Crônica: domingo eu não fui. Amanhã eu estarei lá.

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Ali onde pede “menos populismo”, eu não vou. Foto: Rodrigo Félix Leal.

Como tive muitos embates facebookianos de cortar na própria carne na manifestação de 15 de março, nesta última de 12 de abril curti meu final de semana como se não houvesse amanhã e quase sem lembrar de redes sociais e do protesto que – depois vi – pedia, entre outras coisas o “menos populismo” e tinha motes como “reforma política é o caralho”. Curitibanices. Mas nesta terça-feira sofri um olhar de repreensão que depois me doeu.

Surgiu um espaço na agenda, resolvi ir no “salão” que frequento, quando frequento, para ajeitar as unhas das mãos, o que quase sempre resolvo em casa. Ocorre que, como na sequencia iria cumprir minha jornada de trabalho, fui com uma camisa vermelha, do Sindicato dos Bancários, que contém a logo da CUT.

A manicure finalizou o serviço, mirou bem no desenho da minha camisa e tascou: “Você não é petista né? Onde você trabalha? O que você faz?”. Parece meio acelerado agora, mas ela falava calmamente, assim como sua aparência serena. Uma senhorinha, não perguntei a idade, mas aparenta entre 50 e 60 anos. Na hora só pensei “Não vou argumentar”. Mas ela me convenceu.

Resolvi ficar mais meia hora. Carmem contou que seu pai era militar, que a família é de classe média, que morou 20 anos na Argentina, foi para o país vizinho estudar medicina. “Quando você voltou de lá?”. Há cinco anos. “Então não acompanhou o governo Lula?”. Acompanhei. Eu nasci dentro do PT. Eu sou de São Bernardo do Campo. Quando o Lula ia para a Argentina, eu estava lá. Ela também contou que cursou somente dois anos de faculdade e passou o resto do tempo trabalhando em salão de beleza.

Com o desenrolar do que ela me falava, eu ia perdendo o rebolado. Eu não acredito no que ela está pensando, eu não tenho esse pessimismo, eu busco sempre mais. Expliquei o meu ponto de vista, que essas manifestações eram promovidas pela classe média alta que não estava conformada com a falta de mão de obra informal e barata no país (grosso modo).

Daí ela disse: eu to vendo o Brasil virar o mesmo abismo que caiu a Argentina. Eu pagava R$ 12 na conta de luz, subiu para R$ 40. Expliquei que neste caso, parte substancial do reajuste era do governo estadual. “Mas e quem manda na casa?”, ela me disse, insinuando que se quem está abaixo está fazendo merda, quem está acima tem que interferir.

Eu perguntei, mas o que te incomoda? “A corrupção, a roubalheira”. Argumentei que esse é um problema crônico e que a defesa do governo federal é que só agora existe investigação e que temos que aguardar as provas e a punição. E mais uma vez ela me olhou com pena.

Hoje aprendi que mesmo que eu tenha minhas convicções, que eu tente argumentar, seja com quem quer que você converse, nunca terá fim. Essa senhora tem uma bagagem e uma história de vida que tudo deveria ter sido diferente. Pois em Curitiba, ela tem o que podemos chamar de subemprego. Ela trabalha num salão, sem carteira assinada, não tem benefícios (vale transporte, vale refeição, vale mercado), tem jornadas longas, porque quanto mais trabalhar mais vai ganhar, não tem vínculo com seu emprego.

Eu agradeci pela conversa, me despedi porque tinha que cumprir horário, ela me disse “Espero que quando você voltar, eu pegue na sua mão para te cumprimentar e te diga: você tinha razão”.

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Nesta quarta-feira, 15 de abril, as centrais sindicais estão unidas no Dia Nacional de Paralisação. Carmem é uma terceirizada. É nessa situação de trabalho que irá vigorar a prestação de serviços com carteira assinada, nos moldes do projeto de lei que tramita no Congresso. Ela não terá sua vida modificada para melhor. Mas a vida de muito trabalhador será alterada para pior. Em Curitiba, a concentração é às 11h30, na Praça Santos Andrade. E eu estarei lá.

Por Paula Padilha
Terra Sem Males

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