Crônica | Nova sombra de reis barbudos

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por Pedro Carrano

Nossos limites.

Nesses dias, o que a gente vê, da esquadria da janela até onde a vista alcança, com certa ansiedade, felino percorrendo em círculos velozes a cela de um zoológico, o Largo da Ordem e a sua subida vazia, ou quase, na verdade cadeiras e caminhantes pelo caminho.

Botecos agredindo a nossa disciplina de ferro e fazendo um elogio ao desleixo e falta de cuidado que vivemos. A aglomeração de vidas na praça, os gritos da madrugada. Ainda não somos um país, só a permissão da memória das lesmas e dos ratos da tortura, pontes queimadas, capacitações e avanços possíveis de uma geração, obsolescência programa de vidas. Deixam o avanço para um futuro não permitido.

Vemos o sol relando os esquadros e as batentes, e mendigamos migalhas de luz como pombas na praça em busca de alimentos. Vemos a poesia de autoras: Silvia Plath, Andréia Carvalho Gavita, Conceição Lima, tentando preencher tantas costuras caseiras mal feitas do sentir.

Esgotamos todas as brincadeiras possíveis com minha filha, do esconde-esconde noturno, jogo de detetive, jogo da memória, xadrez, stop!, leitura de bruxos mágicos, desenhos em cartolina com as cores fortes da tinta guache, pesquisas de todos os assuntos do mundo na rede, alongamentos, invenções, Ursos sem Curso. Tentamos deixar um saldo de memória-força desses dias. Não há revolução possível sem um saldo de memória e ruptura.

Vemos pescadores venezuelanos amarrando com fim de náilon a mão de mercenários golpistas, em uma nova resistência na Baía dos Porcos agora no Caribe. Vemos as danças desse povo de Bacurau, pescadores nos mostrando os caminhos de mar.

Vemos cartas de suicidas. Vemos pais de amigos se despedindo, vemos as canções de uma geração se encerrando como o gorgeio de um pássaro antigo. Pássaros não se adequam a janelas. Nós não somos para isso, mas fazemos o que nos é possível na generosidade de nossos braços-asa que buscam ajudar outros.

A disciplina solidária do cárcere e suas lições sem crime e sem castigo.

Vemos a pergunta constante se o inverno está chegando, como ameaça sorrateira, diária, anunciando destapar o alçapão da pior memória. Vemos a sombra de reis barbudos e o Medíocre anunciando a futura ditadura, o futuro silêncio, o futuro estupor, protegido pelos intelectuais da miséria e do fanatismo, vendilhões de um templo barato. Armas de memes e fake news como distribuição gratuita de munição aos estúpidos e covardes.

Vemos o sol ainda nessa manhã fria sob ameaça torturante do autoritarismo.

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