Educação do campo: as conquistas das mulheres camponesas no âmbito acadêmico

Compartilhe esta notícia.

Por Eduarda Aparecida Domingues*

“Dessa história nós somos os sujeitos/ Lutamos pela vida, pelo o que é de direito”. Gilvan Santos, na música Educação do Campo retrata de forma precisa a busca pelo direito de estudar protagonizada pelos povos dos campos.

Historicamente, a educação do campo foi negligenciada pelas políticas educacionais brasileiras, fato fundamentado no estigma social de que quem trabalhava na terra não precisava estudar1. Esse quadro de marginalização só começou a se modificar mediante as ações dos movimentos e organizações sociais do campo que articularam a luta pela terra a outras demandas políticas urgentes, como a luta pela democratização da educação2.

Esses movimentos populares compreendiam a educação como elemento central na luta pela transformação da problemática agrária. Como fruto das lutas travadas, em 16 de abril de 1998, por meio da Portaria nº 10/98, o Ministério Extraordinário de Política Fundiária criou o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera)3.

De acordo com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Pronera, em 20 anos, foi responsável pela escolarização de mais de 190 mil camponeses e camponesas, da alfabetização de jovens e adultos até a pós-graduação4.

Aos poucos, o latifúndio do saber vem sendo ocupado por essa classe historicamente excluída, possibilitando que muitas famílias e comunidades sejam transformadas.

Neste final de abril, 24 anos após a criação do Pronera, essa política pública que é um divisor de águas para a educação do campo, comemoramos as conquistas das mulheres camponesas no âmbito acadêmico, que mesmo diante de uma conjuntura sócio política tão adversa, perseveram na luta pela transformação social por meio da educação.

À vista disso, convidamos a companheira Renata Caroline da Silva, militante do MST e recentemente aprovada em medicina pela Universidade Federal do Paraná – UFPR para um breve diálogo.

Ao perguntar sobre a importância de ser aprovada no curso de medicina na Universidade Federal do Paraná, Renata conta que: “A conquista desse espaço é importante em muitos sentidos. A primeira, claro, é devido ao perfil altamente elitizado dos estudantes de medicina no Brasil, realidade que se alterou em partes com as políticas de cotas, e que acaba refletindo diretamente na classe médica brasileira e seus interesses.

Observando a atuação do Conselho Federal de Medicina durante a pandemia, por exemplo, percebe-se para onde apontam os interesses dessa porção da classe médica, completamente desvinculada da realidade e do método científico, e a urgência em fortalecer o trabalho contra hegemônico de muitos coletivos que se comprometem verdadeiramente com a saúde pública. Meu desejo é somar-se nesse processo.

Por outro lado, tenho recebido muitas mensagens e auxiliado vários jovens nos estudos pré-vestibular. Acho que esse é um lance importante também, compartilhar a experiência, as estratégias, e, por que não, os perrengues que enfrentamos pela jornada.

O último aspecto que gostaria de destacar é sobre o papel das organizações populares nessa conquista. O estudo para o vestibular é um momento muito solitário, às vezes, mas é só uma parte da trajetória, antes dele tive uma longa formação no MST e aprendi muito sobre história, sociologia, filosofia, biologia, método e disciplina.

Estudar com uma bagagem dessas e pensar sempre em estudar para contribuir melhor com o Movimento foi o ponto chave da aprovação em Medicina. Felizmente, na luta nunca estamos sozinhos e podemos construir, compartilhar e comemorar conquistas como essas”.

A aprovação da companheira Renata no curso de medicina é uma grande e importante conquista coletiva e certamente irá impactar a vida de muitos jovens que partilham esse sonho. Sobretudo irá mostrar que “o conhecimento não é propriedade de / ninguém e pertence ao povo!5

Cabe ainda destacar a conquista de 3 companheiras egressas da Turma Nilce de Souza Magalhães (2015/2019) da Universidade Federal do Paraná, por meio do Pronera, que recentemente concluíram o mestrado obtendo nota máxima pelo desenvolvimento de suas dissertações. São elas: Jaqueline Pereira de Andrade, militante do MST e mestra em direito pela UFPR; Iara Sanchez Roman, militante do MST e mestra em direito pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná – PUCPR; e, Isabel Cortes, militante do Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB e mestra em direito pela PUC.

A dissertação de mestrado de Jaqueline foi sobre o tema “A PROTEÇÃO DA BIODIVERSIDADE PELOS SABERES COMUNITÁRIOS: um estudo dos Protocolos Bioculturais na América Latina”; a de Iara sobre “ARROZ DEU CACHO E O FEIJÃO FLORIÔ: a Reforma Agrária popular do MST e a construção da agroecologia” e a de Isabel sobre “A GÊNESE COLONIAL DO AUTORITARISMO BRASILEIRO: colonialidade, coletividade e direito”.

Aos poucos, a educação do campo vai se tornando uma realidade e possibilita que jovens mulheres camponesas e militantes possam concretizar o sonho de acesso à educação superior pública e de qualidade, que por tantos anos foi ocupada majoritariamente pela elite brasileira.

Bibliografia:

1 PARANÁ, Governo do Estado. Educação, Secretaria do Estado da. EDUCAÇÃO, Superintendência da. DIRETRIZES CURRICULARES DA EDUCAÇÃO DO CAMPO. Curitiba/2006. Disponível em: <http://www.educadores.diaadia.pr.gov.br/arquivos/File/diretrizes/diretriz_edcampo.pdf> Acesso em abril de 2022.

2 BARBOZA, Lia Pinheiro. Educação do campo, movimentos sociais e a luta pela democratização da educação superior: os desafios da universidade pública no Brasil. Buenos Aires, Clacso, 2014. Disponível em <http://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/becas/20141204110258/EnsaioPremioKrotschLPB.pdf> Acesso em abril de 2022.

3 INCRA. História do Pronera. Disponível em: <https://antigo.incra.gov.br/pt/educacao.html?id=230>. Acesso em abril de 2022.

4 MST. 8 razões para defender o Pronera. Disponível em: <https://mst.org.br/2020/03/18/oito-razoes-para-defender-o-pronera/>

5 Poesia Que a universidade se pinte de povo – Adaptação livre realizada pelo CJC-MST/MS, da poesia palestina “Persistiremos” e frase do Che “que a universidade se pinte de povo”. Disponível em: <https://www.facebook.com/educampo.unir/posts/2072119233013238/>. Acesso em abril de 2022.

* Eduarda Aparecida Domingues é advogada formada pela Universidade Federal do Paraná e pós graduanda em Direito Penal na Faculdade Metropolitana, assentada, militante do MST e colunista do Terra Sem Males. Instagram: @eduardaadvocacia

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *