagem aos avós.

Reforça também o seu reinado, ombro a ombro, ao lado do povo.

Só que, sedento de água, o povo anda insatisfeito, com o sal na língua dos que retiram do chão a água salobra, escura, enquanto o rei e vereador jamais encaminhou o projeto da tubulação de água potável.

Nem todos aceitavam os abraços debaixo das asas gordas do rei, e já olham o mau cheiro do rei com desconfiança, suas promessas sem poesia nenhuma, a água comprada do próprio comércio do rei custa R$ 4,25, muito cara, mesmo para uma ilha, pedaço de terra cercado de água por todos os lados.

As costelas daquele povo estavam despontando em meio ao parque nacional, à natureza, à abundância, à região berço de animais raríssimos. E a solução que o rei vem apresentando é uma possível cirurgia para ajustar e cortar algumas costelas do povão.

De repente, escapou na festa do rei um alegre Fora, Temer! por um turista ou talvez um mochileiro descontraído e perdido por aquelas bandas.

O rei se enrijeceu: as coisas podiam sair do controle.

A falta de água recordava também a todos que a barca até a Ilha das Peças é controlada pela família do rei, assim como o restaurante onde pousam helicópteros para o almoço de empresários da capital. “É tudo nosso”, bradou.

Em pleno carnaval, a máscara do rei não conseguia encobrir o que ele se esforçava todo tempo: não era o filho de antigas monarquias ibéricas.

Fora da máscara e do sobrenome, ele sabia no fundo que a sua família era de antigos mercadores de escravos negros, que passavam pela ilha das Peças na época em que o comércio era proibido no porto. Eram os receptadores das peças que os antepassados traficavam.

As peças. Aquelas que o rei sempre fez de tudo para manter ocultas.

 

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