CRÔNICA I: De quando eu desliguei a chave do trator

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Hoje eu resolvi falar com vocês depois de tantos anos.

Eu já sei que ninguém vai se recordar mais e que os ditos quinze minutinhos de fama já foram também ignorados faz tempo. Não tem problema não.

Sim, sou eu mesmo, muito prazer, aquele tratorista que se recusou a passar com a máquina por cima dos barracos de umas dez famílias invadindo um terreno particular, ou ocupando, como vocês queiram chamar.

Começo dos anos 2000, ocupações bombando no campo, na cidade, e o meu gesto trouxe um monte de confusão para essa tal de opinião pública.

O Jornal Nacional deu destaque para a minha empatia, quando eu chorei do alto daquele tratorzão, desci e abracei o dono de uma das casas. Eu me emocionei sim. Eu não deixei aquilo continuar não. De jeito nenhum. Eu fiquei abraçado na frente da boca da máquina com aquela família e aquela imagem correu o mundo. O oficial de justiça me ameaçou e eu fui preso por não cumprir ordem judicial. Virei símbolo de alguma coisa, eu acho, pelo menos era o que diziam os que me reconheciam nas ruas. Diziam que a necessidade humana está acima de tudo.

Só que, na sequência, tudo mudou. Os tais dos analistas dos jornais pensaram melhor e viram que o que eu fiz podia ser exemplo de alguma coisa que incomodava muito.

E passaram a dizer que o meu gesto parecia bonito, mas, na verdade, eu atropelei o direito à propriedade que está expresso na Constituição – e o que eu fiz dava margem para outras pessoas atropelarem a letra da lei. Foi isso o que eu escutei do analista da rádio. O despejo tinha que ter sido executado, e ponto final. Eu, incompetente que sou, não cumpri o meu trabalho.

Tudo bem. Vida que seguiu. Não guardei mágoas. Eu. O cara do trator. O cara que não derrubou o barraco. O cara que chorou. Óbvio que a empresa terceirizada da prefeitura me fodeu e me mandou pra rua, você acha o quê.

Agora eu estou aqui, querendo lançar o meu protesto. Olhando a mesma turma que disse que eu prejudicava a Constituição. Mas agora são os mesmos que dizem que tudo bem o Trump matar o general de outro país só da ideia da cabeça dele. Que o Lula devia ter continuado preso sem poder recorrer. Que o Moro fez certo em se articular com o Dallagnol e tratorar, opa, esse tal devido processo legal. Que tudo bem tirar na porrada aquele presidente índio dos bolivianos. Os mesmos que agora querem despejar tantas famílias camponesas, só aqui no Paraná já foram nove despejos forçados. Quais privilégios eles querem manter, afinal?

Mas o acusado de atropelar a Constituição fui eu. Justamente o cara que, olhando no fundo do olhinho daquela família trabalhadora, há uns anos, justamente eu que desliguei a chave do trator.

Texto e foto por Pedro Carrano, jornalista, poeta e escritor

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