Crônica: Danem-se os professores

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Danem-se os professores e sua pauta. Estou nem aí para o reajuste salarial dos servidores estaduais abaixo da inflação. Eu quero é saber do meu. Não tenho filho em escola pública. Não utilizo hospital público. No meu bairro não tem bandido e eu ainda pago segurança privada. Danem-se os professores e se levaram bombas, se os estudantes levaram tiros de borracha, gás de pimenta, se legalizaram o assalto à Previdência. Nada disso me diz respeito. Por isso, eles não têm meu apoio. Nem meu repúdio. O que importa é o meu.

E no meu também tá foda. Não está fácil ser “cidadão de bem” em nosso estado. Não bater umas panelas, sair de peito aberto e levar umas borrachadas. Tu nem pegas o carro e já é lembrado que subiu o preço da gasolina, que 32% desse valor é de ICMS. E antes mesmo de girar a chave, pisca no seu painel que o IPVA subiu 40% para cobrir os rombos feitos pelo governo do estado. Nem saiu de casa e já desiste de ir ao supermercado, pois lá também houve reajuste de impostos estaduais no feijão e arroz. É por isso que tô nem aí para os professores. E se no meu está complicado, imagine para quem vive de turismo no Paraná, quando vê a Secretária do Turismo sendo fechada para cortar despesas, quando percebe a diminuição do fluxo de turistas por causa do pedágio mais caro do país. Esses comerciantes, microempresários, devem dar saltinhos emputecidos.

Mas danem-se os comerciantes do litoral ou de qualquer canto. Eu quero saber do meu. E no meu ainda tá ruim. Porque subiram as taxas no Detran, mas o trânsito não diminuiu. Subiu a conta de luz em 36%, mesmo eu economizando. Subiu a conta de água em quase 13%, mas o meu consumo, não. E também subiu o salário do governador para R$ 33 mil, dos comissionados, de seus secretários, o lucro dos acionistas, a inflação, mas o meu poder de compra, não. Danem-se as contas.

Danem-se o povo, pois eu quero saber do meu. E no meu ainda não entrou nenhum esqueminha. Só meu ordenado. Enquanto isso, os engravatados do TJ, TCE, do MP recebem quatro paus de auxílio moradia e eu não tenho dinheiro nem pra pagar a prestação do Minha Casa, Minha Vida. Os ex-governadores e muitas senhoras ganham uma cacetada de dinheiro sem representar ninguém. E o Justus, que tinha uma porrada de funcionários fantasmas, segue sendo deputado. E na Receita Estadual descobrem pagamento de propina. Puto vida, como isso indigna. Eu ali, pagando imposto direitinho, retido na fonte, e os camaradas sonegando, subornando, desviando, pagando campanha política, só vivendo na boquinha.

Danem-se os servidores e suas reivindicações. Danem-se se não tem política cultural, se a TV Pública é sucateada, se jornalista é ameaçado, se empregos não são gerados, se as viaturas não têm gasolina, se os credores estão sendo pagos com o dinheiro dos servidores, se mais uma porrada de coisa.

Danem-se vocês, pois eu também estou ferrado.

Por Manoel Ramires
Terra Sem Males / Crônicas Curitibanas 

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