Crônica: A Curitiba que queremos

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Dois assuntos se instalaram diante dos meus olhos nesta semana e se cruzaram no trajeto do transporte coletivo, que eu não utilizava há algum tempo. Vou falar de humanos e de cachorros, então se você for um defensor de animais fervoroso, no sentido de tratá-los como filhos, não me julgue.

Mas me deparei ontem com um belo dum vira-lata (bonito cor caramelo e viçoso de verdade) muito bem instalado no terminal de ônibus Centenário. Achei bem legal, ele dormia numa espécie de beliche, já que sua cama estava separada do chão por um tapume de madeira. Logo acima um colchãozinho, uma coberta, e o cachorro louco de faceiro.

Cães são abrigados nos terminais de ônibus. Foto: Paula Zarth Padilha.

Achei fofo, de verdade. Não tenho cachorros em casa, mas gosto dos bichos, que sejam bem tratados. Pois esse do terminal de ônibus recebe regalias dos passageiros. Nos 10 minutos de espera do ônibus presenciei uma senhora tirar de sua sacola duas vinas recém compradas e deu na boca do cachorro. Em seguida, uma garota brincava com o bichinho como se fosse seu de estimação. Afagou, fez ele pular, quase que vi um abraço. E pensei que nem pulgas ele aparentava ter.

Busquei em sites oficiais se essa caminha estilosa era ação de algum órgão, como a prefeitura, por exemplo, ou se seria mera solidariedade de passageiros ou funcionários do transporte coletivo. Obtive poucas referências ligadas a cães de terminais, como uma parceria entre a UFPR e a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, mas especificamente para cuidados de boa saúde, nada oficial sobre as caminhas.

Mas a verdade, independente de onde surgiu a ideia, é que esses cãezinhos estão com seu direito de permanecer onde querem (no terminal) garantidos. Ali eles têm teto, carinho, comida e abrigo da chuva.

Pois no dia seguinte constatei uma situação oposta.

Em Curitiba era constante a presença de andarilhos, moradores de rua e quem mais se sentisse à vontade para tanto, embaixo do Viaduto do Capanema. Aquele viaduto colorido próximo à rodoviária, que tinha um restaurante popular, da prefeitura, há alguns anos. E quando vi imensas floreiras no local, que inviabilizam a presença dessas pessoas por lá, fiquei um pouco chocada.

Eu não acho legal pessoas viverem assim, entendo o discurso da preocupação com a segurança. Mas logo adiante, em marquises de comércios próximos da rodoviária, ali estavam os moradores de rua deitados, instalados, dormindo.

Não quero aqui fazer juízo de valor. Mas uma notícia da Prefeitura de Curitiba, de janeiro desse ano, sobre a implantação das floreiras, divulgava isso:

Após a transferência de famílias indígenas que estavam abrigadas sob o viaduto, a Prefeitura colocou as floreiras para ocupar o espaço (que gera perigo, como de atropelamento para quem fica no local) e também serviu para humanizar o espaço, evitando a permanência de usuários de droga e pessoas em situação de rua no local.

A humanização do espaço tirando “usuários de droga e pessoas em situação de rua no local” e inserindo floreiras. Imensas floreiras.

Não sei o que vocês pensam, mas para mim, o único espaço humanizado nestas duas situações é o destinado aos cães.

 

Viaduto humanizado. Foto: Jaelson Lucas/SMCS.

Por Paula Zarth Padilha
Terra Sem Males

One thought on “Crônica: A Curitiba que queremos

  • 21 de julho de 2015 em 20:14
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    Concordo sim, que os cães estão melhores instalados e sei que não foi por nenhum órgão não e sim por iniciativa dos moradores e com apoio dos funcionários do terminal. Já o caso do indígenas, foi mais uma medida pra inglês ver mesmo, na minha opinião, alguns foram para albergues, mas não tendo vaga, tiveram que se espalhar e ainda os poucos que conseguiram, não se adaptando com as regras e horários, estão na marquises mesmo, inclusive da praça Rui Barbosa… Bom, dos cães é mais fácil de cuidar e mesmo, eles não tem nenhum progenitor para protegê-los… 🙁

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