CRÔNICA: LUZ NO ASFALTO, CALOR HUMANO NA FAVELA

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Na noite de 21 de novembro, sábado, a favela Santa Marta, mais íngreme do Rio de Janeiro, no alto de seus 788 degraus do chão ao topo, estava no escuro. Numa escuridão iluminada. Por um faixo de luz que dividia o lugar. E por todas as luzes refletidas do asfalto. Na gíria, pelas casas que não estão na favela.

O bar do Zé Baixinho recebeu a visita de uns 30 ou 40 comunicadores populares de todos os cantos do Brasil, inclusive Joka e eu, à luz de velas, som ambiente de voz, violão e batuque, comida caseira (caldo verde e baião de dois). Mas a cerveja era quente. Aquele lado do morro estava sem luz desde 10 horas da manhã. Levados por Repper Fiel, militante e comunicador ligado ao Núcleo Piratininga de Comunicação, nosso tour pelo morro foi retomado às 22 horas. Ainda no escuro.

Subimos e descemos becos e escadarias por uma escuridão rodeada de vida. A vida dos moradores. Que ou gritavam “é bom para verem o que a gente passa”, ou estavam ali fazendo a festa, curtindo a noite de sábado. Também ouvi alguém comentar “descobriram que 30 jornalistas de esquerda viriam aqui e nos deixaram sem luz”. Pode ser.

Passamos por umas quatro ou cinco festinhas familiares na favela, seja churrascos sob velas ou mesmo bailes animadíssimos com luzes coloridas na outra metade do morro que não teve o corte de energia. Já estive no Santa Marta em 2011, também acompanhando os jornalistas de esquerda do Fiell. E a vontade de repetir essa experiência me vez voltar, em insistir no tour noturno, mesmo na escuridão, na expectativa de rever aquela realidade de novo. E aquele mirante.

Não chegamos ao mirante, mas a vista estava bonita. A vista é bonita. Talvez o melhor dos privilégios de quem mora ali. Localizada em Botafogo, diz Fiell que a especulação imobiliária após a “pacificação” aumentou os custos de vida na favela Santa Marta, tanto o valor cobrado pela energia elétrica, quando os valores dos alugueis. E que muitos ex-moradores foram procurar lugares mais distantes e mais baratos para viver. E em troca da vista privilegiada, diz ele, muita gente que vai de mudança para o Rio de Janeiro procura um lar no Santa Marta.

Eu só procurei rever. E quatro anos não mudaram nada. A contradição ainda é a mesma. Os mesmos degraus. A mesma vista. Ali, o Rio de Janeiro para turista ver se confunde no lar doce lar de quem sobrevive a uma realidade tão diferente. E que só seus próprios olhos podem te contar. Não é ruim. Só é diferente. E sem privilégios.

Por Paula Zarth Padilha
Terra Sem Males

* Os editores do Terra Sem Males Joka Madruga e Paula Zarth Padilha estiveram no Rio de Janeiro entre os dias 18 e 22 de novembro para participar do 21º Curso Anual do Núcleo Piratininga de Comunicação, que reuniu mais de 200 pessoas entre comunicadores populares e dirigentes sindicais de diversas categorias. A visita ao Santa Marta é parte da programação noturna extra-oficial do evento. 

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