Cooperativas da Reforma Agrária garantem estruturas coletivas para ações solidárias do MST

Compartilhe esta notícia.

Logística, transporte e beneficiamento são alguns dos importantes papéis das cooperativas nas doações de alimentos feitas por famílias Sem Terra durante a pandemia da covid-19

Por Maiara Rauber e Ednubia Ghisi | Foto: Leandro Molina

Camponeses e camponesas Sem Terra já doaram mais de 2.300 toneladas de alimentos a quem mais precisa desde o início da pandemia da covid-19. Além dos alimentos frescos, colhidos direto das terras conquistadas na luta pela Reforma Agrária, dezenas de itens partilhados são industrializados, frutos das cooperativas do MST.

Com o selo “Produto da Reforma Agrária”, leite, bebida láctea, melado, açúcar, arroz e outros produtos beneficiados e embalados fizeram parte das milhares de cestas entregues no sul do Brasil, que reúne quase 60 cooperativas e mais de 80 agroindústrias: 27 cooperativas e 23 agroindústrias no Rio Grande do Sul; 21 cooperativas e 51 agroindústrias no Paraná; e 9 cooperativas e 4 agroindústrias em Santa Catarina.

Se os assentados e acampados seguem com a produção a todo vapor, o mesmo tem acontecido com as cooperativas, que mantêm os empregos, a geração de renda e fortalecem as ações de solidariedade realizadas pelo MST. “As cooperativas têm um papel central nas doações, elas trazem a marca dos nossos processos de cooperação, e sem esses processos nós não poderíamos disponibilizar produtos em grandes quantidades”, assinala Geronimo da Silva, dirigente estadual do MST, pelo Rio Grande do Sul.

Apesar da estiagem e da falta de apoio do governo do estado aos pequenos produtores rurais, os assentados gaúchos não deixaram de ajudar os mais vulneráveis. Um exemplo é o que assentados e cooperativas da região Norte realizaram durante esses meses de pandemia. Foram doados aproximadamente 6 toneladas de alimentos a famílias carentes. Todos os produtos distribuídos foram arrecadados de famílias assentadas, da Cooperativa Agropecuária e Laticínios Pontão (Cooperlat) e Cooperativa de Produção Agropecuária Cascata (Cooptar), o Instituto Educar.

Segundo Vanderlei de Sousa Oliveira, do setor de comercialização da Cooperlat, foram realizadas doações em três momentos distintos que atenderam mais de 300 famílias. “É uma satisfação para nós que estamos doando e uma alegria para as famílias que estão recebendo esses alimentos. Nosso compromisso é produzir alimentos e poder ajudar quem precisa” declara. Oliveira reforça ainda, que os assentados seguem se organizando para próximas doações. “É a nossa obrigação, atualmente, produzir e doar”, conclui.

O estado doou mais de 150 toneladas e 3.800 litros de leites. Os alimentos da Reforma Agrária da marca Terra Livre também estão chegando a famílias em situação de vulnerabilidade por meio de vendas para doações. Foram entregues 2.212 cestas, num total de 7.350 toneladas.

Outro exemplo do papel das cooperativas nas inúmeras ações solidárias vem do Paraná, da Cooperativa de Comercialização e Reforma Agrária União Camponesa (Copran). Localizada em Arapongas, no assentamento Dorcelina Folador, a Copran tem alcance regional e abrange 28 municípios. A maioria dos 1164 sócios são agricultores e agricultoras da Reforma Agrária da região centro-oeste e norte do estado. No laticínio da Cooperativa são processados 40 mil litros de leite por dia, coletados em 11 assentamentos e algumas comunidades de pequenos agricultores, que levam a marca Campo Vivo.

Dirlete Dellazeri, integrante da coordenação da cooperativa, conta que a logística, o transporte e o beneficiamento é que tornaram possível que milhares de litros de leite pudessem sair das comunidades rurais e chegar a famílias carentes, hospitais e entidades beneficentes.

“O produtor quer participar da doação, mas está longe da cidade […]. A gente colocou nos grupos e o pessoal já foi indicado que poderiam doar 50 litros, 100 litros, mas é um produto que precisa ser pasteurizado, não posso dar in natura pras pessoas. Aí é que a estrutura da cooperativa se mostra tão importante pra nós. É a estrutura coletiva a serviço da emancipação e da solidariedade”, frisa a agricultora.

A primeira grande doação de leite feita pelo conjunto de sócios e sócias da Copran começou no dia 17 de abril, data em que o Massacre de Eldorado dos Carajás completou 24 anos, quando foram arrecadados mais de 5 mil litros. O alimento chegou ao Hospital Universitário (HU) – referência da região no tratamento de pacientes com a covid-19 -, ao Hospital de Câncer de Londrina, o Hospital Regional de Ivaiporã e os bairros de Arapongas.

As imagens dos comboios de caminhões chegando com as doações de alimentos da Reforma Agrária têm chamado a atenção de quem passa na rua ou que vê pelas redes sociais. As ações também emocionam quem participa diretamente: “Nós tivemos o depoimento de um motorista que voltou emocionado de uma das entregas, chorando, porque é uma lição de vida. Além de ser uma esperança necessária, tem o lado do aprendizado, da formação humana”, relata Dirlete Dellazeri. A maioria dos caminhões é conquista das cooperativas e dos cooperados.

“Fazer parte de uma cooperativa do MST e muito gratificante. Por que nos sentimos construtores sujeitos da construção de um projeto de vida coletivo e popular”, finaliza Dirlete. Outras cooperativas e mais de 100 assentamentos e acampamentos do Paraná doaram 248 toneladas de alimentos desde o início da pandemia.

Os assentados também denunciam o pouco auxílio dado pelo governo aos pobres. “O estado precisa pensar em políticas públicas de distribuição de renda para atender quem está na linha da miséria. É dever do governo intervir no quesito distribuição de alimentos”, relata Leodimar Ferreira. E o MST faz um contraponto político ao realizar ações solidárias.

Para Geronimo da Silva, as ações solidárias neste período mostram um caminho para a aliança de classe que o povo brasileiro pode fazer para sair da crise. “O nosso alimento produzido pelos assentamentos e cooperativas vão para as periferias e são entregues de trabalhador para trabalhador. Esse alimento é a chave da unidade entre o campo e cidade”.

Alimentos da Reforma Agrária entregues nas escolas

Os camponeses também buscam garantir a entrega de alimentos às escolas pelo Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). No Paraná, o Programa foi mantido e tem contribuído para garantir alimento para as famílias de crianças matriculadas nas escolas e também o escoamento da produção e a renda para pequenos agricultores: “Foi muito acertado. Ao mesmo tempo, é importante gerar renda para a agricultura familiar e também garantir o alimento saudável para aquelas crianças”, explica Dirlete Dellazeri, da Copran.

A Copran entrega alimentos pelo PNAE a 52 municípios, em mais de 500 escolas, com produtos como iogurte, bebida láctea, hortifruti, leite e produtos panificados. Além das entregas para as escolas, a Cooperativa atende 150 estabelecimentos privados de Londrina e Maringá, com diversos produtos.

“Fomos mantendo as atividades que a gente tinha antes, com os mesmos postos de trabalho, com a mesma produção”, contra a integrante da Copran. A cooperativa tem 100 postos de trabalho, entre permanentes e temporários. As cooperativas da Reforma Agrária atendem cerca de 1.120 escolas estaduais, chegando a um total de 500 mil estudantes, em pelo menos 200 municípios.

Já no Rio Grande do Sul, o governo vem ignorando a importância do Programa e o seu dever de distribuir produtos da agricultura familiar aos estudantes da rede pública. Com a pandemia, muitos contratos com os produtores foram cancelados, reduzindo a renda desses trabalhadores a mais de 50 por cento, segundo Leodimar Ferreira, da coordenação da Frente Estadual de Comercialização do MST/RS.

Eduardo Leite, governador gaúcho, utilizou um recurso de 23 milhões, destinado à aquisição de alimentos para as escolas e investiu todo o valor em um atacado, não cumprindo com o mínimo de 30% da compra, que seria atribuído aos produtos da agricultura familiar. Para Ferreira, disponibilizar o alimento produzido pelas famílias do campo às crianças a partir do PNAE, é defender o acesso ao alimento saudável.

Por meio do PNAE e do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), as comunidades da Reforma Agrária do estado atendiam mais de 600 escolas. A comercialização da produção também acontece por meio de 74 feiras (regiões – Metropolitana, Serrana Missões Fronteira Oeste, Livramento, Centro, São Gabriel, Sul e Campanha).

Em Santa Catarina, 4 cooperativas da Reforma Agrária continuam as entregas de alimentos a escolas durante a pandemia, por meio do Programa.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *