CRÔNICA: TRÂNSITO NUNCA VISTO ANTES

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Você acha que trânsito é movimento. Não, o conceito não é esse. Trânsito é tudo o que acontece entre veículos e pessoas nas vias públicas. Em movimento ou parado. Liga a televisão, desliga a televisão. Fila para passar a digital. Na entrada e na saída. No horário pré determinado. É seu horário de expediente? Se vira. E tem que assinar uma lista de presença duas vezes por dia também. Foi assim que passei sete dias no período de duas semanas para cumprir a parte dois da minha punição: habilitação suspensa por um mês e comparecimento a um curso de reciclagem no Detran.

Liga a televisão, desliga a televisão. Entre um comentário infame e outro, o instrutor ligava e desligava aquela TV smart que, ao invés de se conectar à internet para cumprir seu objetivo de fábrica, servia para visualização de arquivos word em forma de termos importantes. VIAS PÚBLICAS. PESSOAS. VEÍCULOS. Nos intervalos, assistimos desenhos do Pateta senhor volante, senhor andante.

O curso até que deu pra encarar. Mas senti aquele clima de “você está sendo punido, não estamos nem aí se você está aprendendo alguma coisa”. Numa turma com 33 pessoas, cinco mulheres. E para ironia geral da nação, as piadinhas eram do tipo:

  • tinha que ser mulher
  • é carro de mulher
  • deve ser mulher
  • é coisa de mulher

As avaliações eram feitas em trio, ao final de cada módulo. Os módulos seguem as aulas para a primeira habilitação: legislação, direção defensiva, primeiros socorros e algo do tipo “cidadania”. As aulas tinham muitas intervenções dos “alunos”. A turma era formada metade por jovens, metade por pessoas que tiraram a carteira de motorista antes da lei de 1998, que estabeleceu a obrigatoriedade da auto escola. Nos intervalos das frases machistas, eu dei muita risada.

Não havia compreensão nenhuma do que fazíamos ali. Não havia o sentimento de cobrança, nem de que alguém ali estava certo ou errado. Nossa culpa: 20 pontos na carteira, alguns por descuido em situações burocráticas, outros por abusos ao volante mesmo.

De acordo com dados do próprio Detran Paraná, é um número mínimo de motoristas habilitados que chega nessa fase de ser obrigado a frequentar curso de reciclagem porque está com a carteira suspensa. Somos mais de 5 milhões de habilitados, somente 85,8 mil suspensos (referência março de 2015). Dos suspensos, 22,62% são mulheres, 77,38% são homens.

Mas o dado estatístico que mais me impressionou foi sobre mortes no trânsito. Pois todos os dias a gente vê que morrem pessoas em Curitiba. Atropeladas ou dentro de carros. E de acordo com a Organização Mundial de Saúde, o perigo representado por veículos tolerável é de 3 mortes para cada 10 mil veículos. Em Curitiba, o índice é de 0,57 mortes para cada 10 mil veículos. “Risco aceitável”. E morte no trânsito significa tão somente a morte no local do acidente. Quando a pessoa chega a ser colocada numa ambulância, se for a óbito, muda a descrição na planilha.

Passei um mês todo agoniada, tentando me virar de alguma forma sem habilitação. Passei duas semanas de rotina alterada, sendo ausente na vida da minha filha e do meu namorado, para trabalhar e cumprir reciclagem nesse período determinado, saindo cedo, voltando tarde. Meu prêmio: ter minha habilitação novamente como meu documento de identificação.

Eu não queria escrever, eu não queria expor, eu não falava para conhecidos que isso estava acontecendo comigo. Daí você chega numa sala com mais de 30 pessoas, onde todas elas têm essa mesma vergonha que você e dá nisso: avaliação em forma de palavra cruzada coquetel. Porque talvez eles nem queiram saber se você está apto para dirigir. Talvez eles só queiram que você se arrependa amargamente de passar por isso.

 

Por Paula Zarth Padilha
Pareço legal, mas eu estava com mais de 20 pontos na carteira.
Terra Sem Males

One thought on “CRÔNICA: TRÂNSITO NUNCA VISTO ANTES

  • 25 de junho de 2018 em 23:52
    Permalink

    De acordo com o exposto no texto, é correto afirmar que a autora

    a) Sentiu a seriedade e responsabilidade por parte do curso de reciclagem para torna-la novamente apta para dirigir

    b)Menciona a discrepância do numero de alunos masculinos e feminino, bem como a diferença na estatística de homens e mulheres suspensos, para corroborar com as piadas machistas

    c)Acredita que, para a autoescola, importa menos garantir que o aluno esteja apto para dirigir do que fazer-lo se arrepender por esta ali.

    d)impressiona-se com o numero de infratores suspensos em relação ao numero de motoristas habilitados.

    qual seria a resposta certa

    Resposta

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