Eleições 2016: ganhou, mas levou?

Compartilhe esta notícia.

por Manoel Ramires
Pinga-Fogo, Terra Sem Males

O segundo turno de Curitiba tem dois candidatos apoiados pelo Palácio Iguaçu. Rafael Greca, o primeiro colocado com 38,3% dos votos, teve a máquina de Beto Richa, o modus operandi e ideias. Mas o governador não apareceu no programa eleitoral sob risco de perder voto. O outro candidato do Palácio Iguaçu é Ney Leprevost com 23,6%, apoiado por Ratinho Jr, secretário de desenvolvimento. Caso venha vencer, é natural que faça as pazes com o comando do estado.

Por outro lado, a vitória clara da direita não é tão nítida assim. Sua ascensão se valeu do desgaste do campo de esquerda e progressista, entre eles o agora ex-prefeito Gustavo Fruet. O campo conservador soube tirar proveito de uma onda moralista e saudosista na capital. Por isso a dobradinha do segundo turno será “a volta do bem”, numa mistura dos slogans. Durará quanto tempo essa ressaca é o que se verá a partir de 2017.

Despolítica venceu

Assim como Dilma Rousseff em 2014, o próximo prefeito pode ganhar, mas não vencer. O eleitorado demonstrou grande aversão às urnas em sua quantidade de votos nulos, abstenções e votos em branco. Em Curitiba, esses “votos” chegaram a 211 mil eleitores. Ou seja, Greca, que fez 356 mil votos, tem contra si 932 mil aptos a votar. Se ele quiser realmente o governo de unidade, no segundo turno tem como meta se aproximar 644 mil eleitores, a metade dos 1,28 milhão de eleitores.

Esse mesmo vácuo se identifica em São Paulo, onde a vitória do PSDB e vergonhosa derrota do PT tem como principal índice a “renúncia a todos os candidatos”. Foram 3.096 milhões daqueles que disseram “não” aos candidatos contra 3.085 milhões daqueles que votaram em João Dória. Se levarmos em conta os 8,88 milhões de eleitores na capital paulistana, isso demonstra que 5,8 milhões não querem Dória.

Nova democracia

Um fenômeno muito importante de se observar é qual democracia o brasileiro tem construído. A partir de 2014, as ruas foram tomadas. Manifestações foram utilizadas como argumento para a queda da presidenta. Muito embora, o número de manifestantes – dos dois lados – é muito menor do que a quantidade de brasileiros que não saíram de casa.

Agora, esse pleito municipal coloca frente a frente “o gigante” que protestou contra o “dorminhoco” que abriu mão da decisão ou decidiu por ninguém. Se a quantidade de dorminhocos aumentarem no segundo turno, isso significa que as urnas assumem papel secundário na vida dos brasileiros. Independente disso, “aqueles que não se interessam por política serão governados por aqueles que se interessam”.

Cooptação e coalização

Nada mudou na política brasileira com relação às alianças eleitorais. Pelo contrário, o jogo do ‘toma lá da cá’ pode estar se intensificando. Curitiba é um exemplo claríssimo disso. O vencedor do primeiro turno, Rafael Greca, cresceu no pequeno PMN – sem qualquer máquina partidária. Por trás dele tem os poderosos PSDB, DEM e PSB, além dos nanicos PTN, PSDC e PTdoB. Já Ney Leprevost, conservador do PSD, juntou o fundamentalista PSC e os comunistas do Batel do PCdoB. Nesse sentido, o que manda ainda é o pragmatismo político e não a convicção ideológica.

Por outro lado, se os vereadores forem fiéis aos projetos e coligações que os elegeram, nem Rafael Greca ou Ney Leprevost terão facilidade para governar. Podem ficar reféns do legislativo municipal. Dos 38 vereadores eleitos, Greca conseguiu 13 cadeiras. Outros 25 vereadores – a maioria – são de alianças que fizeram oposição ao candidato. Já Ney Leprevost teria vida pior. Em tese, a sua coligação não tem 31 aliados.

Mas, com o segundo turno e as coalizações, esse apoio pode mudar. E mudará mais ainda após a definição do próximo prefeito, em que muitos “opositores” virarão aliados.

Perdeu feio

O PT, nacionalmente, é o grande derrotado na eleição municipal. A Lava Jato enfim lavou a alma. E o partido pode ficar menor se continuar culpando Temer, a Mídia e a Operação pela sua recente incapacidade de avaliar os próprios erros.

Perdeu bonito

Gustavo Fruet desprezou antigos aliados que poderiam o levar ao segundo turno. Apostou no discurso conservador que preferiu ficar com Greca e Ney. Se tivesse conservado o PT, em números, estaria ainda na disputa. Ou não. Poderia estaria pior.

Perdeu sem querer ganhar

O PSOL apostou mais uma vez em seu curral e não fez uma cadeira na CMC. Talvez tenha chegado a hora de os universitários sentarem em outro banco e aprenderem a tentar construir maioria nos votos, já que no discurso não dá. Freixo, no Rio, é o grande mestre. Lá vai ter que formar frente ampla com PT, PCdoB, Rede e PDT.

anuncio-tsm-posts

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *