Entrevista exclusiva com Dom Enemésio, presidente da Comissão Pastoral da Terra

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“A Igreja Católica ficou eclipsada nesses dois últimos pontificados.”

Dom Enemésio na abertura do IV Congresso Nacional da CPT. Foto: Joka Madruga

Durante o IV Congresso Nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT), o catarinense Dom Enemésio Angelo Lazzaris, bispo de Balsas, no Maranhão, há 7 anos, foi entrevistado pelo editor do site Terra Sem Males, o repórter fotográfico Joka Madruga. Dom Enemésio está prestes a completar 40 anos de sacerdócio. A diocese que ele comanda pertence ao Regional Nordeste, ao sul do estado, que faz divisa com o Tocantins e o Piauí.

Ele fala sobre a atuação da CPT, da Igreja e do papado de Francisco que se aproxima dos povos. E também sobre estar à frente da CPT, dos povos que lutam pela terra. Outros temas abordados foram sobre a água e o combate ao trabalho escravo. Confira:

TERRA SEM MALES: Como que é esse desafio de estar à frente de uma pastoral tão importante e que tanto fez e faz nos rincões deste Brasil, como presidente?

DOM ENEMÉSIO: Quem me indicou para ingressar na CPT, que eu sempre admirei, foi dom Xavier Gilles de Maupeou d’Ableiges, um bispo francês emérito da diocese de Viana no Maranhão. Ele era o presidente, me indicou como vice em 2009 e desde então estou na coordenação da CPT Nacional. Sem dúvida alguma uma pastoral de fronteira, porque ela está em contato com as questões agrárias, sobretudo com os camponeses e aqueles que lutam para permanecerem na terra. Aqueles que lutam por um pedaço de chão, para manter sua dignidade como lavradores. Na verdade é um desafio muito grande para um bispo, também, por causa da distância. Pois tenho que sair de Balsas-MA e ir para Goiânia, onde normalmente se realizam as reuniões da coordenação nacional da CPT. Mas é uma atividade, uma pastoral que satisfaz, que me faz feliz, que me ajuda muito a permanecer atualizado e em contato com as realidades, as lutas do povo pela reforma agrária, pelo limite de propriedade, a luta das comunidades tradicionais para poderem permanecer nos seus territórios e terem seus territórios demarcados. É um trabalho onde a gente faz o possível para que os camponeses sejam agentes da própria mudança, da própria transformação, que sejam eles os protagonistas das mudanças necessárias no campo e em relação às questões agrárias.

Uma das atuações da CPT é o combate ao trabalho escravo. Quem são os parceiros da CPT nessa frente de batalha?

Na verdade as primeiras situações de trabalho escravo denunciadas publicamente por um organismo de peso político como a Igreja, foram feitas por Dom Pedro Casaldáliga, bispo de São Félix do Araguaia-MT, nos anos 1970. Depois aos poucos esse enfrentamento, esse combate, foi se organizando dentro da CPT. Em 1997 foi criada pela CPT a “Campanha De Olho Aberto para Não virar Escravo”, que entre suas atividades se ocupa da denúncia, acompanhamento dos trabalhadores resgatados e formação para que outros não caiam nessa rede criminosa. Também houve contato com órgãos do governo para reforçar o trabalho. Para autuar esse crime são necessárias as entidades governamentais. Sem o governo não teríamos como flagrar essas situações. A CPT é encarregada de perceber, receber as denúncias e acompanhar a fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego e Polícia Federal. Constatada a situação de trabalho escravo, o fazendeiro, proprietário ou o responsável pelo grupo de trabalhadores é autuado, multado e tem que pagar no ato as dívidas trabalhistas com os trabalhadores.

Dom Enemésio, durante uma celebração. Foto: Joka Madruga

Houve algum avanço da Justiça para coibir a violência no campo ou a impunidade continua?

A CPT registra os dados dos conflitos e violência no campo em sua publicação anual, Conflitos no Campo Brasil. É um relatório que é cientificamente elaborado com especialistas. Não existe no território nacional uma outra pesquisa mais bem feita do que essa. Todos os anos esse material da CPT é publicado. Esse ano a CPT comemora 40 anos de fundação e essa publicação tem 30 anos. Um dos elementos que tem provocado a violência no Brasil, não somente contra o campesinato, é a impunidade. O relatório registrou nesses 30 anos entre 1.730 a 1.740 assassinatos no campo. Mas desses assassinatos, somente 80 foram a julgamento, foram condenados 50 autores de crimes e somente 2 ou 3 mandantes. A impunidade no Brasil é uma das causas que gera tanta violência. Não somente no campo como na cidade. Felizmente nesses últimos anos, na nossa pesquisa, temos constatado que o número de assassinatos tem diminuído. Mas o número de conflitos tem aumentado, sobretudo por causa do avanço do agronegócio, da necessidade de mais terra. As ameaças tem aumentado muito nos últimos anos. Então esses conflitos são causados seja pela impunidade, pelo avanço do agronegócio ou pela mineração. Que hoje em dia, as mineradoras também são um problema sério. O subsolo não pertence ao proprietário, é do governo. Então muitas vezes as mineradoras se apoderam de território alheio. O que se tem percebido é sempre mais uma falta de atenção ao pequeno proprietário, ao camponês, ao indígena, ao quilombola, ao pescador. Essas comunidades tradicionais sempre são mais afetadas e impactadas por esses grandes projetos e aí se dá o conflito. Para nós a impressão que se dá é que da parte do governo não há interesse claro e objetivo de defender esses pequenos proprietários, essas comunidades tradicionais. Que precisam do território pra viver, para pesca, caça, plantio. Nós esperávamos que nestes últimos anos os governos do PT, Lula e Dilma, dessem uma atenção maior, seja à reforma agrária, seja aos assentamentos. E as leis que já foram aprovadas em 1988, com a Constituição Federal, correm o risco de serem desconstruídas. Leis que garantem direitos as comunidades tradicionais, quilombolas, povos indígenas, essas leis se não se cuidar aos poucos vão ser desconstruídas, em vista do avanço do agronegócio, que não respeita o ser humano e respeita menos ainda o planeta e os nossos tantos biomas do Brasil.

A postura do Papa Francisco defendendo palestinos, reforma agrária, se reunindo com camponeses e com os movimentos populares é bom para a Igreja?

Olha, o papa Francisco reúne duas grandes virtudes: a simplicidade e a pobreza de São Francisco de Assis. Por isso escolheu o nome Francisco. E a inteligência e a sabedoria de Santo Inácio de Loyola, dos jesuítas. Entre os sacerdotes, os padres jesuítas são famosos por serem bem preparados intelectualmente. E Francisco tem o coração aberto, generoso, sensível ao ser humano em todas as situações de exclusão. Por isso que ele sempre pede e insiste para que a nossa igreja seja missionária. Mesmo que seja machucada, maltratada, sofrida ou ferida, é melhor que ser uma igreja fechada, acomodada. Recomenda que os pastores tenham cheiro de ovelha, que estejam no meio do povo. Sempre disse, digo e direi, que o Papa Francisco é a grande graça que Deus concedeu à igreja no século XXI. Não sei se nós teremos na igreja católica nos próximos 100 anos, uma graça maior do que essa. Assim como no século passado a grande graça foi o Vaticano II, proposta realizada pelo papa João XXIII e depois pelo papa Paulo VI. Pra mim foi muito divino, muito providencial depois de um tempo de eclipse. A Igreja Católica ficou eclipsada nesses dois últimos pontificados. Papas muito bons. João Paulo II e Bento XVI. Mas estava muito voltada para si, voltada para dentro. A igreja vinha perdendo essa consciência de que ela não pode ficar só dentro do templo. Ela precisa sair, precisa estar na rua, estar na praça, ela não pode ficar só na montanha, no alto. Ela tem que descer para a planície, ela tem que estar no meio do povo. Eu acho que o papa Francisco traz para o mundo todo, para a igreja católica sobretudo, uma prática de um pastor latino-americano. Já vivenciada por ele na Argentina. Uma prática que nós, na América Latina, também vivemos. Temos essa necessidade de estar com o povo. Linguagem mais simples, direta, sem tantas cerimônias, sem tanto protocolo. Como é bonita essa simplicidade. Tomara que ele prossiga nesse ritmo obstante às oposições. Ele sabe que há pessoas influentes, grandes, na igreja que gostariam que continuasse a tradição, gestos, cerimonias, rituais, aquele protocolo. Tem gente que paga pra que essas coisas continuem. Uma coisa eu te digo, o que está precisando é que os pastores, os padres, nós bispos também não fiquemos só na admiração daquilo que o papa pede e faz. No aplauso. Mas que a gente comece a viver isso na nossa realidade, nas nossas dioceses. Mais simplicidade, mais pobreza. Por que tantos carros, carrões? Vamos andar de van, de ônibus, gastar menos dinheiro, nos identificar cada vez mais com os pobres. Não basta a gente falar de pobreza, a gente precisa viver a simplicidade, dar sinais, ser sinais da pobreza.

Dom Enemésio na celebração final. Foto: Joka Madruga

Este é um ponto que às vezes é até um incômodo para algumas pessoas da igreja, que é a posse de bens materiais. A Igreja fala de pobreza mas é rica, como lidar com isso?

Sou um religioso com voto de pobreza, obediência e castidade. A minha congregação de dom Orione. Ano que vem faço 50 anos de vida religiosa. Tempos atrás, quando a gente não tinha condições materiais, era fácil a gente ser pobre e dizer eu sou pobre e vivo como pobre. Não tinha carro, não tinha os meios. Hoje em dia em qualquer convento, qualquer seminário, qualquer paróquia, qualquer diocese que você vai tem carro. Tem casa boa, tem seu dinheirinho, tem possibilidade de viajar. Não se viaja mais tanto de ônibus como se viajava, se viaja de avião. Então o desafio hoje é muito mais difícil ser, mas é mais necessário. Num mundo hoje, onde as pessoas estão essencialmente preocupadas com bens materiais, como é que o bispo, o padre possa mostrar e ser exemplo para o mundo, de que não estou apegado a bens materiais? Eu sou capaz de viver com o necessário. A gente tem que fazer essa operação. Agora a igreja, parto da minha diocese de Balsas, no Maranhão, onde eu trabalho. Um dos bispos anteriores a mim, dom Rino Carlesi, e que seu episcopado teve mais de 30 anos, de 67 a 99, sendo 17 em Balsas-MA. Naqueles bons tempos, depois de Puebla e Medelín (conferências dos bispos da América Latina), ele conseguiu na Itália, através dos parentes e religiosos, dinheiro para comprar terras. Numa época que a opção preferencial pelos pobres surgiu forte na igreja. Ele dividiu estas terras para milhares de famílias. Ele comprava terras a preço barato para dividir com as famílias. Coisa que era para o governo fazer. Agora é lógico, eu acho que muitas vezes a gente tem que dar o braço a torcer, muitas vezes o pessoal tem razão em nos criticar. A gente em certos momentos tem que bater no peito: minha culpa, minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa. Porque a Igreja Católica às vezes tem muitos bens. Na minha diocese a gente tem bastante imóveis, casas, terrenos, mas estamos pagando para ter. São improdutivos, a gente não consegue produzir. Seria o caso de se desfazer. Vender por um preço razoável ou distribuir, dar para assentamentos.

O fato da CPT chegar aos 40 anos é sinal de que ela já amadureceu ou ainda é jovem?

Devido ao contexto social no qual hoje vivemos no Brasil e também do contexto internacional, tenho a impressão que estamos sendo provocados.  Quanto maior a provocação, mais as pessoas precisam de indicativos. É pra direita? É pra esquerda? É pra frente, é pra trás? É tanto o descredito nas instituições governamentais, na classe politica, no executivo, no legislativo no judiciário que as pessoas precisam de grupos, de pastorais, de igrejas, de pessoas que realmente mostrem qual é o rumo. Eu creio que a CPT cresceu muito nesses 40 anos, amadureceu, se solidificou, se fortificou e esta é uma das virtudes da CPT. É a capacidade de auto reflexão, auto análise, auto crítica, de retomar sempre e ver sua originalidade, sua missão, sua mística. Mas de perceber e estar atenta aos sinais dos tempos, sobretudo essas sinalizações que vem da terra, do campo, das comunidades tradicionais, do combate ao trabalho escravo. Essas sinalizações que são provocadas por uma determinação de uma politica econômica, totalmente favorável ao agronegócio. São provocações que obrigam a CPT, numa situação como esse do IV Congresso, a se auto avaliar e a fazer um caminho que realmente corresponda às expectativas e aos desafios. Eu penso que as provocações hoje são tamanhas que obrigam a CPT a tomar realmente decisões que levem, que alimentem a esperança dos camponeses, dos ribeirinhos, dos pescadores, dos quilombolas. Estamos numa situação privilegiada. Mas quanto maior, mais problemas, dificuldades, maiores desafios. Mas condições de sermos criativos nós temos. Criatividade a gente tem para poder corresponder às ânsias e expectativas das tantas formas de comunidades camponesas. Extrativista, ribeirinhos, de agricultura familiar, pescador. Eu creio que o Divino Espírito Santo e o Deus Pai vai nos ajudar a tomar decisões muito claras e objetivas para os próximos anos.

Dom Enemésio com a camisa do Criciúma, time de sua terra. Foto: Joka Madruga

Com o avanço do agronegócio e dos megas projetos, como fica a questão da água, especialmente dos atingidos por barragens?

Nesses conflitos dos últimos anos, a CPT passou também a registrar conflitos por água que estão aumentando. E as consequências são as grandes barragens das usinas hidrelétricas, as indenizações não pagas, os deslocamentos de comunidades inteiras que tem que ser transportados, comunidades que vivem há anos com o território inundado. Cada um vai para um canto. Então essas comunidades, pessoas, famílias são desenraizadas, arrancadas,  que gera um conflito grande, um impacto grande para aquela comunidade. E no agronegócio a água é usada para irrigação. E existem aquelas pessoas que cercam a água ou fazem pequenos açudes para irrigar, enquanto que quem mora mais adiante fica com pouca ou sem água. No Maranhão, e em outros estados, temos o problema da pulverização. Acabam poluindo as fontes e os mananciais das comunidades que moram nos baixões. As planícies estão todas tomadas pela soja, milho, algodão, cana, eucalipto. O pessoal passa por cima, polui. Essa crise hídrica, pelo descontrole do clima. Acabamos agora o inverno, o tempo da chuva, final de maio, começo de junho, o rio Balsas já está num nível tão baixo como se estivesse no final do verão, que é outubro. Então a questão do desmatamento, do assoreamento, gera conflitos. Quem trabalha na chapada ara a terra e quando chove a água desce e vai entupir olhos dágua, fontes, córregos. Matam de sede as pessoas, os animais, os sertanejos que estão nos baixões vivendo da agricultura familiar e de sobrevivência. A crise hídrica vai ser sempre e cada vez mais forte, mais violenta se a gente não mudar um pouco de sistema. Buscar outras fontes de energia e diminuir a retenção de água das grandes barragens, diminuir o uso da água para fins comerciais. Cada vez mais a água é comercializada. Água não é pra ser comercializada. Terra não é pra ser comercializada. Mas infelizmente o mercado se apodera desses recursos naturais e passa a controlar e cobrar por coisas que deveríamos ter sem nenhum ônus, nenhum pagamento.

Para encerrar, uma mensagem para os agentes pastorais e a militância camponesa.

A mensagem nas palavras do papa Francisco, no discurso na Bolívia, é de que todas essas comunidades tradicionais, pescadores, quilombolas, remanescentes de afrodescendentes, indígenas que lutam pela demarcação, são aqueles que vão garantir o equilíbrio da natureza. São nesses espaços que a gente tem a possibilidade do bem viver. São espaços onde realmente o ser humano vive em harmonia com o planeta, a terra, a mãe natureza. É preciso sempre mais que os seres humanos tenham essa sensibilidade. Nós dependemos do cuidado que temos com a terra, com o planeta. Se cuidarmos da água, da terra, das matas, nós teremos condições de vida de boa qualidade e mais vida pra nós e para todos os seres vivos. Se não cuidarmos e continuarmos maltratando a mãe natureza, nossa vida será sempre mais complicada e encurtaremos a nossa visa e a vida do planeta.

Celebração dos Mártires no IV Congresso da CPT. Foto: Joka Madruga

Joka Madruga
Terra Sem Males, com colaboração de Paula Zarth Padilha e Cris Melo.

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