Estamos mais violentos

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Por Manolo Ramires
Pinga Fogo
Terra Sem Males

1 – O brasileiro cordial, onde o encontro? O acirramento dos ânimos políticos tem escanteado pautas importantes para a nação. Uma delas é a violência. Mais do que isso, o sê violento. Não se trata de abordar números aqui e acolá (o que faremos abaixo), mas parar e refletir: onde queremos chegar armados nas palavras, nas ações e nos meios digitais? A cada dia e de forma mais intensa, agredimos reputações, matamos fatos, atiramos para todos os lados sobre todos os assuntos.  O brasileiro dessa década será identificado pelos sociólogos como seres de mentes armadas?

2 – Um fragmento dessa consciência bélica se demonstrou no fim de semana após atentado que matou mais de 50 pessoas (repito, pessoas), em uma boate homossexual nos EUA. Nós entramos nessa guerra também. O primeiro general a disparar contra a razão foi o deputado Marco Feliciano. Ele foi ao Twitter e atirou: “Triste a tentativa de grupos LGBTT de usar esta tragédia para se promover. Como se a razão deste ataque fosse apenas homofobia”. Feliciano, nem colete a prova de asnice (viu como estamos violentos) é capaz de nos proteger de lideranças como você. Em outro contexto, é como se um alemão dissesse: “Triste a tentativa de judeus de usar esta tragédia para se promover. Como se a razão deste ataque fosse apenas o nazismo”.

3 – Invariavelmente, tentamos depositar nossa violência em terceiros. Arranjar-nos álibis. Na semana passada, após confronto entre torcedores palmeirenses e flamenguistas em Brasília, tentou-se criminalizar o futebol: réu perfeito. Contudo, a defesa do goleiro Fernando Prass foi fantástica. Disse ele que um país em que a polícia mata uma criança de dez anos, esteja ela armada ou não, tem problemas maiores (ou no mesmo tamanho) do que briga de torcidas. Após dizer isso, a versão da polícia de que o disparo partiu do menino foi contestada.

4 – Agora, vamos aos números dessa metralhadora da vida. No Paraná, a Polícia Militar “mata em confronto” uma pessoa a cada 35 horas. São 214 assassinatos entre janeiro e maio de 2016. Isso faz parte de uma cultura do “atire antes e pergunte depois” que teve ápice no ano passado quando o Estado escolheu atirar por duas horas contra professores em greve. Aliás, esse é mais um sintoma de que estamos violentos. Os governantes, na incapacidade de tratar politicamente demandas políticas, sejam de sindicatos, estudantes, sem tetos, só tem os “mata leões”, gás de pimenta e balas de borracha para dialogar. Um exemplo clássico é o estado de São Paulo que trata chacina como apenas um caso em suas estatísticas.

5 – E se a política é tratada com violência, qualquer discussão atualmente é mais bem resolvida no chumbo. No Brasil, existem 15,2 milhões de armas privadas. Destas, mais da metade (8,5 milhões) não estão registradas.  Segundo o Mapa da Violência, “entre 1980 e 2012, morreram mais de 880 mil pessoas vítimas de disparo de algum tipo de arma de fogo. Nesse período, as vítimas passam de 8.710 no ano de 1980 para 42.416 em 2012, um crescimento de 387%”.

6 – Ou seja, em um país em crise, a indústria da arma e seus defensores têm crescido nas ruas e no parlamento. Segundo relatório fresquinho da ONU, o “Brasil é o quarto maior exportador de armas de pequeno porte”.  Os EUA, da tragédia na boate, lideram um mercado que movimentou R$ 5,8 bilhões de dólares (R$ 20 bilhões de reais). Ainda de acordo com a ONU, o Brasil não ratificou tratado sobre comércio de armas, que representou um marco na restrição de violações de direitos humanos que ocorrem por causa da falta de uma regulamentação eficaz na venda internacional de armas. Pelo contrário, neste momento os parlamentares querem fazer passar o “Estatuto do Armamento” para, em breve, termos nossos próprios matadores em série (além daqueles que já matam nas favelas em nome da ordem).

7 – Estamos mais violentos.  E a tendência é piorar, uma vez que estamos chacinando o debate em sala de aula com a pauta “Escola sem partido”. Estamos a proibir o debate politico e o acúmulo de conhecimento para aqueles que serão capazes de construir um “Brasil sem violência”.

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