Cultue a cultura

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Por Manolo Ramires*
Terra Sem Males

1 – Às vezes eu paro e fico chocado e penso como explicar no futuro que a coloração partidária ou ideológica se sobrepôs a ética e valores. Vivemos tempos em que as pessoas incentivam agressões contra professores e estudantes, não se escandalizam com roubo da merenda e ainda comemoram fim do Ministério da Cultura.

2 – Se fôssemos sérios e cultos, e nem falo de povo, jamais poderíamos admitir o fim do Minc. A saída erudita seria avaliar o que tem de errado, corrigir, aperfeiçoar e, dessa maneira, provar que a sua outrora condução era equivocada. Eu tenho críticas, por exemplo, a Lei Rouanet patrocinando eventos e empreitadas artísticas que poderiam buscar recursos na iniciativa privada. Mas tenho elogios a iniciativas como o “Emergências”, que rolou no Rio de Janeiro durante sete dias com 620 convidados, 300 atividades, 80 rodas de conversa e público de 10 mil pessoas.

3 – Portanto, a saída não é fechar as cortinas. A medida é construir o espetáculo enquanto ele rola. Esse, por exemplo, tem sido o processo adotado pelo Ministério da Economia. Ou seja, se avaliam os erros e vícios e se propõem novos marcos de atuação. O mesmo vale para a política externa, em que o ministro reposiciona, de acordo com os seus valores, o papel estratégico do Brasil na América do Sul, em relação aos BRICs, Europa e EUA. Deixamos de ser pit bull para voltarmos a ser vira-latas.

4 – Para ambos ministérios, contudo, não vi ninguém defendendo sua falência como forma de arrumar a casa. Mas por que o mesmo tratamento não vale para a Cultura e Meio Ambiente? Por que não construir um novo pacto nacional com interpretação própria do que é cultura e o que o Estado deve promover? Para isso é necessário investimento, ousadia, não cortes e melindres.

5 – O fim do Minc ainda expõe a incapacidade dos novos gestores em trabalhar a indústria cultural e a cultura imaterial. Ora, quem não vai à França para visitar museus? Isso depende de uma política cultural. Quem não conhece os escritores e compositores alemães? Eles são rebentos de gerações valorizando a cultura. E mesmo aqui do lado, com a Argentina e Uruguai. O que seriam desses povos se só sua elite viajada tivesse acesso à cultura? Enquanto isso, gente pede o fim de um poderoso ministério na geração de empregos, que em 2013 levou 13,6 milhões de expectadores em seis meses e que cresceu seu faturamento em 90%.

6 – Por fim, para meu espanto, sou capaz de afirmar que o Ministério dos Esportes só não foi extinto porque estamos em ciclo olímpico dentro de casa. Mas deixe setembro chegar.

*Manolo Ramires é jornalista do Sindicato dos Servidores Municipais de Curitiba e diretor Sindicato dos Jornalistas do Paraná.

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