CRÔNICA DE PÁSCOA: SONHO

Compartilhe esta notícia.

Por Manolo Ramires
Terra Sem Males

Qual é o sonho?

Sexta-feira, começo de noite. Minha tranquilidade burguesa é interrompida por palmas batidas para o lado de fora do portão. Puxo de canto a cortina. Minha esposa pergunta “quem é”. Digo que não sei. Do lado de lá, reconheço a figura que está próxima ao portão.

– Boa, noite. Feliz pascoa, senhor – saúda, tentando quebrar a desconfiança.

Minha esposa tenta interromper meus movimentos. Em vão. Ela sabe que sempre abro a porta e olho no olho de quem está do outro lado para saber quais são os seus motivos. É tolice essa minha ação de confiar sempre no próximo, contido, vou com certeza de que nunca devo negar ao chamado da porta, principalmente quando quem está do outro lado é alguém de aparência humildade.

– Fique tranquila – digo a minha esposa e saio.

Sorridente, o jovem pergunta se o reconheço, me estica uma sacola de doces e fala ansiosamente.

– Minha mãe pediu para que viesse agradecer pelo outro dia que o senhor me ajudou. Agora, eu fui aceito no Exército e vou servir em Tijucas do Sul.

Com semblante sério, o parabenizei e aceitei o presente enquanto ele continuava a falar.

– O senhor não pode me dar uma ajuda com a passagem? É que eu moro longe e não tenho como pagar – explicou-se sem muita confiança.

Percebi que o menino teria trocado o pouco dinheiro que tinha para comprar umas três caixas de bombons sortidos e, dessa forma, transformar em sustento, seja para pagar a passagem até o Exército, seja para fazer outra coisa. Da minha parte, mesmo que não tivesse aberto a conversa com a ‘propina’ achocolatada, iria dar dinheiro. Um real, cinco, dez, vinte, cinqüenta. Nunca me importei muito com o valor. Apena saco da carteira e dou. E tenho mais prazer em dar para bêbados em semáforos quando esses justificam de pronto que é para sustentar o vício. Muito melhor, julgo, do que essas propagandas que vendem gato por lebre e que compramos com sorriso na boca e prestações no bolso. Nesta perspectiva, pedi que esperasse e voltei para dentro de casa.

– Tem dinheiro – perguntei solicitando.
– Quem é? – ela insistiu.
– Um menino que ajudei, me dá o dinheiro.

Minha esposa pediu que pegasse sua bolsa e repassou vinte reais. Agradeci e regressei ao lado de fora. Entreguei a grana ao menino que sorria e dei boa sorte a ele no Exército, já que esse era seu sonho de mudar de vida. Enquanto ele se afastava, reparei que utilizava o tênis que havia lhe dado no nosso primeiro encontro. Já dentro de casa, expliquei sobre o personagem.

– Eu ajudei esse menino em um dia de chuva – encerrei a conversa e voltei para minha tranquilidade burguesa.

De fato, havia o ajudado. Mas não de forma tão seca. O guri apareceu em minha porta em um dia intenso de chuva. Estava todo ensopado e tremendo. Pediu-me comida. Separei algumas frutas e arroz e o informei que não podia dar mais porque comemos sempre fora de casa. Ele entendeu e pediu uma roupa. Sem saída, busquei duas camisetas, um agasalho e o tênis que ele vestia no nosso segundo encontro. Embrulhei tudo numa sacola e pedi que saísse da chuva. Agradecido, me disse que ia esperar a tormenta passar em um posto de gasolina próximo.

O caso banal desse menino mexeu comigo. Mexeu a preocupação de me procurar novamente e informar que ia para o Exército. Disse-me isso com orgulho, como quem realiza um sonho. E é isso que me chama a atenção.

Sonho. Quais são os sonhos deste país? Parece que vivemos uma estação de pesadelos em que o desejo, essa entidade individualizada, se sobrepõe ao interesse coletivo.

Sonho. Voltei a me deparar com ele enquanto assistia um documentário sobre Ziggy Marley. Ele tinha ido à África do Sul em 2010, em plena Copa do Mundo, andando o país de moto, para realizar um sonho de seu pai. A Ziggy bastava fazer um show gratuito no bairro de Soweto, local que iniciou em 1976, se não me engano, um grande levante pelo fim do apartheid que levou 700 jovens à morte, ao fim de um sonho. E Ziggy, singelo e sorridente, com a humildade do Reggae, da música que permite sonhos, percorria a mãe África falando de Gandhi, de Martin Luther King e, é claro, de Mandela. Despertou interesse uma definição: as revoluções e os sonhos nascem do povo, não dos desejos da elite.

Desejo. É esse sentimento que tem tomado conta do país. Unificando uns, dividindo outros. E o desejo tem essa força de saciar as utopias. Ele não se propõe a construir, mas a retirar. O desejo quer mais. O sonho, busca erradicar a pobreza. O desejo se diferencia pela formação, pelo mérito. Ao sonho basta retirar o povo do analfabetismo. E, curiosamente, em tempo de vacas magras, tem sido o desejo de eliminar o outro mais forte do que o sonho de compartilhar o pão.

Neste domingo de Páscoa, me pergunto: qual é o sonho do meu povo, da minha nação? O que faz com que ele olhe o horizonte e arrepie sua pele, molhe sua alma? Sonha o brasileiro que nenhum brasileiro pequeno venha a morrer de bala perdida, que possa completar 18 anos para servir o Exército? Sonha o brasileiro que aos 18 anos poderá pedir baixa do Exército porque entrou na faculdade ou no ensino técnico? Sonha o brasileiro, acomodado em seu pequeno mundo burguês, que outro brasileiro tenha água para o banho, tenha luz para o estudo, tenha refeição sem agrotóxicos?

É preciso voltar a sonhar para que o Sonho possa desejar ao menino que vai servir o Exército que ele aprenda, antes de tudo, que a nobreza está em servir o povo que nada mais é do que servir a si próprio.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *