CONTO | Sobre a desocupação e outras grandezas

Compartilhe esta notícia.

Às sete da manhã, antes que a polícia viesse executar o despejo, começamos a desmontar o acampamento da praça, que ficava ao lado da câmara de vereadores, depois de uma semana buzinando e gritando debaixo de névoa e umidade.

Mas nós, trabalhadores do município, gritamos para ouvidos surdos.

Era hora de voltar para casa, desmontar os compensados que já ganhavam fungo, recolher o varal de bandeiras, algumas delas começando a se confundir com o barro pisado naqueles dias.

Todos queriam evitar o encontro com a polícia que prometia às oito da manhã a “reintegração de posse” – palavra formal e desvinculada de como a coisa acontece na prática.

No meio daquela movimentação toda, numa típica manhã de silêncio e céu cromado de azul, frio pra caramba, uma senhora de meia idade se aproximou de Rosana, a liderança do nosso sindicato.

Cansada, Rosana estava encostada num amontoado de concreto e tijolos, quase entregue ao desânimo, tragando um resto de cigarro antes de voltar a carregar mais um compensado.

A senhora que se aproximou trazia rugas aradas no rosto como se um personagem de ficção. Uma certa dispersão no olhar.

Talvez ela fosse uma moradora da praça, que agora voltaria a pertencer ao povo da rua.

Poderia ser também uma senhora camponesa que naqueles dias iria até o Incra conferir o seu título de propriedade da terra. Ou uma trabalhadora do interior perdida nos arredores da rodoferroviária nesses tempos de pouco emprego.

Sem cerimônias, com intimidade, ela pediu um trago do cigarro de Rosana, começou a falar dos filhos perdidos para as drogas – três ou quatro, se bem me lembro -, enquanto Rosana engolia o lamento daquela derrota do sindicato, nos sete dias de ocupação da praça vividos por ela até às vísceras e que agora se desfaziam, algo como os milhos atirados às pombas que se aglomeravam e logo iam embora.

Aquela senhora mastigava as derrotas que o mundo lhe impusera. E a presença dela silenciou todo mundo que estava por ali.

O café sem açúcar começava a esfriar. A senhora ainda reclamou de mais um par de coisas, até que saiu contente depois de uma frase de Rosana, que não era autoajuda ou qualquer coisa do gênero, mas permitiu que aquela senhora saísse com a coluna menos arcada naquela manhã.

– Você sabe que é você é muito grande, né?

A frase foi dita assim, de forma distraída, enquanto a senhora se afastava procurando novos interlocutores para as histórias dos quatro filhos.

– Sim, mas eu estou pensando em desistir, revelou a senhora.

Que viesse a polícia, não encontraria nenhum daqueles nossos resquícios daqueles dias.

Os dias passaram rápido. Não demorou muito, a praça estava ocupada novamente.

No meio do tumulto outra vez, do trânsito de pessoas, de viaturas da polícia, jornalistas e trabalhadores municipais, Rosana e eu chegamos a recordar da velha senhora. A liderança sindical depois me revelou que achava que voltou a ver a velha senhora numa noite daquelas, distraída, no meio de tantos rostos atentos. Andava dormindo pouco, então também não sabia diferenciar se era um sonho ou um delírio.

– “Na verdade, todo o dia agora eu me esforço para manter a sombra daquela senhora afastada de mim”, revelou Rosana.

 

Texto e foto: Pedro Carrano
Mate, café e letras
Terra Sem Males

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *