Crônica de uma tarde livre

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Fazia sol como ele nunca tinha reparado. Ou ao menos há muito, muito tempo não prestava atenção naquela atmosfera boa de inverno.

A sala no subsolo onde trabalhava tinha janelas pequenas, distantes do chão e beirando o teto.

Mas aquela luz, no meio da tarde, invadia o ônibus por inteiro e causava calor.

Ele contemplava o pouco trânsito daquela hora, chegou a descer no seu ponto e provar uma leveza, um gelo na espinha próprio de um equilibrista que dá um passo no vazio, no trapézio do circo.

Lembranças dispersas até a chegada na esquina de casa, o trânsito baixo de pessoas do bairro, os mais velhos tomando conta de seus jardins, suas hortas, sua sobrevivência. Conhecia este movimento apenas aos domingos. Que dia era? Quinta-feira? Segunda-feira ao sol? A luz na cara dele, cara branca repleta de olheiras.

Os abraços das crianças, filhos de pais como ele, pais noturnos, soturnos, pais tatus o dia inteiro cavoucados debaixo do subsolo, e pisando agora no estranho território da tarde livre.

Bicicletas loucas e soltas, nenhum contato com o noticiário da rádio, agora ele apenas perto de casa e o bar do Jamil no meio do caminho.

Curtiu com os amigos, ganhou uma cerveja na faixa, respirou aquele final de tarde azul até não sobrar no horizonte um único tom de vermelho.

Respirou mais fundo. Sentiu medo. Entrando em casa será que alguém perguntaria sobre as demissões lá na empresa?

Por Pedro Carrano
Mate, café e letras
Terra Sem Males

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