Deu pra ti, Renan

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Presidente do Senado  foi pego de surpresa com liminar que o retira da presidência. Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil

Por Manoel Ramires
Terra Sem Males

O afastamento do presidente do Senado Renan Calheiros (PMDB/AL) é má notícia para toda classe política. Além de intensificar o choque entre a política e a justiça, deixa muita gente refém dos seus próprios discursos. Parece que a sangria pode não estancar. A hemorragia em que o país foi enfiado deve ainda derrubar muita gente. Aliás, é sempre bom destacar: nos seis meses de Temer se foram seis ministros e dois presidentes. Efeito de um governo em colapso após o golpe que a classe política, o mercado e a grande mídia não vão admitir até passarem todas as reformas liberais como a PEC do Fim do Mundo e da Previdência.

O afastamento de Renan é de uma inoportuna oportunidade. O senador tem 12 processos nas costas, mas só agora está tendo revés em sua vida política e por um caso de nove anos. Trata-se do pagamento da pensão alimentícia de uma ex-amante por empresas. Aliás, caso bem parecido com o que fez Fernando Henrique Cardoso. Fecha aspas. O ministro do STF, Marco Aurélio Mello, pode alegar que foi provocado por um partido, a REDE, a avaliar a linha sucessória presidencial após Renan se tornar réu. Não estará mentindo. O curioso é que outras tentativas de afastamento ou de parar o golpe não foram acolhidas. Aí mora a pulga atrás da orelha. Outra coceira diz respeito “as ruas” pedirem o afastamento do político. Mas as ruas têm pedido muito coisa. Uma delas é a paralisação da PEC 55. Contudo, alguns clamores parecem não chegar aos ouvidos de vossas excelências. De fato, a saída de Renan é mais uma “vitória” dos conhecidos verdes-amarelos.

Marco Aurélio enquadrou Toffoli

A decisão de Marco Aurélio Melo não é a primeira nesse sentido. A diferença é que Dias Toffoli vacilou. Há poucos meses, Marco Aurélio Mello, também provocado pela Rede, ia afastar Eduardo Cunha da presidência da Câmara dos Deputados. Naquela ocasião, o ministro Teori Zavaski, que estava sentado sobre um pedido, foi “mais rápido” e enfim colocou a solicitação a votação. Cunha foi afastado e Mello não foi protagonista da liminar.

Agora, Toffoli fazia algo semelhante. Ele se sentou em cima de uma decisão que desfavorecia Renan Calheiros. Só que cochilou e Mello tomou decisão monocrática com apoio popular. Com isso, Toffoli ficou mal na fita. Mesmo que o pleno do STF casse a decisão de Mello na terça-feira, Toffoli não terá condições de continuar protelando seu voto. Por outro lado, se o STF mantiver a decisão de Renan afastado, de nada adiantará a Toffoli ter pedido vistas. Ele ficará completamente isolado na corte.

Fritando Renan

O presidente não eleito Michel Temer havia dado a senha para jogar Calheiros aos leões. No domingo, ele afirma ter conversado com a “amiga” e presidente do STF, Carmen Lúcia. Disse a colega que era contra o projeto de abuso de autoridade e investigação sobre salários do judiciário acima do teto constitucional. O juiz Sérgio Moro, por exemplo, recebeu R$ 651 mil reais em 2015, média mensal de 54 mil. Já  o procurador Deltan Dallagnol, chefe da força-tarefa da Operação Lava Jato, recebeu 86.850,59 reais em abril de 2016. Menos de 24 horas depois da conversa entre os presidentes, Renan foi defenestrado.

Base sólida

A saída do alagoano da presidência do Senado preocupa mais os governistas por causa da votação da PEC do Fim do Mundo. Em seu lugar, assume o vice Jorge Vianna (PT-AC). Rapidamente, articulistas, jornalistas e políticos dizem que nada interfere na votação. “Renan é apenas mais um”. Há tanto tempo no poder, ele não pode ser simplesmente descartado em sua capacidade de formar maiorias. Há, portanto, uma chance da base de Temer derreter no Senado. Mas a tendência é pelo contrário. Cabe lembrar que mesmo com a saída de Eduardo Cunha da Câmara, o governo se manteve intacto na base do toma lá da cá. Portanto, não é de se duvidar que no Senado, a PEC passe novamente com folga. O que une a todos? A necessidade de estancar sangria.

Presente de grego

Com o afastamento de Renan, a presidência do Senado cai nas mãos do PT no pior momento. Do jeito que estava, o partido podia espernear à vontade e alegar que qualquer resultado era fruto do golpe parlamentar. Agora, com a caneta, Jorge Vianna pode frear a votação da PEC como pede a militância. Seria um ato de heroísmo e coerência que a sigla não tem demonstrado há tempos. No fim das contas, poderá ter assinatura petista a aprovação da PEC ou servir como contragolpe.

 

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